O Conflito do Cazombo: O que Aconteceu em Agosto de 2026 e o que Está em Jogo
O que aconteceu no Cazombo em agosto de 2026 não foi um incidente isolado. Foi o episódio mais recente de um conflito étnico com raízes na década de 2010 — e percebê-lo exige conhecer o contexto.
As origens do conflito
Antes de 2012, a tensão entre a etnia Luvali e os Lundandembo na região do Cazombo tinha uma dimensão essencialmente económica: rivalidade e rixa por recursos. A partir de 2012, o conflito ganhou uma dimensão ideológica e política, centrada numa questão específica: quem tem legitimidade para exercer autoridade tradicional na vila do Cazombo.
De um lado, o soba Sipaia dos Luvali, que reclama precedência histórica — terá sido o soba Luvali a receber o primeiro administrador português que chegou à zona. Do outro, o soba Chinunque dos Lundandembo, que se estabeleceu na vila durante a Guerra Civil juntamente com outros sobas refugiados. Segundo a posição dos Luvali, o Chinunque foi acolhido na condição de cidadão comum, não de autoridade tradicional, uma vez que a vila já tinha um soba. A maioria dos outros sobas refugiados que chegaram durante a guerra regressou entretanto às suas zonas de origem — alguns com apoio do governo, que construiu residências nessas zonas, como o soba Djimba e o soba Shivanda, que regressaram em 2016. O soba Chinunque recusa-se a fazer o mesmo.
A radicalização a partir de 2021
Em 2021, o conflito escalou. O soba Chinunque passou a alegar que o território pertencia aos Lundandembo antes da chegada dos Luvali — invocando o tempo do Império Lunda-Tchokwe. E, alegadamente, constituiu uma milícia denominada Moindas para sustentar essa pretensão pela força.
A partir daí, os Moindas terão perpetrado uma série de ataques com armas brancas — catanas, flechas, azagaias e caçadeiras tradicionais — contra Luvalis nas lavras: assaltos a pessoas, queima de cabanas, usurpação de bens e destruição de cultivos. O resultado: mais de 15 feridos graves e pelo menos dois mortos.
Perante este quadro, alguns Luvalis acusaram a polícia de inacção — e até de cumplicidade, alegando que elementos detidos em flagrante teriam sido libertados sem consequências. As explicações avançadas para essa suposta inacção variam: uma alegada relação de proximidade entre o então governador do Moxico, Mandumba, e o soba Chinunque; uma suposta antipatia étnica dos agentes da polícia local, maioritariamente Tchokwe e portanto próximos dos Lundandembo; ou ainda uma alegada aliança entre o Chinunque e o movimento protetorado Lunda-Tchokwe, conhecido como Malakitas, ao qual a rainha dos Luvali se opõe. São alegações — e em conflitos desta natureza há sempre acusações cruzadas. Mas o sentimento de abandono era real, e foi isso que desencadeou os confrontos de 2021 na vila do Luvali entre as duas comunidades.
A intervenção de Luanda
Face à gravidade da situação, houve intervenção directa da presidência da República. A rainha Nakatolo foi recebida no Palácio da Cidade Alta em 2021 e recebeu garantias do poder central de que a ordem seria restabelecida e os seus representados protegidos. Seguiram-se outras visitas em 2024 e 2026, no âmbito das discussões sobre a nova divisão político-administrativa — que resultou na criação da província do Moxico Leste, com a vila do Cazombo elevada a capital provincial.
Esta intervenção de Luanda não é, convém clarificá-lo, uma tomada de partido pelos Luvali. É uma defesa da ordem pública. O Estado não tem lados étnicos — tem a obrigação de proteger todos os cidadãos e de impedir que conflitos locais se transformem em violência generalizada.
O que aconteceu em agosto de 2026
Percebido este contexto, o episódio de agosto torna-se inteligível. Membros da realeza Lundandembo tentaram realizar um enterro dentro de uma zona residencial da vila do Cazombo — o que é, em primeiro lugar, ilegal: a lei angolana proíbe enterramentos em zonas residenciais. A polícia interveio para impedir o enterro ilegal.
Mas o acto não era apenas ilegal — era uma provocação deliberada. Enterrar o soba Chinunque no quintal da sua residência no Cazombo era afirmar simbolicamente os seus direitos sobre aquele território, em confronto directo com a autoridade do soba Luvali. Os Lundandembo sabiam que era uma provocação. Os Luvali percebê-la-iam como tal. E o Estado tinha a obrigação de a impedir precisamente por isso — para evitar que acendesse um conflito com antecedentes de violência grave.
A irresponsabilidade de alguns comentadores
Perante tudo isto, surgiram nas redes sociais publicações de uma irresponsabilidade que seria cómica se o assunto não fosse sério. O activista Hitler de Samusuko publicou que estavam “a brincar com o cadáver do soba Chinunque” e que “a polícia está a disparar contra o povo”. O deputado Nelly Littlequick declarou “solidariedade total ao povo do leste”.
Que povo do leste? Há dois grupos neste conflito. Ambos são angolanos. Ambos precisam de ser protegidos pelo Estado. E ambos têm o potencial de desencadear actos de desordem. Declarar solidariedade a um dos lados sem especificar qual — ou pior, ao lado que provocou — não é solidariedade. É irresponsabilidade com potencial para inflamar um conflito étnico.
Quem tem solidariedade total com o povo do leste é o governo de Angola, que reconheceu a existência do conflito, ouviu todas as partes e medeia activamente uma solução.
Qual é a solução racional
A solução mais racional é também a mais simples: a autoridade tradicional actualmente estabelecida na vila do Cazombo é mantida, e os cidadãos Lundandembo que queiram residir e trabalhar no Cazombo têm esse direito reconhecido e protegido — na condição de cidadãos individuais, não de autoridade concorrente. O soba Chinunque tem a sua zona de origem. Que regresse a ela e exerça aí a sua autoridade.
Não acredito em poderes tradicionais como fonte de legitimidade política. Mas enquanto essa estrutura existir, não é racional o Estado permitir que dois sobas disputem o mesmo território com milícias e catanas.
E uma nota final que importa reter: sem a República de Angola a mediar estas situações, este tipo de conflito dividiria o país inteiro segundo linhas étnicas. No Congo Democrático, um conflito desta natureza acabaria certamente no genocídio de um dos dois povos. Não é um exagero. É história recente.
Angola vencerá.














Em 2008 pedi a minha reintegração no Ministério da Juventude, de cujo quadro de pessoal sou efectivo, com a categoria de 1° assessor. Muandumba e Pitra Neto não quiseram reintegrar-me. Escrevi a pedir ajuda ao então presidente do Grupo Parlamentar do MPLA, Gigí. Nunca reagiu. Escrevi ao Secretariado do BP. Fui recebido por Roberto de Almeida, mas nada mudou. Alfredo Júnior e Rui Falcão “arranjaram-me” o emprego de adido de imprensa na Suiça em 2010, 2011 (lembraram-se que a JMPLA dera-me um curso básico de jornalismo e que fui correspondente do jornal Juventude na Huila). Mas acho que acabei por não satisfazer Carolina Cerqueira (ou o seu gabinete). Quando apercebeu-se disso, José Maria dos Santos, Governador de Luanda, nomeou-me seu assessor político-social. Infelizmente não durou lá. Alguns meses depois descobri o peso do nepotismo, quando na CACL desempenhava o cargo de assessor da vice-presidente Francisca, durante o consulado do General José Tavares. Aí nem salário me pagaram. Davam-me um “vamos ver” de Kz.100.000.00 quando apetecia. Apanhei um AVC no final de 2012 e fui “desaparecendo”.