O Conflito do Cazombo: O que Aconteceu em Agosto de 2026 e o que Está em Jogo

O Conflito do Cazombo: O que Aconteceu em Agosto de 2026 e o que Está em Jogo

O que aconteceu no Cazombo em agosto de 2026 não foi um incidente isolado. Foi o episódio mais recente de um conflito étnico com raízes na década de 2010 — e percebê-lo exige conhecer o contexto.

As origens do conflito

Antes de 2012, a tensão entre a etnia Luvali e os Lundandembo na região do Cazombo tinha uma dimensão essencialmente económica: rivalidade e rixa por recursos. A partir de 2012, o conflito ganhou uma dimensão ideológica e política, centrada numa questão específica: quem tem legitimidade para exercer autoridade tradicional na vila do Cazombo.

De um lado, o soba Sipaia dos Luvali, que reclama precedência histórica — terá sido o soba Luvali a receber o primeiro administrador português que chegou à zona. Do outro, o soba Chinunque dos Lundandembo, que se estabeleceu na vila durante a Guerra Civil juntamente com outros sobas refugiados. Segundo a posição dos Luvali, o Chinunque foi acolhido na condição de cidadão comum, não de autoridade tradicional, uma vez que a vila já tinha um soba. A maioria dos outros sobas refugiados que chegaram durante a guerra regressou entretanto às suas zonas de origem — alguns com apoio do governo, que construiu residências nessas zonas, como o soba Djimba e o soba Shivanda, que regressaram em 2016. O soba Chinunque recusa-se a fazer o mesmo.

A radicalização a partir de 2021

Em 2021, o conflito escalou. O soba Chinunque passou a alegar que o território pertencia aos Lundandembo antes da chegada dos Luvali — invocando o tempo do Império Lunda-Tchokwe. E, alegadamente, constituiu uma milícia denominada Moindas para sustentar essa pretensão pela força.

A partir daí, os Moindas terão perpetrado uma série de ataques com armas brancas — catanas, flechas, azagaias e caçadeiras tradicionais — contra Luvalis nas lavras: assaltos a pessoas, queima de cabanas, usurpação de bens e destruição de cultivos. O resultado: mais de 15 feridos graves e pelo menos dois mortos.

Perante este quadro, alguns Luvalis acusaram a polícia de inacção — e até de cumplicidade, alegando que elementos detidos em flagrante teriam sido libertados sem consequências. As explicações avançadas para essa suposta inacção variam: uma alegada relação de proximidade entre o então governador do Moxico, Mandumba, e o soba Chinunque; uma suposta antipatia étnica dos agentes da polícia local, maioritariamente Tchokwe e portanto próximos dos Lundandembo; ou ainda uma alegada aliança entre o Chinunque e o movimento protetorado Lunda-Tchokwe, conhecido como Malakitas, ao qual a rainha dos Luvali se opõe. São alegações — e em conflitos desta natureza há sempre acusações cruzadas. Mas o sentimento de abandono era real, e foi isso que desencadeou os confrontos de 2021 na vila do Luvali entre as duas comunidades.

A intervenção de Luanda

Face à gravidade da situação, houve intervenção directa da presidência da República. A rainha Nakatolo foi recebida no Palácio da Cidade Alta em 2021 e recebeu garantias do poder central de que a ordem seria restabelecida e os seus representados protegidos. Seguiram-se outras visitas em 2024 e 2026, no âmbito das discussões sobre a nova divisão político-administrativa — que resultou na criação da província do Moxico Leste, com a vila do Cazombo elevada a capital provincial.

Esta intervenção de Luanda não é, convém clarificá-lo, uma tomada de partido pelos Luvali. É uma defesa da ordem pública. O Estado não tem lados étnicos — tem a obrigação de proteger todos os cidadãos e de impedir que conflitos locais se transformem em violência generalizada.

O que aconteceu em agosto de 2026

Percebido este contexto, o episódio de agosto torna-se inteligível. Membros da realeza Lundandembo tentaram realizar um enterro dentro de uma zona residencial da vila do Cazombo — o que é, em primeiro lugar, ilegal: a lei angolana proíbe enterramentos em zonas residenciais. A polícia interveio para impedir o enterro ilegal.

Mas o acto não era apenas ilegal — era uma provocação deliberada. Enterrar o soba Chinunque no quintal da sua residência no Cazombo era afirmar simbolicamente os seus direitos sobre aquele território, em confronto directo com a autoridade do soba Luvali. Os Lundandembo sabiam que era uma provocação. Os Luvali percebê-la-iam como tal. E o Estado tinha a obrigação de a impedir precisamente por isso — para evitar que acendesse um conflito com antecedentes de violência grave.

A irresponsabilidade de alguns comentadores

Perante tudo isto, surgiram nas redes sociais publicações de uma irresponsabilidade que seria cómica se o assunto não fosse sério. O activista Hitler de Samusuko publicou que estavam “a brincar com o cadáver do soba Chinunque” e que “a polícia está a disparar contra o povo”. O deputado Nelly Littlequick declarou “solidariedade total ao povo do leste”.

Que povo do leste? Há dois grupos neste conflito. Ambos são angolanos. Ambos precisam de ser protegidos pelo Estado. E ambos têm o potencial de desencadear actos de desordem. Declarar solidariedade a um dos lados sem especificar qual — ou pior, ao lado que provocou — não é solidariedade. É irresponsabilidade com potencial para inflamar um conflito étnico.

Quem tem solidariedade total com o povo do leste é o governo de Angola, que reconheceu a existência do conflito, ouviu todas as partes e medeia activamente uma solução.

Qual é a solução racional

A solução mais racional é também a mais simples: a autoridade tradicional actualmente estabelecida na vila do Cazombo é mantida, e os cidadãos Lundandembo que queiram residir e trabalhar no Cazombo têm esse direito reconhecido e protegido — na condição de cidadãos individuais, não de autoridade concorrente. O soba Chinunque tem a sua zona de origem. Que regresse a ela e exerça aí a sua autoridade.

Não acredito em poderes tradicionais como fonte de legitimidade política. Mas enquanto essa estrutura existir, não é racional o Estado permitir que dois sobas disputem o mesmo território com milícias e catanas.

E uma nota final que importa reter: sem a República de Angola a mediar estas situações, este tipo de conflito dividiria o país inteiro segundo linhas étnicas. No Congo Democrático, um conflito desta natureza acabaria certamente no genocídio de um dos dois povos. Não é um exagero. É história recente.

Angola vencerá.

Mimimismo Afrotarla sobre rituais religiosos e feiticismo

@roboredo1

a diferença não é a cor da pele, é a diferença entre religião e feitiço #Afrotarla #Afrocrata

♬ original sound – Roboredo 🇦🇴

@aderitta.cirilo

“O ‘sagrado’ parece depender de quem o pratica. Quando está relacionado à cultura africana, é demonizado. Quando está relacionado à cultura europeia, é sacralizado. Curioso, não?”

♬ som original – Adéritta

O caso de Cabinda e a lógica do problema irresolúvel

Há um argumento que circula nos debates sobre Cabinda e sobre as fronteiras de Angola que é preciso desmontar com clareza: a ideia de que as fronteiras coloniais são ilegítimas e que, portanto, Angola como entidade política pode ser questionada. É um argumento que parece intelectual mas é, na prática, uma reacção alérgica à realidade.

O caso de Cabinda e a lógica do problema irresolúvel

Diz-se que o problema de Cabinda nunca foi resolvido porque as suas causas reais nunca foram tratadas. Aplicando esta lógica ao cristianismo: não podes ser cristão porque as causas reais do pecado ainda não foram resolvidas. O argumento não se sustenta. Os problemas complexos não desaparecem enquanto as suas causas profundas não forem eliminadas — gerem-se, negoceiam-se, administram-se. E o Acordo de Simulamboco existe precisamente como tentativa de gestão política desse problema. Quem o não conhece, que o leia antes de continuar a debater.

As fronteiras coloniais existem em todo o mundo — e ninguém as dissolve por decreto

As fronteiras de Angola foram definidas por potências coloniais. Verdade. Mas isto não é uma especificidade angolana — é a condição de dezenas de países no mundo.

As fronteiras da Bélgica só existem porque a França e a Alemanha decidiram que nenhum dos dois poderia ficar com aquele território. As fronteiras do Cazaquistão, do Quirguistão e do Uzbequistão foram todas desenhadas pelo governo soviético em Moscovo. Isso não significa que esses países não possam, no futuro e quando os seus interesses o justificarem, ajustar essas fronteiras. Mas antes de ajustar, é preciso preservar o que se tem.

As fronteiras de Angola são um facto — imposto não apenas pelo colonialismo, mas confirmado por vários acordos internacionais, incluindo o da Organização da Unidade Africana, que exige que os países membros respeitem as fronteiras vigentes. E a razão não é sentimental: redefinir todas as fronteiras de África de uma vez abriria um século de guerras fronteiriças. A estabilidade tem um valor que os seus críticos raramente contabilizam.

A independência não foi só dos portugueses

Há uma tendência para reduzir a independência angolana à libertação do colonialismo português. É uma simplificação que exagera a importância de Portugal e apaga o resto da história.

Uma pergunta feita em 1978 resume bem o problema: “Reverendo Daniel, mas nós somos independentes de quem?” A resposta é múltipla. Somos independentes dos portugueses — sim. Mas também somos independentes do Zaire, cujo exército invadiu Angola em 1975. E independentes da África do Sul, que também invadiu em 1975. Estes dois países não só tinham fronteiras com Angola — tinham população, ideologia e sistemas administrativos que podiam ter sido utilizados para anexar partes do território angolano. A guerra de independência foi travada em várias frentes, contra vários inimigos. Reduzi-la a uma narrativa anti-portuguesa é falsificar a história.

Angola como facto histórico irrevogável

Sim, Angola não foi criada pelos angolanos. É uma novidade para alguém? Nenhum de nós escolheu o país em que nasceu. Nenhum de nós escolheu as fronteiras, a língua oficial, o sistema administrativo que herdámos. Mas já cá estamos. E a pergunta não é de onde viemos — é o que fazemos com o que temos.

O mundo pré-colonial não existe. Quem propõe eliminar as fronteiras actuais para repor esse mundo está a propor regressar a um passado que desapareceu. Não é uma proposta política — é uma fantasia.

Angola é um novo fenómeno histórico. Foi criada por factores externos, como aconteceu com dezenas de países. E a tarefa que nos cabe não é negar essa origem — é preservar o que existe e, quando a oportunidade se apresentar, construir algo melhor. Ser contra esta realidade não é um acto de resistência. É pecar contra a verdade. E no cristianismo, pecar contra o Espírito Santo — que é o princípio da verdade e da realidade — é a falta mais grave que existe.

Não se pode ser independente da realidade.

Angola vencerá.

A Lei que Proíbe a Importação de Carros Velhos é Acertada — e Precisa de Ser Reforçada

A Lei que Proíbe a Importação de Carros Velhos é Acertada — e Precisa de Ser Reforçada

O Decreto Presidencial 155-20 determina que veículos ligeiros de segunda mão só podem ser importados se tiverem no máximo 5 anos desde a data de fabrico — 8 anos para pesados e 3 anos para motociclos. É uma lei correcta, necessária e que o governo deve não só manter como reforçar. Vou explicar porquê, com três argumentos: segurança rodoviária, tráfico internacional de veículos roubados e subsídio ao combustível.

Segurança rodoviária: o carro antigo não protege só quem o conduz

A tecnologia de segurança dos veículos mais antigos é antiquada e está fora das normas actuais — e isso não é apenas um problema para o condutor e os passageiros, é também um problema para os peões. Um veículo tem de ser seguro para quem está dentro, mas também para quem atropela em caso de acidente.

A comparação entre o Land Cruiser série 200 e o Land Cruiser série 300 ilustra bem o problema. No modelo antigo há apenas airbag para o condutor e a capacidade de absorção do impacto frontal é inferior. No modelo actual, a estrutura absorve melhor o choque e existem airbags que protegem o condutor e os passageiros. O modelo antigo pode ser encontrado por 20 mil dólares no Dubai — é mais barato. Mas não é mais seguro. E em Angola, onde as condições das estradas amplificam os riscos, esta diferença tem consequências directas em vidas humanas.

Há ainda um segundo problema de segurança que raramente é discutido: uma parte significativa dos carros de segunda mão que entram em Angola são veículos acidentados. Em Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, existem plataformas — pesquisem “Salves Dubai Sharjah” — onde se encontram veículos acidentados, como um Toyota Camry 2025 com danos visíveis, a preços reduzidos. Esses carros são comprados, reparados sem certificação, e chegam a Angola apresentados como carros limpos, sem que o comprador seja informado. Isto é burla ao consumidor. E é também um risco de segurança, porque uma reparação não certificada pode mascarar danos estruturais que se manifestam exactamente no momento de um acidente.

Tráfico internacional de veículos roubados

A República Democrática do Congo está inserida numa rede internacional de tráfico de veículos roubados que causou ao Reino Unido um prejuízo de mais de 640 milhões de libras. O esquema é o seguinte: carros são roubados no Reino Unido e noutros países europeus, bem como nos Estados Unidos, desmontados e os componentes exportados para o Congo. Como o Congo tem importação livre de carros de segunda mão, torna-se um ponto de convergência de veículos roubados, veículos acidentados e veículos legítimos — que depois são misturados, desmontados e reexportados.

Se Angola não tivesse a restrição de 5 anos, entraria naturalmente neste circuito. Haverá quem diga que existe a Interpol para isso. Sim. Mas se podes evitar que o teu território seja usado por uma rede criminosa proibindo uma actividade que essa rede utiliza sistematicamente, porque não o farías? A prevenção é sempre preferível à investigação.

O subsídio ao combustível e os carros que o Estado paga a mais

O combustível em Angola custa ao consumidor apenas 30% do preço real. Os restantes 70% são suportados pelo Estado — ou seja, por todos nós. Quando alguém importa um veículo mais antigo e menos eficiente, o Estado subsidia esse consumo adicional.

Os números são concretos. O Land Cruiser LC200 de 2013 consome 10,5 km por litro. O LC300 actual consome 11,2 km por litro — uma eficiência superior em cerca de 10%. O Toyota Starlet actual atinge cerca de 18 km por litro, contra 15 km por litro do modelo mais antigo — uma diferença de 25%. O Hyundai i20 actual faz 19 km por litro, contra 15 km por litro de versões anteriores.

Cada litro de gasolina adicional consumido por um veículo mais antigo representa um custo suportado essencialmente pelo Estado. Multiplicado por dezenas de milhares de veículos, o impacto orçamental é significativo.

E os dados de importação confirmam a tendência. Na plataforma Autoíne, o modelo mais importado é o Kia Picanto — um carro económico, de qualidade, adequado ao contexto angolano. Mas logo a seguir aparecem o K5, o K7, o Celsus, o Kona, o Santa Fe, o Tucson. Lixo de luxo, como lhes chamo: veículos obsoletos e ineficientes que estavam na moda quando o comprador era jovem e que agora compra a segunda mão para viver aquilo que não pôde ter na juventude. O teu tempo passou, meu irmão. O Land Cruiser de segunda mão não te devolve a juventude — só te encarece a manutenção e encarece o subsídio que o Estado paga por ti.

Há ainda a categoria dos veículos inflacionados pelo subsídio: em vez de comprar um carro proporcional ao seu bolso, a pessoa compra um veículo maior e mais consumidor porque, com o combustível a 30% do preço real, o custo de utilização é artificialmente barato. E finalmente, há quem importe Camaros e Rangers. Se gostas de Camaro e tens dinheiro para pagar, não tenho nada contra. Mas proponho o seguinte: pagas o preço real do combustível nas bombas. Se continuares a querer o Camaro depois disso, então é porque o queres de facto. Antes disso, estás apenas a gostar da gasolina barata.

Esta lei não impede os mais pobres de ter carro

Há quem argumente — o Bessuaba fez esse vídeo — que esta lei impede as pessoas de adquirir o primeiro veículo. Não impede. Existe já um veículo barato, novo, perfeitamente adequado ao contexto angolano: o Suzuki S-Presso. A prova de que é uma boa opção é que é o líder de vendas na categoria de transporte por aplicativo.

O problema não é o preço do carro. O problema é que as pessoas não querem comprar um carro apenas para se locomover. Querem comprar um carro para dizer algo ao mundo sobre quem são. O carro tornou-se um elemento de identidade, uma forma de se posicionar socialmente. E isso é legítimo — desde que tenhas dinheiro para o fazer. Se só tens para o Suzuki S-Presso, compra o Suzuki S-Presso novo. É melhor, mais seguro e mais eficiente do que um carro de segunda mão de marca considerada mais prestígio que foi acidentado em Sharjah e reparado sem certificação.

O que falta na lei

A lei está correcta nos seus fundamentos. Mas precisa de ser reforçada. O próximo passo deveria ser um novo decreto — ou uma adenda ao decreto actual — que proíba explicitamente a importação de veículos acidentados, mesmo que tenham sido reparados. Não basta o limite de 5 anos se um carro de 2025 pode ter sido acidentado, reparado a baixo custo e vendido em Angola como semi-novo. Este é o vazio que a máfia do Dubai está a explorar e que a lei ainda não fecha.

Angola vencerá.

As Vantagens do Copagamento nos Hospitais Públicos

As Vantagens do Copagamento nos Hospitais Públicos

Deparei-me com uma materia do Jornal O Pais com uma imagem que sugere que os hospitais não têm condições e que por isso é uma vergonha cobrar. Na verdade, este argumento parte de uma premissa falsa: O sistema actual é gratuito. Não é. Nunca foi.

A ilusão da gratuitidade

Quando vais a um hospital público, pagas sempre. Só não pagas em dinheiro. Pagas com o teu tempo — horas de espera numa fila, às vezes dias. Quem tem dinheiro contorna o sistema: corrompe o pessoal hospitalar para ser atendido mais depressa, ou vai simplesmente a um hospital privado. O resultado é que o cidadão comum paga três vezes: paga com o tempo de espera, paga com o suborno para ter acesso a um médico ou medicamento “indisponível” e perde a oportunidade do dinheiro publico, financiado pela renda petrolífera limitada, ser usado para construir uma infra-estrutura de longo prazo.

E como é feito o controlo deste sistema supostamente gratuito? Com relatórios. Relatórios que podem ser falsificados. O controlo do stock de medicamentos? Relatórios. O controlo das horas de trabalho dos médicos? Relatórios. O resultado previsível é: desvio de medicamentos, médicos fantasmas, trabalhadores fantasmas. E as próprias imagens de precariedade — as mesmas que circulam para criticar o copagamento — servem para justificar aumentos de orçamento. Se o hospital já custa 10 milhões de dólares por mês e as imagens continuam más, o ministro da saúde pode argumentar que 15 milhões resolverão o problema. Não resolverão. Porque o problema não é a falta de dinheiro — é a falta de rastreabilidade que permite toda a sorte de esquem. A repressão policial em si não sera suficiente para resolver o problema, tendo em conta a busca pela facilidade e o descaso pela moral na nossa cultura.

O que o copagamento muda

Com o sistema de coparticipação que entrou em vigor, três coisas mudam estruturalmente.

Primeiro, os preços tornam-se conhecidos e previsíveis. O utente sabe exactamente o que vai pagar — há uma tabela. Acabam as negociações debaixo da mesa.

Segundo, o controlo do stock de medicamentos passa a ser feito com base em registos financeiros ligados ao NIF do utente e a transacções bancárias verificáveis. Não se falsifica um registo bancário sem consequências na AGT. E mesmo quem tente fazê-lo corre o risco de ser preso.

Terceiro, o controlo das horas de trabalho dos médicos fica vinculado ao mesmo sistema. Se houve consulta, houve pagamento. Se houve pagamento, há registo. Médico fantasma não gera transacção.

O resultado é uma base de factos auditáveis que permite gerir os hospitais públicos com critério — e não na base de relatórios que ninguém verifica e que podem ser facilmente falsificados..

A analogia das três festas

Para perceber a diferença entre os três sistemas, imagina três festas.

A primeira é uma festa gratuita com bar aberto — uma maratona de partido político. É de graça, mas tens de ficar na fila. E sabes que, nessas ocasiões, a bebida acaba antes de amanhecer: ou porque as pessoas bebem sem conta, ou porque alguém desviou os grades e os barris.

A segunda é uma festa com bar aberto mas com fita que deve ser apresentar para ser atendido, a fita não cobre o consumo total, mas permite ter um controle razoável das entradas e permite afastar pessoas anti-social.

A terceira é uma festa privada. Pagas, recebes o que pagaste, na hora. Cada pagamento justifica a venda.

O sistema de copagamento nos hospitais públicos corresponde à segunda festa. Não é o hospital privado — mas partilha com ele algumas das suas vantagens: custos conhecidos, controlo de stock baseado em registos contabilísticos, controlo de horas de trabalho pelo mesmo sistema. A diferença é que o objectivo do hospital público não é o lucro — é garantir um serviço mínimo e cobrir especialidades que o privado não consegue providenciar.

A prova de que o sistema actual falha

O SIC descobriu recentemente 15 toneladas de medicamentos impróprios e expirados desviados de hospitais públicos. Foram detidos 200 suspeitos. Estes medicamentos foram desviados e escondidos durante tanto tempo que acabaram por expirar antes de serem vendidos. Isto só é possível num sistema onde o controlo é feito por relatórios falsificáveis e onde basta corromper algumas pessoas para encobrir o esquema durante anos.

Com o copagamento, o rastreio dos gastos — em medicamentos e em horas de trabalho — torna estes esquemas muito mais difíceis de executar e muito mais fáceis de detectar.

Uma nota crítica à nova lei

Dito isto, esta lei tem um defeito que importa assinalar: introduz a ideia de um Serviço Nacional de Saúde Universal. É um objectivo impossível nas condições de Angola. A população angolana cresce sem limite e cada novo angolano não gera automaticamente riqueza suficiente para alimentar um sistema de saúde universal. Os gastos seriam ilimitados e a principal fonte de receita — o petróleo — é finita e está em declínio. Um sistema de saúde universal financiado pelo petróleo é uma promessa que o país não tem como cumprir.

As pessoas que se opõem ao copagamento fazem-no por razões emocionais e políticas. Querem saúde gratuita. Mas a saúde não é gratuita — nunca foi. A questão não é pagar ou não pagar. A questão é pagar de forma transparente e rastreável, ou continuar a pagar em subornos, em tempo perdido e em medicamentos desviados.

Angola vencerá.

O MPLA Tem Mais Alternância Interna do que a UNITA

O Samussuco fez uma publicação a gozar com João Lourenço e, digamos, a apoiar Higino Carneiro. Para quem não sabe, Higino Carneiro fez parte da equipa que negociou o acordo de paz com a UNITA no final da guerra. Mas essa publicação prova, indirectamente, algo: que o MPLA tem muito mais alternância política, alternância de quadros e alternância de ideias do que a UNITA.

A aritmética é simples

Em 2002, a UNITA já tinha tido quantos presidentes? Apenas um. Jonas Malheiro Savimbi, que só perdeu o cargo porque perdeu a vida. No mesmo período, o MPLA já tinha tido pelo menos dois presidentes e vários governos com composições distintas. Apesar de o MPLA ser o partido no poder, as pessoas que exerciam esse poder foram mudando.

Não se pode dizer que o governo de Agostinho Neto com Lúcio Lara ou JES com Lara seriam exactamente igual ao governo de JES com Marcolino Moco. Nem igual ao governo com Nando como Primeiro-Ministro. Nem igual ao governo de coligação em que o MPLA partilhou o poder com a UNITA, o GURN, que tinha varios ministros, Vice Ministros e Secretarios de Estado do Partido de Jonas Savimbi. Até 2002, o MPLA já tinha experimentado várias formas de fazer política com várias pessoas diferentes. A UNITA, pelo contrário, era exactamente o mesmo partido com a mesma direcção há trinta anos.

O que é realmente a democracia interna

Fala-se muito de democracia interna. Mas qual é a maior prova de democracia interna de um partido senão dar oportunidade a diferentes membros da equipa para tentarem outras formas de resolver os problemas? É isso que o MPLA fez ao longo desse período. É isso que a UNITA nunca fez.

E a situação não melhorou depois de 2002. O general Kamalata Numa — o arquitecto do ataque ao Comboio do Zenza do Itombe — é ainda hoje um dos principais conselheiros do presidente da UNITA, Adalberto Costa Júnior. Não há circulação de quadros. Não há circulação de ideias. São exactamente as mesmas pessoas que desde os anos 60 se agarram ao sonho do poder.

A prova mais eloquente disso é Abel Chivukuvuku. Uma pessoa de inegável talento político, a quem o caminho para a liderança da UNITA foi bloqueado de tal forma que ele preferiu fundar pelo menos 3 partido politicos do que continuar a bater contra uma parede da Jamba.

O argumento que se vira contra quem o faz

Podem dizer que João Lourenço não era nada em 2002, que era Higino Carneiro quem negociava os acordos de paz. É uma observação curiosa, até porque me parece estranho ver alguém da oposição a meter-se numa disputa entre dois membros do partido no poder. Mas admitindo o argumento: se o MPLA não tivesse alternância interna em 2002, Higino Carneiro seria hoje Presidente da República, pois ele certamente um quadro de referencia e menino dourado do Partido na altura. Mas o HC não é presidente do MPLA e da Republica em 2026 porque o MPLA tem mecanismos reais de alternância interna. Sendo que uma candidato HC seria uma continuidade da era JES e se sentido a necessidade de uma mudança de rumo, tendo em conta o clima politico nacional, o MPLA optou pela candidatura do JLO. Ou seja, não basta ter circulação de quadros, mas também ter mecanismos que permitam a saída ordeira dos antigos para entrar os novos.

A UNITA ainda não atingiu este nível de maturidade a nível interno, e suas atitudes intolerantes contra outras contra o que chama de partidecos que tenta abafar com manobras como a FPU, demonstram a incapacidade de liderar um GURN.

Bizambi-Zambi em Angola #001 : Profeta The King Number One.

Bizambi-Zambi em Angola #001 : Profeta The King Number One.

Localizada na Vila do Calumbo, a pomposidade é meio ironica, pois quem diria que o “Profeta Rei Numero Um”, “Profeta The King Number One” no original, iria aparecer na vila do Calumbo e não em outro lugar mais importante do Mundo, como Luanda ou Washington DC.

Tanto pelo Nome, “La Colombe” e o uso aleatorio de palavras inglesas para criar credibilidade, estamos diante de uma pesoa Langalizada ou Congolizada.

A Igreja é tambem um caso de “casal pastoral”, com a “Profetiza Morena” a auxiliar o “Ministério profético.”

Localização: Calumbo​

Elementos tematicos:​

1- Pastor Langa: Uso aleatorio de palavras francesas “La Colombe”.​

2- Uso aleatorio de palavras Inglesas, “The King Number One”.​

3- Profeta morena ? É um casal ?​

4- Pomposidade: Catedral de palha​

5- Profetismo: Que provas concretas há da veracidade destas professias e que garantias há que futuras vão acontecer ?​

6- Igreja em construção

Igreja a proibir no quadro da nova lei de Liberdade religiosa ?

CriterioSatisfaz o criterio da lei
Formação teologica​Não
Condições de habitabilidade do templo​Não
Templos em todas as provincias​Não
Poluição Sonora​Talvez
Praticas de Curas​Inconclusivo
Rituais anti-sociais e anti-familia​Inconclusivo
Conflito de liderança​Inconclusivo

Sumario da Proposta de Lei de Liberdade Religiosa em Angola

Os jovens Angolanos são preguiçosos ?

O Discurso de Vitimização e a Manipulação das Massas em Angola

Está em curso uma controvérsia depois do músico Claytom M ter dito que “os Jovens Da Minha Geração Não Gostam De Trabalhar”. Tirando a veracidade ou não da frase, o debate revelou algo mais profundo: nós em Angola estamos viciados em discurso de bajulação. Não é apenas o governante que é bajulado, obviamente que é fácil entender que um governante seja bajulado, porque o governante pode te dar dinheiro e ele tem poder, mas os pobres também são bajulados. Se você for um político você bajula o pobre para ganhar votos, se você for um comunista você bajula o pobre para o manipular, para transformá-lo em massa.

O discurso político de Angola se limita à tática comunista do fomento “da massa”, sendo que “massa” significa pessoas que podem ser mobilizadas e utilizadas para a conquista do Poder pelo partido comunista. O discurso de massa transforma o Angolano em uma vítima total e cria um inimigo imaginário que tem de ser destruído (sistema, colonialismo, MPLA, etc), para que possa finalmente se atingir a utopia e felicidade. Quando se diz a alguém que as circunstâncias da sua vida, a sua pobreza não é culpa sua, mas sim resultado da opressão do governo, do partido político, do colonialismo ou do neocolonialismo, cria-se nessa pessoa primeiro um sentimento de revolta, segundo um desejo de vingança e terceiro essa pessoa não vai estar interessada em mudar a sua vida porque percebe que a razão pela sua circunstância não tem a ver com ela, mas sim com outra coisa.

A beleza deste sistema está no facto que o homem massa nem precisa estar filiado ao partido para ser um instrumento do partido, pois depois de ser “consciencializado”, toma conclusões que são a favor do partido e responde palavras de ordem que podem ativar a sua combatividade em momentos cruciais. Não estou a falar de algo teórico. Pense no vandalismo durante a greve dos taxistas, que apesar de não ter sido planeado e ordenado de maneira imediata, foi desejado porque existem dezenas de milhares de Angolanos que foram adestrados de modo a aceitar estes atos como normais e mesmo necessários para salvar Angola. Houve pessoas no Facebook, em podcasts, a dizer que o vandalismo era um ato político necessário para salvar Angola, ou seja, os vândalos só tinham que parar de pilhar, roubar, destruir e agredir pessoas quando Angola mudasse. Transformaram o vândalo em vítima e esta vítima tem o direito de se defender, de retaliar. Quem normalizou os atos do arroz man, preparou o caminho para o saque do Arreou.

O mesmo discurso se aplica aos bandidos. Há pessoas que dizem que o batuqueiro, o assassino, é uma vítima da sociedade, que só rouba porque não tem oportunidade, a culpa não é dele. Ou seja, teríamos que sentar e deixar que todos os gatunos roubem porque os gatunos só vão parar de roubar quando o país for perfeito. A vida não funciona assim.

O País das Vítimas

Morato foi aplaudido no Facebook, um internauta escreveu que “este sim sabe falar”, por dizer que “o Jovem Angolano é vítima do sistema”, pois para a maioria dos Angolanos, o discurso de vitimização é confortável e agradável. A vítima não tem responsabilidade, aliás a vítima nada precisa fazer, só tem que esperar que a justiça seja feita. Por isto que este é o discurso que uma boa parte dos Angolanos querem ouvir.

Este discurso de vitimização é particularmente triste porque revela algo que nós angolanos temos: não acreditar na competência. Morato disse na sua intervenção que as pessoas que estavam à volta daquela mesa eram privilegiadas que receberam oportunidades, ou seja, segundo esta lógica, não existe o talento individual, basta receber a oportunidade e qualquer pessoa, independentemente do seu talento ou esforço, pode ser alguém. Isto é mentira. Existem pessoas com oportunidades, que receberam privilégios e que não foram nada da vida.

O exemplo mais claro em Angola é Zeno dos Santos. Tendo em conta o potencial e as oportunidades que recebeu, ele deveria ter feito muito mais do que fez. Compare-se com os seus irmãos: o Coreandu, apesar de ter um projeto cultural, conseguiu fazer alguma coisa; Isabelo dos Santos, nos negócios, conseguiu fazer alguma coisa; Zeno, tendo todos os privilégios do mundo, não conseguiu. E não é o único privilegiado fracassado. Lotte Beirão é outro bom exemplo: nunca trabalhou na vida, não precisa trabalhar na vida, nunca fez nada de jeito. O privilégio não é uma passagem automática para o sucesso.

A vida é feita de duas coisas: o que você faz e o que lhe acontece. O que lhe acontece você não consegue controlar – onde nasceu, quem são os seus pais, quem é o governo do país onde está e até um certo ponto as suas condições económicas. Você não consegue mudar isso. Pode mudar o futuro, pode votar para que no futuro mude, mas do momento que entrou no mundo, são coisas que não pode mudar. A única coisa que pode mudar é o que vai estudar, onde vai trabalhar, como vai estudar, como vai trabalhar e como vai lidar com os problemas da sua vida. Essas são as coisas que deve mudar e você como jovem, esse deve ser o seu foco. Não digo que não possa sonhar com um mundo melhor e mudar o mundo, mas mudar o mundo não pode ser a prioridade, porque não controla o mundo, não tem esse poder. Tem o poder de mudar a sua vida.

Imagine que nasça feio. Nasceu feio mesmo, não tem solução. Vai passar o resto da vida triste porque nasceu feio? Ninguém vai querer namorar consigo, não vai casar e não vai ter filhos? Claro que não. Pode fazer alguma coisa. Pode ser feio, mas se for gracioso, vai chamar a atenção. Pode ser feio, mas se trabalhar, tiver um bom emprego, dinheiro, ser socialmente reconhecido como uma pessoa de talento, vai chamar a atenção. Há coisas que pode mudar, que podem ajudá-lo a vencer as suas circunstâncias.

A Prioridade da Utilidade Política

Este discurso de massa prioriza sempre a utilidade política do assunto, nunca descrição concreta dos problemas e, aliás, o revolucionário tem medo das soluções porque o fim dos problemas significa a perda do potencial de massa. Por isto, por exemplo, Osvaldo Caholo tem um discurso contra a pessoa de classe média de Angola, que se contenta com “um conjunto de plásticos que chama de carro e uma casa na centralidade, quando pode ter mais”, ou seja, um pequeno burguês, como diziam os comunistas.

A retórica das “causas profundas” e da “origem dos problemas” remete-se à mesma tática, pois tenta-se fugir da solução para a coisa que realmente importa: Ajudar o partido a ganhar o Poder. Se falar de problemas que têm a sua origem nas próprias pessoas, vai ser acusado de “culpar a vítima” e “falar mal do povo”, sem nunca tocar na veracidade dos seus argumentos. A prioridade estará sempre em descrevê-lo como inimigo ou lacaio do inimigo.

Não estamos apenas diante de um oportunismo político, mas diante de uma forma padronizada de manipulação das massas por conta do domínio do pensamento comunista em Angola desde os anos 1950. É um discurso de estilo comunista, e o pior é que é um comunismo que as pessoas esqueceram que é comunismo, porque o objetivo aqui é causar desespero e revolta nas pessoas, para as manipular para fins políticos.

Mas Assim Não Podemos Falar dos Problemas do País?

Descrever um problema de maneira concreta é o primeiro passo na busca de soluções, seja o regime democrático ou autoritário, e partidos políticos espelham suas propostas de maneira concreta e de modo que os eleitores possam escolher de maneira consciente. Aliás, em vários casos, o partido no governo tenta pôr em prática, nem que seja parcialmente, uma política popular da oposição, de modo a limitar seu crescimento eleitoral, como aconteceu no Reino Unido com o referendo para a saída da UE.

O revolucionário tem medo de espelhar os seus planos de maneira concreta, pois eles não querem apenas resolver um problema, eles querem o Poder total para refazer a sociedade e sua única proposta concreta está em colocar o partido no Poder. Aliás, em uma entrevista na TV Zimbo, um político da UNITA disse claramente que não iria expor o plano de seu partido por medo que fosse copiado pelo MPLA.

Caso o plano seja copiado, aí o partido revolucionário entra em modo de negacionismo e relativismo, como aconteceu quando a UNITA respondeu aos hospitais construídos pelo MPLA dizendo que “era apenas betão e que faltavam médicos”, que “deveriam ter sido construídos nos bairros” nas palavras de seu presidente ACJ.

O Partido revolucionário não quer a política das propostas, porque o eleitor passa assim a julgar as suas escolhas políticas de maneira concreta, enquanto que sua escolha deveria ser apenas o partido. O Partido revolucionário quer um discurso político de massa, que transforme as pessoas em operários do partido mesmo que não sejam militantes, sendo que deste modo o partido colhe os frutos políticos sem se preocupar com gestão de militantes ou responsabilidade política em caso de violência. A ideia de Frente Patriótica Unida entra na mesma lógica, pois os assentos pertencem legalmente à UNITA e por isto não precisa conceder concessões aos seus aliados.

A Função Educativa do Discurso

Aqui entramos na função educativa do discurso político e cultural. As propostas de uma cadeira na universidade para “ensinar cidadania” feita por Luís de Castro, quando já temos a cadeira de FAI no ensino médio e Educação Moral e Cívica no ensino primário, fogem do problema. O discurso político e cultural permite às pessoas entenderem as causas de suas circunstâncias e as soluções socialmente aceites. Em Angola, o discurso político diz às pessoas que tudo é culpa do Estado e do Colonialismo, mesmo que a pessoa seja um alcoólatra com vários filhos e que nunca se empenhe a trabalhar. Ou seja, dizemos às pessoas que elas podem ter a vida mais irresponsável e nunca seriam responsáveis dos seus atos.

Então, não, nós não temos que cair no discurso de vitimização.

Fugir do tema.

O que esta em causa não é que o jovem Angolano seja preguiçoso, na verdade estamos diante de um tema mais ampla: Os Angolanos contribuem para a situação e económica do pais ?

Na visao do Clayton e do Luis de Castro, existe uma parte cota de responsabilidade individual, que somada desemboca em uma responsabilidade da sociedade.

Esta perspectiva esta correcto tendo em conta 3 factos :

1- A Economia é feita pelas pessoas, sendo que as consequenciais positivas e negativas de actos individuais somam e se acumulam com o tempo.

2- O Estado é constituído pelas pessoas, e as atitudes individuais depois se reflectem no Estado.

3- Existem um numero suficiente de indicadores negativos que demonstram que ha um problema cultural (gravidez precoce, baixa poupança, etc)

Dizer isto é descrito “como falar mal da vitima” pelos proponentes do discurso da vitimismo, porém se o povo Angolano é talentoso porque não há resultados? Se conseguem ter um impacto positivo, que seria bloqueado pelo sistema, como é possível que não podem ter um impacto negativo ?

Alias, este discurso traz duas maneiras concretas de melhorar a situaçao: 1) Abandonar as practicas danosas, 2) Aceitar que menos prosperidade individual é a consequência de escolhas individuais.

Em contraste, o discurso do Vitimismo, Que se resume perfeitamente nas palavras de Morato Custodio e Vidal, diz que o jovem é vitima do Sistema (político actual), da sequela da guerra, do colonialismo, e finalmente da escravatura. Ou seja, cada individuo carrega 5 seculos de oppressao, no minimo. As consequencias deste discurso ? 1) As pessoas ficam paradas e esperam que sejam salvadas, 2) multiplica se a maldade e ineficiencia individual porque se acredita que a soluçao total sera suficiente para eliminar todo acto individual.

Resumindo, este discurso deixa as pessoas confortaveis, pois a vitima nao tem responsabilidades, so precisa esperar que a justiça seja feita e nem precisa se sentir culpado por alguma maldade que cometer antes da salvaçao, afinal nao vai ser da mesma gravidade que as maldades do sistema e vai ser corrigido pela revolu

Curioso que Morato e Vidal fingem que seu discurso é uma novidade, quando foi e ainda é o discurso dominante em Angola.

Reservas petrolíferas fantasmas: Angola e Venezuela.

Nas últimas semanas, três notícias sobre reservas de petróleo chamaram a minha atenção: respetivamente, a alegação de que o Presidente Trump queria invadir a Venezuela para roubar “as maiores reservas de petróleo do mundo”; um vídeo, supostamente do jornalista Pepe Escobar, sobre a descoberta de “reservas infinitas de petróleo em Angola”; e o anúncio de que a AZULE Energy fez uma nova descoberta que aumenta as reservas de petróleo angolanas de forma considerável (500 milhões de barris).

As duas primeiras notícias são falsas, e a terceira é verdadeira, como demonstrarei em detalhe.

A Venezuela não tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

O Presidente Maduro, antes de receber uma viagem gratuita para Nova Iorque no dia 5 de janeiro de 2025, acusava os EUA de querer roubar as reservas de petróleo da Venezuela, que seriam as maiores do mundo — uma narrativa construída pelo seu antecessor, Chávez.

Os organismos internacionais que publicam estatísticas sobre as reservas mundiais de petróleo, como o Energy Institute, utilizam dados divulgados pelos próprios Estados e pelas companhias petrolíferas internacionais, com base em novas descobertas e na reavaliação de jazigos existentes.

Em 2005, o governo de Hugo Chávez, que tomou posse em 1999, multiplicou as reservas da Venezuela por quatro de forma claramente política, pois é improvável que novos recursos sejam descobertos no contexto de uma queda vertiginosa da produção de petróleo, como a que se verificou na segunda década dos anos 2000. Afinal, estimar reservas requer a perfuração de novos poços para confirmar hipóteses geológicas e o investimento em equipamentos que aumentem a taxa de recuperação de petróleo dos jazigos.

Esse aumento das reservas foi politicamente motivado. Internamente, permitiu acusar o governo anterior de “esconder as verdadeiras riquezas do país”, ao mesmo tempo que vendia a esperança de um futuro melhor e alimentava o espectro da ameaça externa — a ideia de que os imperialistas querem roubar o nosso petróleo. Externamente, permitiu a Chávez exagerar a importância estratégica do país para atrair investimento e proteção, por exemplo, da China. A explicação inocente seria que a Venezuela esta a ser optimista quando a sua capacidade de recuperação de seu petróleo superpesado, que se parece com moamba de amendoim e requer sistemas complexo de dissolução para fluir.

A falta de entusiasmo das empresas internacionais que ainda operam no país, perante o apelo do Presidente Trump a novos investimentos no atual período de transição, decorre do facto de conhecerem bem os campos em que atuam e saberem que as reservas anunciadas são exageradas.

Leitura recomendada: https://oilprice.com/Energy/Energy-General/Inside-the-Economics-of-Venezuelas-Elusive-Oil-Reserves.html


As reservas ilimitadas de petróleo angolanas

O vídeo atribuído a “Pepe Escobar” foi gerado por inteligência artificial, o que é evidente tanto pela cadência artificial da voz como pelo maneirismo mecânico das imagens.

Além disso, os factos citados são comicamente fantasiosos: fala-se de um “mar de petróleo” a 15 km de profundidade, estendido por 800 km; menciona-se uma suposta tecnologia chinesa de perfuração, quando não existem empresas sínicas a operar no nosso; e alega-se que o preço do crude saudita teria despencado 70%, entre outras afirmações igualmente inverosímeis.

Trata-se claramente de um conteúdo fabricado para impressionar e desinformar, explorando o entusiasmo popular em torno de descobertas petrolíferas e criar um sentimento de revolta pelo contraste com a pobreza de uma parte significativa da população.


Ainda assim, vários comentadores no YouTube não só acreditaram no vídeo como passaram a usar as suas mentiras como premissas para tirar conclusões do tipo: “não é aceitável que o povo sofra enquanto descobrimos petróleo infinito”. E essa deve ter sido precisamente a intenção do vídeo: sugerir que existe uma “riqueza ilimitada” a ser escondida de um povo que continua a viver em dificuldades.

Como vimos, atores políticos — sejam chefes de Estado ou membros da oposição — tendem a exagerar as reservas de petróleo dos seus países para provocar reações emocionais politicamente proveitosas. Uns enaltecem o seu poder e reforçam a ideia de grandeza nacional; outros alimentam a indignação pública e a narrativa de má gestão ou ocultação deliberada de riqueza.

Como são estimadas as reservas de petróleo?

Segundo o Petroleum Resources Management System (PRMS), existem três grandes categorias:

Reservas Comerciais: conhecidas e economicamente exploráveis com as tecnologias atuais.

Recursos Subcomerciais (Contingentes): conhecidos, porém ainda não exploráveis devido a custos elevados de produção ou à ausência de tecnologia adequada.

Recursos Prospetivos: volumes estimados com base no conhecimento geológico disponível, na analogia com regiões semelhantes (como o pré-sal em Angola e no Brasil), na proximidade com zonas petrolíferas produtivas, entre outros fatores.

Essas categorias são ainda classificadas segundo três graus de certeza:

Provadas: reservas confirmadas em jazigos já perfurados e testados, com elevada probabilidade de recuperação.

Prováveis: jazigos potenciais com base em avaliação indireta ou dados geológicos consistentes, mas ainda não totalmente confirmados.

Possíveis: reservas de natureza mais especulativa, com menor grau de certeza.

Leia mais: https://www.boem.gov/oil-gas-energy/resource-evaluation/classification-and-methodology-reserves-calculations

Naturalmente, recursos prospetivos e estimativas especulativas têm o seu papel na indústria. Afinal, é por meio de descobertas improváveis que, historicamente, grandes fortunas foram feitas. Contudo, uma empresa privada que exagerasse deliberadamente as suas reservas para atrair investidores estaria a cometer fraude, criando não apenas riscos jurídicos, mas também financeiros — como demonstrou o caso da Enron.

As novas descobertas da AZULE Energy enquadram-se na categoria de Reservas Comerciais e Provadas, tendo sido confirmadas pela perfuração de um poço de exploração que encontrou petróleo e realizou testes de produção bem-sucedidos. produção que permite estimar a capacidade de produção do reservatório.

Não sabemos ainda quais são os limites definitivos das reservas angolanas, mas existe trabalho e investimento para manter níveis de produção sustentáveis, para a indústria e para as necessidades fiscais do estado angolano. Sendo que se aconselha ao público que evite noticias falsas e estejam vigilantes quanto aos falsos vídeos gerado por inteligência artificial.

Da Incompetência Financeira Pessoal à Má Governação e Corrupção em Angola.

A crítica do Naice Zulu contra deputados que “foram feitos pelo Estado” parece um ataque gratuito contra os deputados da UNITA, porém uma crítica justa a um fenómeno real e amplo.

Primeiro, os deputados são supostos representar os eleitores, sendo é questionável que uma pessoa que nunca tenha trabalhado na vida, sendo político de berço e deputado vitalício, compreenda as preocupações de quem trabalha para trabalha para dar uma vida digna a sua família. Durante toda a sua vida, este deputado nunca soube o que é o stress da busca do emprego, a realidade de que ele não pode ter tudo que desejo, pois, seu salário tem um limite, e a responsabilidade de escolher prioridades. Alias, ele nunca este em uma posição em que teve de provar seu valor e exigir em trocar uma compensação justa. Ou seja, se tornar um adulto.

Um exemplo claro disto foi a deputada Mihaela Webba, que em entrevistas e na sua página do facebook, se queixava que “os deputados ganhavam mal” e que ela “não conseguia ter casa própria com um salário líquido de um milhão e trezentos mil cuanzas”, isto apesar de viver em uma casa atribuída pelo Estado e ter um carro atribuído pelo Estado, ou seja, não precisar pagar pelas maiores despesas de um angolano de classe media. Escrevi sobre este tema no meu artigo de 2024: As Ferias do JLO nas Seicheles, parte 2: A Hipocrisia da UNITA e o Gabinete de acção psicológica.

Captura de imagem da pagina de facebook da deputada.

Esta incompetência financeira de um dependente do Estado não esta limitada ao povo da Jamba, pois em um artigo de 2021 [reproduzido na integra no final deste artigo], o Bernardo António Januário se queixava de não conseguir viver com uma pensão de 273 mil cuanzas por mês, isto depois de ter sido deputado durante 22 anos, de 1986 a 2008, sendo que fez contactos com seus colegas do MPLA até ser reintegrado no ministério da Juventude em 2012. Porém a história não para por aqui, pois nosso deputado se queixava que não era justo ser apenas primeiro assessor, categoria que tinha antes de abandonar o ministério em 1996, ou seja, queria senioridade por anos de serviço que não desempenhou.

Estes dois casos ilustram bem as palavras de Naice Zulu, que estamos diante de uma classe política construída por pessoas que vivem uma dependência total ao Estado, e que caiem na pobreza e desespero assim que perdem o seu precioso cargo. Pessoas que se acham capazes de gerir um Estado, mas que são incapazes, com um salário muito acima da média nacional, a organizar suas necessidades primarias (alojamento, transporte, etc), poupar, constituir património e preparar sua aposentadoria.

Competência selectiva e altruísta ?

Deveríamos acreditar que estas pessoas se abstêm de organizar as suas proprias vidas, de modo a melhor organizar as nossas _ Claro qeu não, pois as pessão são aquilo que elas fazem. Como dizia o economista Milton Friedman, existem 4 maneiras de gastar dinheiro: O seu dinheiro em benefício próprio, o dinheiro dos outros em benefício próprio, o seu dinheiro em benefício de terceiros e o dinheiro de terceiros em benefício de terceiros.

Se o deputado angolano não consegue gastar o dinheiro do Estado (ou seja, o dinheiro dos outros) em seu próprio benefício, como vai ser possível que ele gaste o dinheiro do Estado para os outros de maneira racional e eficaz?

Mesmo que haja pessoas que tem um dom pela empatia e que a capacidade de mobilização popular seja necessária na política, o problema está que a maioria dos políticos angolanos ainda não chegaram a idade adulta, mentalmente.

Por conta da sua condição de dependentes do Estado, estes deputados acham que todos os Angolanos são dependentes também, sendo por isto que só conseguem ter ideias de estilo socialista e acham que todos os problemas podem ser resolvidos pela distribuição de dinheiro público. Por conta da sua falta de responsabilidade pessoal, vivida por alguns desde o tempo da Jamba ou da OPA, estes deputados olham o povo angolano apenas no prisma de uma vítima que tem de ser ajudada, ao invés de adultos que tem deveres e responsabilidades que podem ser cumpridas se o Estado fizer a sua parte. A ideologia dominante entre é um socialismo existencial, em que o governo deve dar dinheiro a todo mundo porque é agradável receber dinheiro de graça e eles viveram assim toda a sua vida.

Corrupção começa em casa.

Mesmo a nível da corrução, o facto do político ser financeiramente incompetente não cria apenas a oportunidade, afinal de contas o infeliz sempre precisa de dinheiro, mas também a narrativa interna para aceitar o suborno, pois ele sempre vive mesmo de receber dinheiro do Estado e qual é a diferença de receber dinheiro roubado ao Estado? Antes de ser líder da China, Xi Jinping sobreviveu a várias campanhas contra a corrupção que vitimou dezenas de seus colegas, talvez porque era excelente a esconder as provas ou por ter uma fibra moral incorruptível, porém o facto da sua mulher ser uma diva que ganhava milhões e que por isto ele não precisava de dinheiro.

Esta influência, da incompetência financeira pessoal, não se limita atos ilícitos, como corrupção, também em se sente no facto que os deputados de todos os partidos conseguem se entender para aprovar o orçamento da Assembleia e propostas de “autonomia financeira” que ponha fim ao controle do executivo sobre parlamento, o único obstáculo para que os nossos cansados deputados tenham para usufruir de mais benefícios do Estado, de modo a saciar sua dependência sem fim.

O governo dos adolescentes.

Quem vive da sua capacidade de causar problemas, a si próprio ou aos outros, é uma criança, que faz birra ou grita até que seu desejo seja satisfeito, enquanto um adulto entende que deve criar um valor ao seu próximo para que seu desejo seja realizado. Se queres dinheiro, tens de convencer uma empresa que tens a capacidade de fazer o trabalho equivalente ao salário desejado. Se queres ter uma namorada, tens de convencer uma mulher que podes ser uma excelente companhia. Ou seja, tens de criar valor antes de esperar receber valor. Uma parte significativa dos políticos angolanos vivem do princípio infantil da importunação, pois não criam valor para a sociedade, por exemplo na forma de propostas inovadores ou uma compreensão das questões sociais que seja valiosa, seja pela resolução destas ou pelea resignação a sua inevitabilidade. Pelo contrário, estes deputados e políticos vivem da sua capacidade fazer aquilo que chamam de “criticas contundentes”, um discurso inflamatório que viva excitar as ansiedades da sociedade e incitar a revoltar, que permite vender o seu silencio ao “preço justo”: cargo no governo, mandato para deputado ou até mesmo um suborno.

O episodio em que os trabalhos uma comissão de especialidade da Assembleia Nacional de Angola foi interrompida, por proposta da UNITA e acordo do MPLA, por “falta de almoço”, pois tinha “apenas lanche”, não é uma anomalia, é ilustração perfeita da mentalidade dominante em nossa classe politica: dependencia ao Estado e irresponsabilidade individual.

Quem não tem cão, caça com gato.

Em uma conferencia em que se citou a Suécia como exemplo de um pais prospero apesar de ter um estado Socialista, Milton Friedman respondeu que a cultura de perfeição e honestidade tornavam eles capazes de fazer funcionar qualquer sistema politico e económico. Do mesmo modo, não é possível organizar um estado complexo constituído de pessoas que nunca saíram do conforto da adolescência, sendo que seria melhor limitar as funções do Estado Angolano ao estritamente necessário, a coisas que pessoas individuais e a economia de mercado não conseguem organizar, nomeadamente segurança publica, justiça e infraestrutura.

Obviamente que a solução imediata ao problema seria de substituir estes adolescentes por pessoas adultas, que sabem o que é trabalhar e resolver problemas, e neste aspeto o Naice Zulo está a realizar uma parte essencial do processo: identificar os adolescentes políticos a serem substituídos.

Fui deputado durante 24 anos e apenas recebo 200 mil kwanzas – Bernardo Januario

 maio 04, 2021

Luanda – Fui deputado durante quase 24 anos (86 a 2008). Agora apenas recebo uma pensão vitalícia de Kz.273.000.00 e assistência médica parcial. Nunca andei pelos corredores do MPLA à procura de emprego.

Fonte: BJ

Em 2008 pedi a minha reintegração no Ministério da Juventude, de cujo quadro de pessoal sou efectivo, com a categoria de 1° assessor. Muandumba e Pitra Neto não quiseram reintegrar-me. Escrevi a pedir ajuda ao então presidente do Grupo Parlamentar do MPLA, Gigí. Nunca reagiu. Escrevi ao Secretariado do BP. Fui recebido por Roberto de Almeida, mas nada mudou. Alfredo Júnior e Rui Falcão “arranjaram-me” o emprego de adido de imprensa na Suiça em 2010, 2011 (lembraram-se que a JMPLA dera-me um curso básico de jornalismo e que fui correspondente do jornal Juventude na Huila). Mas acho que acabei por não satisfazer Carolina Cerqueira (ou o seu gabinete). Quando apercebeu-se disso, José Maria dos Santos, Governador de Luanda, nomeou-me seu assessor político-social. Infelizmente não durou lá. Alguns meses depois descobri o peso do nepotismo, quando na CACL desempenhava o cargo de assessor da vice-presidente Francisca, durante o consulado do General José Tavares. Aí nem salário me pagaram. Davam-me um “vamos ver” de Kz.100.000.00 quando apetecia. Apanhei um AVC no final de 2012 e fui “desaparecendo”.


Escrevi ao Presidente da República (carta entregue num guichê da Cidade Alta) e em 2015 fui readmitido nos quadros do Ministério da Juventude. Atiraram-me para a Galeria, onde me deram uma sala grande sem mais ninguém. Até hoje nunca me foi dada nenhuma tarefa. Não, minto. Mandaram-me assistir a um conselho consultivo. E continuo na mesma categoria desde 1996. 1° assessor!

A entrevista de Lopito Feijo fez-me lembrar da vida do quadro militante que não se propõe rastejar, que não se conforma apenas com o que entra no seu bolso e se propõe fazer um trabalho que corresponda aos objectivos declarados previamente.”

Bernardo António Januario

Fonte: Artigo publicado no Club-k