O Discurso de Vitimização e a Manipulação das Massas em Angola
Está em curso uma controvérsia depois do músico Claytom M ter dito que “os Jovens Da Minha Geração Não Gostam De Trabalhar”. Tirando a veracidade ou não da frase, o debate revelou algo mais profundo: nós em Angola estamos viciados em discurso de bajulação. Não é apenas o governante que é bajulado, obviamente que é fácil entender que um governante seja bajulado, porque o governante pode te dar dinheiro e ele tem poder, mas os pobres também são bajulados. Se você for um político você bajula o pobre para ganhar votos, se você for um comunista você bajula o pobre para o manipular, para transformá-lo em massa.
O discurso político de Angola se limita à tática comunista do fomento “da massa”, sendo que “massa” significa pessoas que podem ser mobilizadas e utilizadas para a conquista do Poder pelo partido comunista. O discurso de massa transforma o Angolano em uma vítima total e cria um inimigo imaginário que tem de ser destruído (sistema, colonialismo, MPLA, etc), para que possa finalmente se atingir a utopia e felicidade. Quando se diz a alguém que as circunstâncias da sua vida, a sua pobreza não é culpa sua, mas sim resultado da opressão do governo, do partido político, do colonialismo ou do neocolonialismo, cria-se nessa pessoa primeiro um sentimento de revolta, segundo um desejo de vingança e terceiro essa pessoa não vai estar interessada em mudar a sua vida porque percebe que a razão pela sua circunstância não tem a ver com ela, mas sim com outra coisa.
A beleza deste sistema está no facto que o homem massa nem precisa estar filiado ao partido para ser um instrumento do partido, pois depois de ser “consciencializado”, toma conclusões que são a favor do partido e responde palavras de ordem que podem ativar a sua combatividade em momentos cruciais. Não estou a falar de algo teórico. Pense no vandalismo durante a greve dos taxistas, que apesar de não ter sido planeado e ordenado de maneira imediata, foi desejado porque existem dezenas de milhares de Angolanos que foram adestrados de modo a aceitar estes atos como normais e mesmo necessários para salvar Angola. Houve pessoas no Facebook, em podcasts, a dizer que o vandalismo era um ato político necessário para salvar Angola, ou seja, os vândalos só tinham que parar de pilhar, roubar, destruir e agredir pessoas quando Angola mudasse. Transformaram o vândalo em vítima e esta vítima tem o direito de se defender, de retaliar. Quem normalizou os atos do arroz man, preparou o caminho para o saque do Arreou.
O mesmo discurso se aplica aos bandidos. Há pessoas que dizem que o batuqueiro, o assassino, é uma vítima da sociedade, que só rouba porque não tem oportunidade, a culpa não é dele. Ou seja, teríamos que sentar e deixar que todos os gatunos roubem porque os gatunos só vão parar de roubar quando o país for perfeito. A vida não funciona assim.
O País das Vítimas
Morato foi aplaudido no Facebook, um internauta escreveu que “este sim sabe falar”, por dizer que “o Jovem Angolano é vítima do sistema”, pois para a maioria dos Angolanos, o discurso de vitimização é confortável e agradável. A vítima não tem responsabilidade, aliás a vítima nada precisa fazer, só tem que esperar que a justiça seja feita. Por isto que este é o discurso que uma boa parte dos Angolanos querem ouvir.
Este discurso de vitimização é particularmente triste porque revela algo que nós angolanos temos: não acreditar na competência. Morato disse na sua intervenção que as pessoas que estavam à volta daquela mesa eram privilegiadas que receberam oportunidades, ou seja, segundo esta lógica, não existe o talento individual, basta receber a oportunidade e qualquer pessoa, independentemente do seu talento ou esforço, pode ser alguém. Isto é mentira. Existem pessoas com oportunidades, que receberam privilégios e que não foram nada da vida.
O exemplo mais claro em Angola é Zeno dos Santos. Tendo em conta o potencial e as oportunidades que recebeu, ele deveria ter feito muito mais do que fez. Compare-se com os seus irmãos: o Coreandu, apesar de ter um projeto cultural, conseguiu fazer alguma coisa; Isabelo dos Santos, nos negócios, conseguiu fazer alguma coisa; Zeno, tendo todos os privilégios do mundo, não conseguiu. E não é o único privilegiado fracassado. Lotte Beirão é outro bom exemplo: nunca trabalhou na vida, não precisa trabalhar na vida, nunca fez nada de jeito. O privilégio não é uma passagem automática para o sucesso.
A vida é feita de duas coisas: o que você faz e o que lhe acontece. O que lhe acontece você não consegue controlar – onde nasceu, quem são os seus pais, quem é o governo do país onde está e até um certo ponto as suas condições económicas. Você não consegue mudar isso. Pode mudar o futuro, pode votar para que no futuro mude, mas do momento que entrou no mundo, são coisas que não pode mudar. A única coisa que pode mudar é o que vai estudar, onde vai trabalhar, como vai estudar, como vai trabalhar e como vai lidar com os problemas da sua vida. Essas são as coisas que deve mudar e você como jovem, esse deve ser o seu foco. Não digo que não possa sonhar com um mundo melhor e mudar o mundo, mas mudar o mundo não pode ser a prioridade, porque não controla o mundo, não tem esse poder. Tem o poder de mudar a sua vida.
Imagine que nasça feio. Nasceu feio mesmo, não tem solução. Vai passar o resto da vida triste porque nasceu feio? Ninguém vai querer namorar consigo, não vai casar e não vai ter filhos? Claro que não. Pode fazer alguma coisa. Pode ser feio, mas se for gracioso, vai chamar a atenção. Pode ser feio, mas se trabalhar, tiver um bom emprego, dinheiro, ser socialmente reconhecido como uma pessoa de talento, vai chamar a atenção. Há coisas que pode mudar, que podem ajudá-lo a vencer as suas circunstâncias.
A Prioridade da Utilidade Política
Este discurso de massa prioriza sempre a utilidade política do assunto, nunca descrição concreta dos problemas e, aliás, o revolucionário tem medo das soluções porque o fim dos problemas significa a perda do potencial de massa. Por isto, por exemplo, Osvaldo Caholo tem um discurso contra a pessoa de classe média de Angola, que se contenta com “um conjunto de plásticos que chama de carro e uma casa na centralidade, quando pode ter mais”, ou seja, um pequeno burguês, como diziam os comunistas.
A retórica das “causas profundas” e da “origem dos problemas” remete-se à mesma tática, pois tenta-se fugir da solução para a coisa que realmente importa: Ajudar o partido a ganhar o Poder. Se falar de problemas que têm a sua origem nas próprias pessoas, vai ser acusado de “culpar a vítima” e “falar mal do povo”, sem nunca tocar na veracidade dos seus argumentos. A prioridade estará sempre em descrevê-lo como inimigo ou lacaio do inimigo.
Não estamos apenas diante de um oportunismo político, mas diante de uma forma padronizada de manipulação das massas por conta do domínio do pensamento comunista em Angola desde os anos 1950. É um discurso de estilo comunista, e o pior é que é um comunismo que as pessoas esqueceram que é comunismo, porque o objetivo aqui é causar desespero e revolta nas pessoas, para as manipular para fins políticos.
Mas Assim Não Podemos Falar dos Problemas do País?
Descrever um problema de maneira concreta é o primeiro passo na busca de soluções, seja o regime democrático ou autoritário, e partidos políticos espelham suas propostas de maneira concreta e de modo que os eleitores possam escolher de maneira consciente. Aliás, em vários casos, o partido no governo tenta pôr em prática, nem que seja parcialmente, uma política popular da oposição, de modo a limitar seu crescimento eleitoral, como aconteceu no Reino Unido com o referendo para a saída da UE.
O revolucionário tem medo de espelhar os seus planos de maneira concreta, pois eles não querem apenas resolver um problema, eles querem o Poder total para refazer a sociedade e sua única proposta concreta está em colocar o partido no Poder. Aliás, em uma entrevista na TV Zimbo, um político da UNITA disse claramente que não iria expor o plano de seu partido por medo que fosse copiado pelo MPLA.
Caso o plano seja copiado, aí o partido revolucionário entra em modo de negacionismo e relativismo, como aconteceu quando a UNITA respondeu aos hospitais construídos pelo MPLA dizendo que “era apenas betão e que faltavam médicos”, que “deveriam ter sido construídos nos bairros” nas palavras de seu presidente ACJ.
O Partido revolucionário não quer a política das propostas, porque o eleitor passa assim a julgar as suas escolhas políticas de maneira concreta, enquanto que sua escolha deveria ser apenas o partido. O Partido revolucionário quer um discurso político de massa, que transforme as pessoas em operários do partido mesmo que não sejam militantes, sendo que deste modo o partido colhe os frutos políticos sem se preocupar com gestão de militantes ou responsabilidade política em caso de violência. A ideia de Frente Patriótica Unida entra na mesma lógica, pois os assentos pertencem legalmente à UNITA e por isto não precisa conceder concessões aos seus aliados.
A Função Educativa do Discurso
Aqui entramos na função educativa do discurso político e cultural. As propostas de uma cadeira na universidade para “ensinar cidadania” feita por Luís de Castro, quando já temos a cadeira de FAI no ensino médio e Educação Moral e Cívica no ensino primário, fogem do problema. O discurso político e cultural permite às pessoas entenderem as causas de suas circunstâncias e as soluções socialmente aceites. Em Angola, o discurso político diz às pessoas que tudo é culpa do Estado e do Colonialismo, mesmo que a pessoa seja um alcoólatra com vários filhos e que nunca se empenhe a trabalhar. Ou seja, dizemos às pessoas que elas podem ter a vida mais irresponsável e nunca seriam responsáveis dos seus atos.
Então, não, nós não temos que cair no discurso de vitimização.
Fugir do tema.
O que esta em causa não é que o jovem Angolano seja preguiçoso, na verdade estamos diante de um tema mais ampla: Os Angolanos contribuem para a situação e económica do pais ?
Na visao do Clayton e do Luis de Castro, existe uma parte cota de responsabilidade individual, que somada desemboca em uma responsabilidade da sociedade.
Esta perspectiva esta correcto tendo em conta 3 factos :
1- A Economia é feita pelas pessoas, sendo que as consequenciais positivas e negativas de actos individuais somam e se acumulam com o tempo.
2- O Estado é constituído pelas pessoas, e as atitudes individuais depois se reflectem no Estado.
3- Existem um numero suficiente de indicadores negativos que demonstram que ha um problema cultural (gravidez precoce, baixa poupança, etc)
Dizer isto é descrito “como falar mal da vitima” pelos proponentes do discurso da vitimismo, porém se o povo Angolano é talentoso porque não há resultados? Se conseguem ter um impacto positivo, que seria bloqueado pelo sistema, como é possível que não podem ter um impacto negativo ?
Alias, este discurso traz duas maneiras concretas de melhorar a situaçao: 1) Abandonar as practicas danosas, 2) Aceitar que menos prosperidade individual é a consequência de escolhas individuais.
Em contraste, o discurso do Vitimismo, Que se resume perfeitamente nas palavras de Morato Custodio e Vidal, diz que o jovem é vitima do Sistema (político actual), da sequela da guerra, do colonialismo, e finalmente da escravatura. Ou seja, cada individuo carrega 5 seculos de oppressao, no minimo. As consequencias deste discurso ? 1) As pessoas ficam paradas e esperam que sejam salvadas, 2) multiplica se a maldade e ineficiencia individual porque se acredita que a soluçao total sera suficiente para eliminar todo acto individual.
Resumindo, este discurso deixa as pessoas confortaveis, pois a vitima nao tem responsabilidades, so precisa esperar que a justiça seja feita e nem precisa se sentir culpado por alguma maldade que cometer antes da salvaçao, afinal nao vai ser da mesma gravidade que as maldades do sistema e vai ser corrigido pela revolu
Curioso que Morato e Vidal fingem que seu discurso é uma novidade, quando foi e ainda é o discurso dominante em Angola.








Em 2008 pedi a minha reintegração no Ministério da Juventude, de cujo quadro de pessoal sou efectivo, com a categoria de 1° assessor. Muandumba e Pitra Neto não quiseram reintegrar-me. Escrevi a pedir ajuda ao então presidente do Grupo Parlamentar do MPLA, Gigí. Nunca reagiu. Escrevi ao Secretariado do BP. Fui recebido por Roberto de Almeida, mas nada mudou. Alfredo Júnior e Rui Falcão “arranjaram-me” o emprego de adido de imprensa na Suiça em 2010, 2011 (lembraram-se que a JMPLA dera-me um curso básico de jornalismo e que fui correspondente do jornal Juventude na Huila). Mas acho que acabei por não satisfazer Carolina Cerqueira (ou o seu gabinete). Quando apercebeu-se disso, José Maria dos Santos, Governador de Luanda, nomeou-me seu assessor político-social. Infelizmente não durou lá. Alguns meses depois descobri o peso do nepotismo, quando na CACL desempenhava o cargo de assessor da vice-presidente Francisca, durante o consulado do General José Tavares. Aí nem salário me pagaram. Davam-me um “vamos ver” de Kz.100.000.00 quando apetecia. Apanhei um AVC no final de 2012 e fui “desaparecendo”.




