A saga dos números das crianças fora do sistema de ensino

A saga dos números das crianças fora do sistema de ensino expõe a inutilidade da oposição angolana — nos partidos e fora deles — para lá da agitação e da desmoralização: falha no papel de fiscalizar e de abrir um debate de onde saiam soluções. Primeiro vieram os nove milhões. Francisco Teixeira, presidente do MEA, falou em “mais de nove milhões” de crianças fora da escola e, num debate com Norberto Garcia, chegou aos 9,5 milhões, com uma fonte digna de registo: “os seus olhos e os seus ouvidos”. Nelito Ekuikui repetiu o número citando Teixeira, e o jurista Carlos Cabaça voltou aos nove milhões em Agosto, num programa de debate — o Polígrafo África classificou a afirmação como falsa. O Censo 2024 do INE conta 4 499 612 crianças e jovens dos 5 aos 18 anos fora do sistema: metade do que se apregoava. Hoje a UNITA já usa os números certos. Nuno Dala fala nos 4,5 milhões, e Adalberto Costa Júnior, no discurso de 14 de Outubro, citou os dados do Censo e prometeu baixar a taxa de 34% para menos de 10% até 2037. Mas o número continua a ser tratado como um bloco único, prova de um fracasso total, e um bloco único não diz a ninguém por onde começar.

E o bloco não é homogéneo. A fatia mais nova — e a maior idade isolada — são as crianças de 5 anos: até cerca de 800 mil, quase um quinto do total. É a idade da classe de iniciação, e segundo o IIMS 2023–2024 só 19,9% destas crianças frequentam o ensino pré-primário (13,2% no meio rural). A Lei de Bases torna a iniciação obrigatória, mas a evidência não justifica essa obrigação. O pré-escolar só dá resultados quando tem qualidade. Em Moçambique, um programa bem montado da Save the Children aumentou em 21 pontos percentuais a probabilidade de as crianças que o frequentaram estarem matriculadas na primária. No Malawi, formar os educadores dos centros comunitários melhorou as salas, mas não o desenvolvimento das crianças. E no Camboja, construir pré-escolas não teve efeito mensurável — e, na geração mais exposta, piorou a cognição, sobretudo dos filhos dos pais mais pobres. Encher salas sem qualidade para fazer descer uma estatística não é preparar crianças para a escola. Uma criança de 5 anos em casa não é um fracasso do sistema de ensino: nessa idade, a escolha deve ser dos pais — e somá-la aos 4,5 milhões só engorda o número.

A segunda grande fatia são os 1 286 455 adolescentes dos 15 aos 18 anos, a idade do II ciclo do secundário, que a lei não torna obrigatório. Estão sobretudo no campo: 61,9% dos jovens rurais desta idade estão fora da escola, contra 24,5% nas cidades. É também no campo que a gravidez precoce é mais do dobro: 42,5% das raparigas rurais de 15 a 19 anos já estiveram grávidas, contra 20,0% nas cidades. O Cuanza Sul, o Bié e a Lunda Norte estão entre as cinco piores províncias nas duas listas — no Cuanza Sul, 53,1% das raparigas de 15 a 18 anos estão fora da escola e 51,4% já estiveram grávidas. Quando uma rapariga de 16 anos troca a escola pela maternidade, entra na vida adulta antes do tempo, e nenhuma sala de aula resolve isso.

O Cunene mostra a outra metade do problema. Tem a segunda gravidez precoce mais baixa do país (17,2%, só atrás de Luanda) e, mesmo assim, mais de metade das raparigas de 15 a 18 anos está fora da escola. Ali, 38,3% das turmas do primário tinham aulas ao ar livre em 2022/2023, segundo o Anuário Estatístico da Educação — numa província onde as famílias constroem as próprias casas de pau-a-pique, adobe ou blocos. Como escrevi em 2021, numa turma de 30 alunos bastaria cada família contribuir com um trigésimo dos materiais para que os filhos estudassem numa sala, com o professor pago pelo Estado. Que isso não aconteça é sinal, a meu ver, de que em algumas zonas rurais a escola só interessa enquanto for totalmente gratuita. E se o desinteresse dos pais já pesa no ensino obrigatório, pesa ainda mais no facultativo.

Dir-se-á que a culpa é da seca. Foi essa, em 2021, a explicação oficial para o abandono no Cunene: seca, fome e transumância. A seca é real e repetiu-se — em 2024 o Sul viveu um período seco recorde, e em 2025 cerca de 2,2 milhões de pessoas ainda precisavam de ajuda humanitária. Mas a seca não explica tudo. Quando, numa das províncias com menos gravidez precoce do país, a família manda a criança atrás do gado em vez de a mandar à escola, há ali uma escolha — feita em condições duras, mas uma escolha consciente.

Isto leva-nos a uma pergunta que parece estar além da capacidade intelectual da oposição angolana: deve o Estado ser responsabilizado pelas consequências negativas das decisões que o cidadão toma para si mesmo? Tem alguém o direito de se indignar com o resultado das suas próprias escolhas? A Lei de Bases já responde em parte: o dever de garantir que as crianças frequentam a escola é do Estado, mas também da sociedade, das famílias e das empresas (artigo 12.º). O máximo que a UNITA consegue oferecer é saudosismo do regime colonial — nas palavras de Kamalata Numa, num discurso de 2018 sobre a “terceira revolução” angolana, “a vida do jovem já estava traçada: sabe a que idade vai à escola, vai à tropa, e aí trabalhar”. Temos de reconhecer que as pessoas são responsáveis pelos seus actos, e que qualquer ajuda deve começar pela aceitação de uma medida correctiva — planeamento familiar em troca de apoio financeiro, por exemplo —, e não pela situação actual, em que cada um se apresenta como vítima arrogante das suas próprias decisões.

E há uma questão de dinheiro. No OGE 2026, a educação recebe 2,29 biliões de kwanzas — 6,9% do orçamento, num Estado que gasta 46,6% em encargos financeiros, sobretudo com a dívida. Faltam cerca de 87 mil professores, e o Governo prevê contratar 6 mil em 2026. Com verbas tão limitadas, seria mais eficiente concentrá-las nas crianças em idade de escolaridade obrigatória cujos pais são realmente incapazes de lhes garantir a escola — seja pagando propinas, seja juntando esforços com a comunidade. O Estado não existe para proteger as pessoas das consequências nefastas das suas próprias escolhas económicas; existe para fazer aquilo que a sociedade, sozinha, não consegue fazer.

Há ainda um erro de método: medir o fracasso com a taxa total. Se há um ensino obrigatório e outro facultativo, uma taxa que os soma não mede o fracasso de ninguém. A taxa total é de 34,2%. Pela lei, o ensino obrigatório vai da iniciação ao I ciclo, dos 5 aos 14 anos, e aí a taxa é de 33,3%. Sem a iniciação — que, como defendo, devia ser escolha dos pais —, os 6 aos 14 anos ficam entre 28% e 33%. Os 15 aos 18 anos, idade do II ciclo, facultativo, chegam aos 36,7%. É o ensino obrigatório que mede o desempenho do Estado; o facultativo mede também as escolhas das famílias. E, mesmo descontando tudo o que é facultativo, mais de uma em cada quatro crianças em idade obrigatória está fora da escola — é esse o número que devia estar em discussão.

E esse número não desceu na última década; subiu. Em 2014, o Censo contava 1 525 436 crianças dos 5 aos 14 anos fora da escola, cerca de 21% — e isto já com as de 5 anos lá dentro. Em 2024, só dos 6 aos 14 anos são pelo menos 2,4 milhões: mais 58%, no mínimo, numa década em que a população destas idades cresceu cerca de um terço. No grupo dos 12 aos 14 anos, onde não há estimativas pelo meio, o número quase quadruplicou, de 213 742 para 798 929, e a taxa passou de 12,7% para 27,7%. É aqui, e não nos nove milhões imaginários, que a oposição devia fazer o trabalho de fiscalização que lhe compete.

Em Luanda, onde o Estado está mais presente e a procura por escola é maior, a taxa de crianças e jovens fora do sistema cai para 16,1% — menos de metade da média nacional de 34,2%. Mais: quase metade dos alunos da capital (48,6% em 2021/2022) estuda em colégios privados pagos pelas famílias. Onde há procura, a escola aparece, pública ou privada. Os 4,5 milhões são, afinal, três realidades distintas: crianças de 5 anos fora da iniciação, adolescentes rurais que entram cedo na vida adulta e um núcleo duro de pelo menos 2,4 milhões de crianças entre os 6 e os 14 anos. Só as duas últimas são problemas a sério, e cada uma pede uma resposta própria, província a província. Uma oposição séria faria essa conta antes de ir para a televisão. A nossa já acertou no total; falta-lhe o resto da conta.

Angola vencerá.

Porque é que voar dentro de Angola é tão caro?

Oct 25, 2026 · @Roboredo

O ponto de partida

O bilhete de avião para o Lubango é caro por três razões: o custo de pôr o avião no ar, os lugares que ficam vazios e o valor que o cliente dá à viagem. Nenhuma delas é capricho.

Um candidato a deputado queixa-se num vídeo: se quiser ir hoje ao Lubango, tem de pagar um bilhete de 500 mil kwanzas. Ele não entende o porquê desta diferença de preço, mas quer ser deputado.

1. O chão do preço: o custo operacional

Há um mínimo abaixo do qual nenhuma companhia vende um bilhete sem perder dinheiro. Esse chão é definido sobretudo pelo combustível e pela manutenção.

O combustível. Em Angola, o preço do Jet A1 é fixado todos os meses. Em Abril de 2026, o preço nas instalações aeroportuárias subiu 82%, de 675,86 para 1 228,69 kwanzas por litro (Expansão). A guerra no Médio Oriente quase duplicou, num mês, o chão de qualquer voo doméstico.

A própria TAAG admitiu que a sua factura de combustível deverá passar de 132 para cerca de 264 milhões de dólares (Ver Angola).

A manutenção. Um avião não se mantém por calendário, mas por horas de voo e por ciclos, ou seja, cada descolagem e aterragem. Os motores, o trem de aterragem e a fuselagem têm limites contados em ciclos. Nos voos curtos, o avião faz muitos ciclos para poucas horas, e a manutenção por hora encarece.

Uma referência do sector estima, para o Boeing 737-700, cerca de 1 325 dólares de manutenção por hora de voo. Para o Dash 8-400, estimo cerca de 900 dólares por hora.

Só idaLuanda–CabindaLuanda–Lubango
AviãoBoeing 737-700 (120 lugares)Dash 8-400 (74 lugares)
Distância≈ 380 km≈ 675 km
Combustível≈ 2 700 litros → 3,3 milhões Kz≈ 1 900 litros → 2,3 milhões Kz
Manutenção≈ 1 hora → 1,2 milhões Kz≈ 1h40 → 1,4 milhões Kz
Chão do voo≈ 4,5 milhões Kz≈ 3,7 milhões Kz
Por lugar, avião cheio≈ 38 mil Kz≈ 50 mil Kz
Por lugar, avião a meio≈ 76 mil Kz≈ 100 mil Kz

E isto é só o chão. Faltam os pilotos e a tripulação, o aluguer ou amortização do avião, as taxas aeroportuárias e de navegação, o handling e os seguros.

O combustível representa cerca de 40% dos custos de uma companhia aérea. Feita a conta completa, um voo para o Lubango custa perto de 5,8 milhões de kwanzas. Com o avião a meio, são quase 158 mil kwanzas por passageiro só de ida, e mais de 300 mil ida e volta, sem um kwanza de lucro.

O bilhete não é caro por capricho. O preço parte de um chão alto, e são os lugares vazios que o empurram para cima.

2. A lógica do preço: a taxa de ocupação

Quanto mais cheio o avião, mais barato pode ser cada lugar. Numa rota com muitos passageiros, a companhia tem a certeza de que o avião vai cheio e volta cheio, e pode cobrar menos a cada um.

Num destino com poucos passageiros, o avião arrisca-se a ir meio vazio e a voltar vazio. Mas o combustível custa praticamente o mesmo, esteja o avião cheio ou vazio. Para não perder dinheiro, a companhia tem de aumentar o preço por passageiro e compensar os lugares vazios.

3. O exemplo do táxi

Qualquer taxista faria a mesma conta, se tivesse liberdade para cobrar o preço que quisesse. O táxi vai cheio para os Congolenses, mas lá não há passageiros para Viana. Em vez de cobrar 300 kwanzas e voltar vazio, cobra 500: esses 200 kwanzas a mais compensam os lugares vazios.

A mesma lógica aplica-se às companhias aéreas. O problema não é a viagem ser dentro do próprio país: o avião tem um custo operacional, e alguém tem de o pagar.

4. Porque é que há tão poucos passageiros

A aviação doméstica é apertada pelos dois lados: pelo carro em cima e pelo autocarro em baixo.

  • Em cima: quem tem dinheiro para viajar de avião também tem dinheiro para viajar de carro. O carro é conveniente, dá estatuto social e até é agradável. E, na cidade de destino, a pessoa continua a andar no seu carro, em vez de depender de táxis ou boleias.
  • Em baixo: quem ganha menos prefere o autocarro, porque quer poupar. Uma viagem de autocarro custa 10 a 20 mil kwanzas, um preço muito baixo.

Os clientes naturais das companhias aéreas para as viagens interprovinciais preferem o carro, e o mercado de massa já é do autocarro. Poucos clientes não quer dizer aviões vazios: quer dizer poucos voos e aviões pequenos.

5. O serviço mínimo é publicidade

Nos transportes, a regularidade é o próprio produto. Por isso a companhia não pode simplesmente deixar de voar para as rotas com poucos passageiros.

Ninguém troca o conforto do carro, ou a poupança do autocarro, por uma alternativa em que não confia. Para deixar o carro em casa, a pessoa tem de ter a certeza de que o avião vai lá estar no dia e à hora marcados, e de que há voo de regresso. Manter voos regulares, mesmo com o avião a meio, é a forma de provar à clientela que a alternativa existe.

Os lugares vazios funcionam, portanto, como custo de publicidade. Em vez de pagar um cartaz na estrada, a companhia paga a cadeira vazia. É um investimento na criação do mercado.

O contrário também é verdade. Se a companhia corta frequências sempre que a procura baixa, os poucos clientes deixam de confiar e voltam a planear as viagens de carro. Menos voos, menos passageiros, ainda menos voos: é um ciclo vicioso.

E nós sabemos bem como isto funciona. Em Abril, quatro Dash 8 estavam fora de serviço, e num dos primeiros dias do mês um único avião fez todos os voos domésticos (Expansão). Cada cancelamento destes empurra clientes de volta para a estrada, e um cliente perdido não volta com um comunicado de imprensa.

6. Então devemos privatizar a TAAG? Não necessariamente.

Nem todas as empresas públicas têm como objectivo o lucro. Um empreendimento pode dar retorno financeiro, social ou político, e nem sempre económico.

Angola é um país de dimensão subcontinental, com uma província, Cabinda, separada do resto do território e de acesso mais difícil. Sem uma companhia aérea nacional, aumentaria o sentimento de distância entre Cabinda e o território principal, e também entre a capital e as outras províncias. A companhia de bandeira tem, portanto, um efeito positivo sobre a unidade nacional.

Claro que se pode discutir o nível de investimento que o Estado deve fazer nela. Isso está aberto ao debate.

7. Quanto custa a unidade nacional: o subsídio de Cabinda

O subsídio da rota de Cabinda custa ao Estado entre 10,5 e 20 mil milhões de kwanzas por ano. É o preço, no ar, da unidade nacional.

O que o passageiro paga. A ida e volta em classe económica tem preço fixo de 29 717 kwanzas, numa tarifa subsidiada (Ver Angola). São cerca de 33 dólares, menos de 15 mil kwanzas por trajecto.

O que o voo custa. A maioria dos voos para Cabinda é feita em Boeing 737-700, de 120 lugares, e a ocupação anda nos 97%. Só o combustível de cada lugar custa cerca de 29 mil kwanzas por trajecto, quase o dobro do que o passageiro paga. Somando o resto, cada lugar custa entre 57 e 71 mil kwanzas por trajecto, ou 114 a 143 mil ida e volta.

Quanto custam viagens equivalentes.

ViagemDistânciaIda e volta
Luanda–Cabinda, tarifa subsidiada≈ 380 km29 717 Kz
Luanda–Cabinda antes do subsídio (214 USD), ao câmbio de hoje≈ 380 km≈ 195 mil Kz
Luanda–Kuito (Bié)≈ 565 km≈ 119 mil Kz
Luanda–Menongue (Cuando Cubango)≈ 810 km≈ 142 mil Kz
Nairobi–Mombasa (Quénia)≈ 440 km≈ 77–120 mil Kz
Joanesburgo–Durban (África do Sul)≈ 500 km≈ 58–82 mil Kz
Luanda–Kinshasa (RDC)≈ 550 kma partir de ≈ 490 mil Kz

Mesmo as companhias low-cost africanas, que voam aviões mais cheios e existem para ser baratas, cobram duas a quatro vezes mais por distâncias equivalentes. As rotas internas mais longas custam quatro vezes mais; Kinshasa, mais de 16 vezes mais.

O valor da subvenção.

  • Por passageiro: entre o custo (114–143 mil) e o que o passageiro paga (29 717), a diferença é de 84 a 113 mil kwanzas por ida e volta, cerca de 90 a 125 dólares.
  • Por ano: a TAAG transportou 227 857 passageiros nesta rota entre Janeiro e Novembro de 2025 (Ver Angola), e em 2023 Cabinda teve 12% dos três milhões de passageiros aéreos do país (Ver Angola). São 250 a 360 mil trajectos por ano, e uma subvenção de 10,5 a 20 mil milhões de kwanzas.
  • Valor oficial: em 2024, antes de o combustível duplicar, a subvenção custou 10,6 mil milhões de kwanzas, segundo o Relatório Agregado do Sector Empresarial Público (Ver Angola).

Porque é que o valor é tão alto? Porque a tarifa ficou congelada em kwanzas. Em 2018, o tecto foi fixado em 27 726 kwanzas, então 150 dólares, contra os 214 dólares cobrados antes. Hoje a tarifa vale cerca de 33 dólares.

O combustível, os aviões e as peças pagam-se em dólares. O passageiro paga hoje pouco mais de um quinto do que pagava em 2018, e a diferença ficou para o Estado.

Em perspectiva. Só no primeiro semestre de 2026, os subsídios aos combustíveis custaram quase 1,7 biliões de kwanzas (Expansão). A subvenção anual de Cabinda equivale a um ou dois dias disso.

O Estado gastou mais de 750 milhões de dólares em viaturas em 2025 (Expansão). Com esse dinheiro, pagava-se o subsídio de Cabinda durante mais de 30 anos.

O retorno também existe: o ministro dos Transportes atribui ao subsídio o facto de Cabinda ser hoje o segundo ponto de tráfego aéreo do país (Ver Angola). Pode-se discutir o nível do subsídio, mas a unidade nacional, pelo menos no ar, sai barata.

8. O valor de mercado: quanto vale a viagem para o cliente

Para um assalariado com o salário mediano, as duas viagens valem quase o mesmo: cerca de 100 mil kwanzas ida e volta. Esse valor mede-se pela alternativa. Ninguém paga pelo avião mais do que lhe custaria ir de barco ou de autocarro, somando o dinheiro e as horas perdidas: é o custo de oportunidade.

Cabinda: o mercado paralelo já fez as contas. O preço oficial é de 29 717 kwanzas, mas os lugares esgotam: desde que a TAAG passou a vender sozinha, emitiu bilhetes para 96,9% dos lugares postos à venda (Ver Angola). Antes disso, quem não encontrava lugar nas lojas da TAAG conseguia-o nas agências não oficiais, a preços entre 70 e 100 mil kwanzas (O País).

Houve passageiros a pagar mais do dobro do preço oficial (Ver Angola). Em 2021, um passageiro contava ao Novo Jornal que andava há dois meses à procura de lugar, e que só viajava quem tinha “cunha” na TAAG (Ver Angola).

A alternativa é o catamarã: 40 mil kwanzas por viagem (Ver Angola) e cerca de 10 horas de travessia (Ver Angola). Ida e volta, são 80 mil kwanzas e quase um dia no mar. O avião poupa umas 15 horas, que ao salário mediano valem cerca de 30 mil kwanzas.

Para esse trabalhador, o avião vale portanto cerca de 110 mil kwanzas ida e volta, e o paralelo cobrava praticamente isso. O mercado encontrou sozinho o valor da viagem.

Lubango: três maneiras de lá chegar. O Lubango é a segunda rota doméstica da TAAG, com cerca de nove voos semanais, logo atrás de Cabinda (Ver Angola). É a rota com mais voos entre as que não têm subsídio.

Opção (ida e volta)PreçoTempo porta-a-portaCusto total para o assalariado mediano
Avião directo Luanda–Lubango≈ 270–300 mil Kz≈ 8 h≈ 286–316 mil Kz
Avião até ao Namibe + autocarro até ao Lubango≈ 247–313 mil Kz≈ 16 h≈ 279–345 mil Kz
Autocarro Luanda–Lubango≈ 40 mil Kz≈ 28 h≈ 96 mil Kz

Tempo valorizado a 2 000 kwanzas por hora, o equivalente ao salário mediano de 350 mil kwanzas por mês (Forbes África Lusófona).

A rota pelo Namibe custa praticamente o mesmo que o voo directo e demora o dobro. Só compensa quando o Lubango está esgotado ou mais caro nesse dia. Mas é ela que põe um tecto ao preço do Lubango: se a TAAG o subisse demasiado, os passageiros aterravam no Namibe e subiam a Serra da Leba de autocarro.

Não admira que os dois destinos tenham preços quase iguais. Em Novembro de 2025, a ida e volta custava em média 270 mil kwanzas para o Lubango e entre 234 e 295 mil para o Namibe (Expansão).

Para o assalariado mediano, o autocarro ganha de longe: 96 mil contra quase 300 mil. Para o avião directo compensar, as 20 horas poupadas têm de valer 11 500 a 13 000 kwanzas por hora. Isso corresponde a um salário de 2 a 2,3 milhões de kwanzas por mês: seis vezes o mediano e vinte vezes o mínimo.

Quem voa para o Lubango a 270 mil é o quadro superior, a empresa que paga a deslocação ou quem tem uma urgência. São os mesmos clientes que também podem ir de carro. É para eles que o preço está feito, e eles pagam.

9. A estrutura do preço: Cabinda contra Lubango

O bilhete de Cabinda cobre cerca de um quarto do custo; o do Lubango, quase o dobro. A diferença não está no avião, está em quem fixa o preço.

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Em Cabinda, o preço é político. O Estado fixou-o abaixo do custo e abaixo do valor de mercado. O resultado é o que qualquer manual prevê para um preço máximo: faltam bilhetes e aparece o mercado negro.

A diferença entre o preço oficial e o valor de mercado, 40 a 70 mil kwanzas por bilhete, ia parar ao bolso dos intermediários. O Estado, esse, paga o buraco entre o preço e o custo.

E até o valor de mercado fica abaixo do custo completo. Sem subsídio, a rota encolhia, porque muitos passageiros passariam para o barco. A própria TAAG põe a rota de Cabinda entre as menos lucrativas (Ver Angola).

No Lubango, o preço é de mercado. Desde 2018, a TAAG usa tarifas variáveis nas rotas domésticas, com Cabinda como excepção (Ver Angola). Os preços sobem à medida que o voo enche e a data se aproxima: em poucos dias, a ida e volta para o Namibe subiu 26% e para o Lubango 8% (Expansão).

É esta a optimização por lotação: os primeiros lugares vendem-se mais baratos, os últimos ao preço de quem tem pressa. Com o preço ao nível do valor de mercado, não sobra margem para revendedores, e a margem fica na TAAG.

A lotação decide a margem. O preço do Lubango só cobre o custo completo a partir de 40 a 60% de ocupação. Com o avião quase cheio, sobra margem; com o avião a meio, o preço é só o custo, e volta-se ao argumento da secção 2.

10. O verdadeiro problema: o candidato

O candidato quer o Lubango ao preço de Cabinda. Cabinda mostra o que isso dá: bilhetes esgotados, revendedores a ganhar a diferença e o Estado a pagar a conta. Baixar o preço por decreto não põe mais lugares no avião; só muda quem fica com o dinheiro.

No vídeo, o candidato tenta agradar a gregos e troianos ao mesmo tempo:

  • bajula os trabalhadores, dizendo que têm de ganhar mais;
  • bajula os invejosos, apontando o dedo aos reformados;
  • bajula quem gosta de se queixar da corrupção;
  • enfim, bajula toda a gente.

Ele quer mesmo aquele lugar. Por favor, não esperemos pelas eleições: algum deputado que desista do mandato e indique este senhor. Assim, pelo menos, poupamo-nos às péssimas ideias, porque enquanto não lhe derem o lugar, ele não vai parar de falar.

Deixe a sua opinião nos comentários. Que Deus o abençoe e que Deus abençoe Angola.

Angola vencerá.

Pressupostos das contas

Os valores de custo e de tempo são estimativas do autor; os preços e os dados das companhias vêm das fontes indicadas.

  • Câmbio: 912 Kz por dólar, a média oficial de 2025, e 1 065 Kz por euro, a média de 2026.
  • Combustível: Jet A1 a 1 228,69 Kz por litro, o preço aeroportuário de Abril de 2026. Consumo de cerca de 2 700 litros no 737-700 para Cabinda e 1 900 litros no Dash 8-400 para o Lubango.
  • Manutenção: 1 325 dólares por hora de voo no 737-700 e cerca de 900 no Dash 8-400.
  • Custo completo: o combustível pesa entre 40% e 50% do custo total; daí as faixas.
  • Ocupação: 96,9% em Cabinda, dado da TAAG; 90% no Lubango, estimativa, sem dados publicados. Cabinda lidera em voos e passageiros, e o Lubango vem em segundo.
  • Autocarro Luanda–Lubango: 20 mil Kz e 14 horas por trajecto. As estimativas actuais vão de 10h30 a 18h; a Macon cobrava 25 900 Kz em 2021.
  • Namibe–Lubango: autocarro a 7–10 dólares e cerca de 4 horas pela Serra da Leba. Avião porta-a-porta: cerca de 4 horas, com a ida ao novo aeroporto.
  • Valor do tempo: salário mediano de 350 mil Kz por mês nos anúncios de emprego, a 176 horas de trabalho por mês.
  • Distâncias: em linha recta entre aeroportos.

Fontes

Combustível, frota e operação

Cabinda: tarifa, subsídio e mercado paralelo

Lubango, Namibe e alternativas

Comparações internacionais

Contas públicas, salários e câmbio

1,1 mil milhões de dólares em viaturas: o que Adalberto Costa Júnior não disse

Oct 24, 2026 · @Roboredo

Adalberto Costa Júnior, citando o Expansão, apontou que o Estado gastou quase mil milhões de dólares em viaturas em três anos. O número está certo: foram cerca de 1.117 milhões de dólares em 2023–25. O problema está no que a crítica deixa de fora.

  1. Quem critica também anda de carro do Estado. A UNITA tem 90 dos 220 deputados, e cada deputado tem direito a duas viaturas da Assembleia Nacional. Em 2024, o grupo parlamentar da UNITA defendeu publicamente essas viaturas.
  2. As autarquias que a UNITA reclama multiplicariam os eleitos. Assembleias em todos os municípios somariam pelo menos 8.150 membros. Dar-lhes carro, como aos deputados, custaria 300 a 400 milhões de dólares.
  3. Cerca de um terço do gasto tem destino conhecido ou responde a necessidades claras. Autocarros, ambulâncias, viaturas do censo e da Polícia, e o arranque das novas províncias e municípios.
  4. As viaturas não passam à frente das obras nem da educação. Em 2023–25, o Estado gastou 3,8 vezes mais em educação e cerca de 5 vezes mais em estradas, barragens e hospitais.

Os valores estimados estão marcados com (E). As fontes estão no fim do texto.

O número está certo

O Estado gastou 976,2 mil milhões de kwanzas em viaturas em 2023–25, cerca de 1.117 milhões de dólares. O valor citado por ACJ confirma-se e é até um pouco superior a “quase mil milhões”.

AnoMil milhões KzCâmbio médio (Kz/USD)Milhões USD
2023103,0691149
2024187,5870216
2025685,7912752
Total976,2—≈1.117

A base é a rubrica 3.4.1.1.3.05, “Veículos de Tracção Mecânica”, da Conta Geral do Estado (despesa liquidada), a mesma usada pelo Expansão. Só 2025 vale dois terços do total, mais 250% do que em 2024.

“Viaturas” não quer dizer “carros de luxo”. Segundo o Ministério das Finanças, a rubrica junta ligeiros, todo-o-terreno, carrinhas, autocarros, camiões e tractores. Entre as compras de 2025, o MINFIN destaca viaturas protocolares, meios de emergência médica, autocarros e pesados de limpeza urbana (resposta ao Expansão).

O problema é outro: a Conta Geral do Estado não diz que órgão comprou o quê, nem quantas viaturas. Nem o Governo nem ACJ podem, com os dados públicos, provar para onde foi a maior parte do dinheiro.

1. Dois pesos e duas medidas: os carros da Assembleia Nacional

Os deputados estão entre os titulares mais bem servidos de viaturas do Estado, e a UNITA tem 90 dos 220 lugares.

  • Frota: a Assembleia Nacional tinha 1.371 viaturas em 2022, o equivalente a mais de seis por deputado, contando as de serviço (Expansão).
  • Direito: cada deputado tem uma viatura protocolar e outra de apoio à residência. Segundo o Expansão, uma delas é de luxo, acima de 200 mil dólares.
  • Preços da renovação de 2023–24: o Land Cruiser 300 GRX custou à Assembleia mais de 100 milhões de Kz, contra cerca de 75 milhões no Dubai. O Lexus 600 custou 150 a 200 milhões de Kz, contra cerca de 108 milhões (Expansão, Jan. 2024).
  • Hilux de apoio à residência: foram entregues em 2023, quando a lei do OGE suspendia essas atribuições, segundo o mesmo jornal.
  • Custo estimado da renovação: cerca de 220 Hilux, 190 Land Cruiser 300 e 30 Lexus 600, entre 38 e 47 milhões de dólares (E).

Quando a polémica estalou, em Janeiro de 2024, o grupo parlamentar da UNITA respondeu por escrito. Disse que as viaturas são património da Assembleia, que a lei dá a cada deputado uma viatura oficial e outra de uso pessoal, e que a polémica era especulação (Novo Jornal).

Um ano depois, a Comissão de Mandatos, Ética e Decoro Parlamentar decidiu retirar o mandato a um deputado da UNITA que pôs a viatura oficial ao serviço de um negócio de aluguer de carros (Novo Jornal, Jan. 2025). O partido que hoje critica o gasto do Estado com viaturas defendeu as suas em 2024.

2. Autarquias: mais eleitos, mais carros

A bandeira da UNITA para o poder local criaria milhares de novos cargos políticos. O partido quer autarquias em todos os municípios ao mesmo tempo desde, pelo menos, o manifesto de 2012, e em Março de 2025 levou ao Tribunal Constitucional a falta da lei que as institucionaliza (Novo Jornal). Em 2018 já as pedia para todo o país em 2020 (Correio da Kianda).

A lei já fixa o tamanho de cada autarquia (Lei n.º 27/19):

  • Assembleia: 25 a 55 membros, conforme o número de eleitores.
  • Câmara: um presidente e até 11 a 15 secretários, em regime de exclusividade.

Em 326 municípios, isto dá pelo menos 8.150 membros de assembleia. Com 11 secretários por câmara, são mais 3.912 lugares executivos. Se tivessem carro como os deputados, a primeira frota custaria:

Cenário (E)ViaturasMilhões USDFace ao gasto com viaturas em 2023–25
Um carro por membro de assembleia, tipo Hilux (35 milhões Kz)8.150≈31328%
Um carro por membro de assembleia, ao custo médio de 2025 (44,5 milhões Kz)8.150≈39836%
Mais um carro por presidente e secretário de câmara (44,5 milhões Kz)3.912≈19117%

A lei actual não dá carro aos membros das assembleias: são voluntários, pagos por senha de presença. Mas as “regalias” dos presidentes e secretários de câmara ficam por fixar em diploma próprio. Bastaria copiar o modelo da Assembleia Nacional, que a UNITA defendeu em 2024, para criar uma conta de 300 a 600 milhões de dólares (E), a renovar periodicamente.

3. Para onde foi o dinheiro: cerca de um terço tem explicação

Cerca de um terço dos 1.117 milhões de dólares tem destino documentado ou responde às necessidades da nova divisão administrativa. Os outros dois terços não estão detalhados nas contas públicas. É uma falha de transparência, não prova de carros de luxo.

EntidadeMilhões USD, 2023–25O que está documentado
Governo central137–149854 autocarros dos Transportes, ~84 (E); lote da Saúde de 364 viaturas, com ambulâncias Land Cruiser e Hilux, 20–27 (E); ambulâncias de 2025, 0–5 (E); Turismo, 22,5; 239 viaturas do Censo 2024, 10,6
Polícia, bombeiros e desminagem65–115 (E)Polícia 30–60 (E), incluindo 500 Suzuki Jimny para comandantes municipais (≈13,7); bombeiros e desminagem 35–55 (E)
Novas províncias e municípios26–167 (E); 64 no cenário médio3 províncias e 162 municípios novos a equipar
Assembleia Nacional38–47 (E)Land Cruiser 300, Lexus 600 e Hilux
Despachos de 2025 sem entidade17–25Restante dos ~50 milhões autorizados até Julho de 2025
Magistrados do Ministério Público7,4Viaturas entregues em 2025
Vice-Presidência2,120 viaturas do Conselho Nacional de Viação, autorizadas em 2024
Explicado (cenário médio)330–409 (30–37%)
Por explicar707–786 (63–70%)

As novas províncias e municípios. Em 2025 arrancaram três províncias novas (Cuando, Moxico Leste e Ícolo e Bengo) e começou a instalação de 162 municípios novos (Expansão; ANGOP). Para os equipar, usei a frota das províncias existentes, 165 viaturas por governo provincial (122 nas mais pequenas), e o custo médio oficial de 2025, 44,5 milhões Kz por viatura:

  • Mínimo: cada província nova igual a uma pequena e um carro por novo administrador: 528 viaturas, ≈26 milhões USD.
  • Médio: província média e cinco viaturas por município novo: 1.305 viaturas, ≈64 milhões USD.
  • Teto: os municípios novos com a cobertura dos actuais, ≈18 viaturas provinciais por município: 3.428 viaturas, ≈167 milhões USD.

O gasto real confirma a necessidade. Em 2025, o Cuando orçamentou 25 milhões Kz em meios de transporte e gastou 1.961 milhões; o Bengo, que ganhou seis municípios, gastou 3.021 milhões contra 533 orçamentados (Anexo 12 da CGE 2025). Como a instalação só termina depois de 2027, parte desta despesa ainda está por vir.

A Polícia pode explicar mais. É o candidato mais forte para a parte por explicar, mas nenhum dado público o confirma:

  • Em 2025, o MININT cabimentou 375,8 milhões USD de despesa de capital, contra 172,6 previstos no OGE: mais 203 milhões, a maior subida entre os órgãos analisados (Anexo 16 da CGE 2025). Não é só viaturas.
  • Em 2023, o Governo contraiu no BAI uma linha de 150 milhões de euros para viaturas, fardas e meios técnicos da Polícia. A parte das viaturas e o ano do desembolso não são públicos (Novo Jornal).
  • Cada município novo deverá ter um comando municipal da Polícia. Os 500 Jimny para comandantes municipais apontam nessa direcção (Lil Pasta News).
  • Exemplo (E): se metade da subida de capital do MININT tivesse sido em viaturas, a parte explicada passaria de 30–37% para 39–46%.

As outras grandes subidas de capital em 2025 foram as da Casa Militar (+184 milhões USD) e da Presidência (+121 milhões). Coincidem com um ano de forte agenda de Estado em Luanda: os 50 anos da independência, com 45 delegações estrangeiras (Observador), e a cimeira União Africana–União Europeia de 24 e 25 de Novembro (Forbes Portugal). A ligação às viaturas é hipótese, não dado.

4. As prioridades: educação e obras à frente das viaturas

Em 2023–25, o Estado gastou 3,8 vezes mais em educação do que em viaturas, e cerca de cinco vezes mais em estradas, barragens e hospitais.

Milhões USD202320242025Total 2023–25Face às viaturas, 2023–25Face às viaturas, 2025
Educação, despesa total1.3691.4131.435≈4.2173,8×1,9×
Estradas, pontes e vias urbanas724–757527–5811.323–1.558≈2.590–2.9002,3–2,6×1,8–2,1×
Barragens e hidroeléctricas427461750–755≈1.6401,5×1,0×
Hospitais e saúde (obras)263–322294–322417–449≈974–1.0900,9–1,0×0,6×
Viaturas149216752≈1.117——
  • Educação: toda a despesa executada da função, salários dos professores incluídos: 946,1, 1.229,2 e 1.309,0 mil milhões Kz (UNICEF, 2025; UNICEF, 2026).
  • Obras: projectos do Programa de Investimento Público, novos e de requalificação (Anexo 14 de 2023, 2024 e 2025). São valores mínimos: as obras pagas por linhas de crédito fora do PIP não entram.
  • Peso no total: em 2025, as viaturas foram cerca de 2% da despesa total do Estado, de 34,57 biliões de Kz (Hold on Angola).

2025 foi o ano menos confortável: as viaturas igualaram as barragens, superaram as obras em hospitais e passaram de metade da despesa com educação. Ainda assim, no conjunto dos três anos, a educação e as obras públicas ficaram muito à frente.

Conclusão

A crítica acerta no número e falha no alvo. O Estado gastou de facto 1,1 mil milhões de dólares em viaturas em três anos. Mas cerca de um terço tem explicação, dos autocarros e ambulâncias à Polícia, ao censo e às novas províncias, e a educação e as obras públicas ficaram muito à frente.

Quem exige contenção nos carros do Estado devia começar pela Assembleia, onde o seu partido tem 90 deputados, e dizer quanto custariam as autarquias que propõe. Já o Governo tem uma forma simples de responder a críticas destas: publicar a lista das compras de viaturas por órgão.

Notas metodológicas e limitações

  • Câmbios: médias anuais de 691 (2023), 870 (2024) e 912 (2025) Kz por dólar.
  • Base: despesa liquidada da Conta Geral do Estado. Liquidada não quer dizer paga.
  • Estimativas (E): contas do autor com preços e quantidades noticiados. A Polícia (30–60) e os bombeiros e a desminagem (35–55) são estimativas de entregas noticiadas sem valor público. Os 500 Jimny vêm de um documento interno de 2025, noticiado em Setembro de 2026 por uma fonte secundária. Os autocarros de 2023 e 2024 (290 e 64) e as viaturas do MP vêm de levantamento anterior do autor; os 500 autocarros de 2025, do Ministério dos Transportes, via Expansão.
  • Lote da Saúde: extrapolado das primeiras 165 de 364 viaturas, financiadas pelo Société Générale: 77 ambulâncias a ~80 milhões Kz e 88 Hilux a 20–25 milhões (CIAM/Jornal de Angola).
  • Censo 2024: 239 viaturas por cerca de 9,2 mil milhões Kz, por ajuste directo (Isto é Notícia).
  • Despachos de 2025: ~50 milhões USD autorizados até Julho, incluindo o Turismo (20,5 mil milhões Kz) e 2,8 milhões da ENDE, empresa pública fora da rubrica (Novo Jornal, Turismo; Novo Jornal, total). Podem incluir entregas já listadas na tabela.
  • Novas províncias e municípios: custo médio de 2025 de 19,2 mil milhões Kz por 431 viaturas registadas (Anexo 25 da CGE); frota provincial de 2022 segundo o Expansão. A ANGOP conta 325 municípios, o Expansão 326. Com viaturas tipo Land Cruiser (~80 milhões Kz), os valores quase duplicam. O MAT só entregou Land Cruisers aos administradores do Cubango em Julho de 2026 (MAT).
  • Autarquias: cenário hipotético. A Lei 27/19 não prevê carros para os membros das assembleias, e parte das viaturas das câmaras poderia vir das actuais administrações municipais.
  • Educação e obras: a educação inclui salários; as obras são só investimento do PIP. A educação de 2023 vem da CGE; a de 2024 e 2025, dos relatórios de execução compilados pela UNICEF (execução de 61%, 78% e 58% do orçamentado).
  • O que falta saber: a lista das compras por órgão (extracto do SIGFE) e o parecer do Tribunal de Contas sobre a CGE 2025.

Fontes

Contas públicas

Assembleia Nacional

Autarquias

Entregas e nova divisão administrativa

Fact-check sobre o financiamento da educação em Angola (3 de Outubro) — pedido de contextualização e de correcção

Nota: Publico aqui pois o email do Poligrafo não chegou ao destinatário.

Assunto: Fact-check sobre o financiamento da educação em Angola (3 de Outubro) — pedido de contextualização e de correcção

Exmos. Senhores da equipa do Polígrafo África,
Exmo. Sr. Jorge Mendes Batalha,

Li com interesse o fact-check publicado a 3 de Outubro de 2026 sobre a afirmação de Lukanu Sebastião de que Angola está entre os países que menos financiam a educação.

Não contesto a classificação de «Verdadeiro» no que toca ao esforço financeiro. Com cerca de 2,5% do PIB e uma fatia da despesa pública bem abaixo dos 15%, Angola está de facto longe das referências da Declaração de Incheon. Gostaria, no entanto, de assinalar dois pontos: um erro factual e uma distinção que o artigo não faz.

1. A ordenação africana

O artigo refere que, em África, Angola só fica acima das Comores (2,34%) e do Zimbabwe (0,38%). Na própria ordenação africana do TheGlobalEconomy para 2023, a fonte citada no artigo, Angola surge em 30.º lugar entre 38 países. Abaixo dela aparecem, além das Comores e do Zimbabwe, o Gabão, a Libéria, a Guiné (1,72%), a Nigéria (0,32%) e a Somália. Acrescento que o valor de 0,38% do Zimbabwe coincide com a forte instabilidade cambial do país em 2023 e talvez mereça confirmação.

2. Esforço não é montante

A percentagem do PIB ou do orçamento mede a prioridade que um país dá à educação, não o montante que efectivamente gasta. Ao apresentar a Serra Leoa (30%), a Etiópia e o Senegal como contraponto, o artigo deixa ao leitor a ideia de que esses países investem mais na educação do que Angola. Isso não se confirma quando a despesa é medida em dólares por habitante.

Comparei 40 países africanos com dados do Banco Mundial e da UNESCO para 2023. Incluí os países citados no vosso artigo e os de um gráfico semelhante exibido na TV Zimbo em 2018:

  • Angola é 33.ª em percentagem do PIB (2,5%) e 34.ª em percentagem da despesa pública (7,7%), mas 14.ª em dólares por habitante (cerca de 73 USD);
  • A Serra Leoa é 1.ª em percentagem da despesa pública (29,4% em 2022), mas apenas 32.ª em dólares por habitante (cerca de 20 USD);
  • A Etiópia passa do 12.º lugar (18,3% da despesa pública) para o 26.º (cerca de 31 USD);
  • Moçambique passa do 5.º lugar em percentagem do PIB (6,0%) para o 26.º (cerca de 37 USD);
  • O Lesoto passa do 2.º lugar (7,3% do PIB) para o 16.º (cerca de 67 USD).

Angola financia pouco no sentido de que poderia e porém isto é um argumento politico que deve ter em conta os outros items do OGE dos outros países, Angola tem por exemplo uma despesa com subsídio aos combustíveis e por isto os preços mais baixos de África, por exemplo. Ao nível de referência de 4% do PIB, seriam cerca de 117 USD por habitante. Não financia pouco no sentido de os seus alunos receberem menos do que os da Serra Leoa, da Etiópia ou de Moçambique. São afirmações diferentes, e o público beneficia dessa distinção.

Reconheço as limitações do meu cálculo. Os valores por habitante são estimativas, obtidas multiplicando a percentagem do PIB pelo PIB per capita de 2023. Estão em dólares correntes, sem ajuste ao custo de vida, e referem-se ao gasto por habitante e não por aluno. O indicador de despesa pública da UNESCO mede a despesa executada, e não a dotação inscrita no OGE. Alguns países usam o ano de 2021 ou 2022 por falta de dados de 2023, o que está assinalado nos gráficos.

Sugiro, por isso, duas coisas: que se corrija a referência aos países africanos abaixo de Angola, e que o artigo seja complementado com uma nota sobre a diferença entre esforço (percentagem) e montante (valor por habitante ou por aluno).

Em anexo seguem dois gráficos que comparam, para os mesmos países, a ordenação por percentagem do PIB e por percentagem da despesa pública com a ordenação em dólares por habitante. Tenho todo o gosto em enviar a folha de cálculo e as fontes utilizadas.

Com os melhores cumprimentos,

Roboredo
Blog do Roboredo — roboredo.home.blog | @roboredo1

Langas e Traidores V: A Mentira da Naturalização e os Documentos Falsos

Langas e Traidores: A Mentira da Naturalização e os Documentos Falsos

Os langas e os seus defensores chamam burros aos angolanos que reclamam da imigração ilegal — dizendo que estes não sabem que a Constituição de Angola permite ao estrangeiro adquirir a nacionalidade por naturalização. É uma cortina de fumo. E vou explicar porquê.

O que a Constituição diz — e o que ela não resolve

Sim, a Constituição da República de Angola prevê que a nacionalidade angolana pode ser originária ou adquirida. Os processos de naturalização existem, são publicados em Diário da República e são processos legítimos. Há cidadãos tanzanianos que adquiriram a nacionalidade por casamento, portugueses por naturalização, franceses por casamento. Isso acontece e está documentado.

O problema é o seguinte: o número de processos publicados em Diário da República todos os anos raramente ultrapassa as 5.000 pessoas. E a maioria desses nomes não são de congoleses — são de outras nacionalidades. Esse número é insuficiente para justificar o volume de congoleses com documentos angolanos que circula no país e no exterior.

A diferença entre três tipos de bilhete de identidade

Há uma distinção fundamental que os langas e os seus defensores querem apagar.

Um angolano de origem que nasceu na RDC — por ter pai ou mãe angolana — tem no bilhete de identidade o local de nascimento em Kinshasa ou onde quer que tenha nascido, e consta o nome do progenitor angolano. Isso é normal e legítimo.

Um angolano naturalizado de origem congolesa — ou seja, alguém com pai e mãe congoleses que pediu e obteve a nacionalidade angolana pelo Ministério da Justiça — tem também no bilhete o local de nascimento em Kinshasa, RDC. Porque foi lá que nasceu. A naturalização não apaga o local de nascimento.

O langa — o congolês com documentos angolanos falsos — apresenta um bilhete com nome angolano e local de nascimento dentro de Angola: Quilamba, Quiçama, seja onde for. Mas se é naturalizado, como pode o local de nascimento ser dentro de Angola? A naturalização é, por definição, concedida a um estrangeiro. Um naturalizado nasceu fora. Se o bilhete diz que nasceu em Angola e não há registo de nascimento angolano legítimo, o documento é suspeito.

É exactamente isso que distingue o cidadão legítimo do langa com documentos falsos. E quando os defensores dos langas nos dizem que somos burros por não conhecer a Constituição, estão a atirar areia para os olhos — porque a Constituição não resolve o problema que estamos a apontar.

Os casos americanos — prova documental

Nos Estados Unidos existem vários casos judiciais documentados de congoleses que entraram no país usando passaportes e vistos angolanos falsos. Trago quatro exemplos, com números de processo para quem quiser verificar.

O primeiro caso é o de Anguaz Ngonyoco Lumanico, que entrou nos Estados Unidos usando um passaporte e visto angolanos em nome de Dedry Manuel Lando. O Departamento de Imigração americano determinou que os documentos tinham sido obtidos por fraude e identificou o indivíduo como cidadão da RDC.

O segundo caso é o de Adama Herre Matumona, que fugiu para Angola, obteve um passaporte angolano usando o nome de uma família angolana que o teria supostamente adoptado. O tribunal descreve a adopção da documentação como fraudulenta.

O terceiro caso é o de Richard Filemon Coyo, que entrou nos Estados Unidos utilizando documentação em nome de Ricardo Coyo, declarando Angola como nacionalidade. O processo levanta questões sobre a sua identidade e eventual nacionalidade angolana.

Este problema é real e é suficientemente grave para ter consequências concretas para os angolanos: os Estados Unidos colocaram Angola na lista dos países suspeitos e exigem uma caução de 15.000 dólares para emigração. Quinze mil dólares. Porque o número de congoleses a usar documentos angolanos falsos para entrar nos Estados Unidos é suficientemente grande para pôr em causa o sistema de identificação angolano. O langa deve ao angolano pelo menos 15 milhões de kwanzas — que é o valor aproximado dessa caução — por ter criado este problema.

Os seis factos que nenhum defensor dos langas consegue refutar

Primeiro: os langas têm documentos angolanos como se fossem angolanos de origem, quando deveriam ter documentos de angolanos naturalizados — com local de nascimento na RDC.

Segundo: o número de naturalizações legais em Angola — cerca de 5.000 por ano — é insuficiente para justificar o volume de langas com documentos angolanos.

Terceiro: há milhares de langas presos em Angola por falsificação de documentos. Isto foi dito pelo próprio deputado Manuel Mbalo, da UNITA — o partido que, paradoxalmente, incentiva a imigração ilegal de congoleses em Angola.

Quarto: os processos judiciais nos Estados Unidos de congoleses com documentos angolanos falsos provam que o problema existe e é suficientemente grave para levar governos estrangeiros a pôr em causa o sistema de emissão de documentos em Angola.

Quinto: 35.000 congoleses são expulsos de Angola todos os anos por tentativa de entrada ilegal no território.

Estes factos são mais do suficiente para um angolano ter perguntas legítimas sobre a imigração ilegal e para apoiar a acção do Estado angolano no combate a esse fenómeno.

O método dos langas e dos traidores

O objectivo do discurso dos langas e dos seus defensores angolanos não é esclarecer — é silenciar. Chamam-nos de xenófobos, preconceituosos e ignorantes para nos envergonhar e intimidar, de modo a impedir que o Estado aplique as leis do país. Um deles chegou a dizer que “ser angolano não te leva a lugar nenhum”. Pois bem. Se o nosso país não vale nada, então não venham ao nosso país tirar os nossos documentos.

Angola vencerá.

A Guerra do SINPROF Contra a Educação Privada: Mentiras, Números e uma Proposta Concreta

A Guerra do SINPROF Contra a Educação Privada: Mentiras, Números e uma Proposta Concreta

Hoje vamos falar da guerra do SINPROF contra a educação privada em Angola. E começa com uma mentira.

A mentira dos números

Um tal de Vitorino Puta afirmou que em Angola há mais colégios do que escolas públicas. O jornalista do Correio da Quianda não o corrigiu. Segundo o Anuário Estatístico da Educação 2022–2023, publicado pelo INE, 66% das escolas angolanas são públicas, 27% são privadas e 6% são público-privadas. Num total de 12 mil escolas em Angola: 8 mil são públicas, 3.496 são privadas e 805 são público-privadas. A província de Luanda é a única onde as escolas privadas são maioritárias — 47% dos alunos estudam no privado. Na classe de iniciação, mais de 90% dos alunos matriculados estão no ensino privado. A afirmação de que há mais colégios do que escolas públicas é simplesmente falsa.

A mentira do encerramento de colégios em Luanda

Outro interlocutor no debate afirmou que em Luanda os colégios estão a fechar as portas porque o ensino público está a melhorar. Os números do Ministério da Educação do Luanda, do Programa de Reforço da Utilização de Dados nas Escolas, dizem o contrário: em 2020, Luanda tinha 497 escolas privadas. Em 2024, tem 859. O número quase duplicou. É verdade que em 2024 foram encerradas 62 escolas privadas — por motivos de documentação e qualidade — mas o número total multiplicou-se por dois. As escolas públicas em Luanda passaram de 1.300 para 1.325. Quase não mudaram.

Há mais: em Luanda existem 1.900 escolas privadas onde os alunos estudam à conta do Estado — o Estado paga a propina. É literalmente o contrário da ideia que se quer fazer passar.

Por que o SINPROF está em guerra com o ensino privado

O SINPROF não está numa campanha sindical. Está numa campanha política. A prova está nos números de dias de greve por ano escolar.

De 2010 a 2018 — antes da presidência de João Lourenço — o total de dias de greve não ultrapassou os 30 por ano. A partir de 2020, o número disparou: chegou perto dos 40, depois ultrapassou, e em 2026 vamos ter mais de 70 dias de greve — ou seja, 40% do ano lectivo 2026–2027 consumido por greves.

O que aconteceu em 2020? Abílio Kamalata Numa convidou o SINPROF e outros sindicatos e grupos de activistas para o que chamou o “Discurso da 3.ª Revolução Angolana”, onde lhes deu missão de combater o que chamou de “cidadania indiferente” — ou seja, lutar contra os angolanos que se opõem à mudança política. No caso específico do SINPROF, a missão é destruir a educação de crianças pobres para retirar bem-estar ao poder. As greves fazem parte de um projecto político, não laboral. E há episódios em que professores fazem greve e o MEIA — o Movimento da Esperança e Intervenção Angolana — mobiliza os alunos para participar em manifestações. Uma greve não motivada por razões laborais mas por razões políticas é uma greve ilegal.

O argumento dos impostos — e por que não funciona

Outro argumento que circula nestes debates: pagamos impostos, logo o Estado tem obrigação de garantir a educação dos nossos filhos. Por isso não devemos pagar colégios.

Primeiro, o petróleo constitui mais de 60% das receitas do Estado. O IRT — o imposto pago por pessoas singulares — representa menos de 6% da receita total. A maioria dos angolanos não paga realmente impostos em termos líquidos. Pelo contrário, a maioria recebe benefícios públicos na forma de subsídio aos combustíveis e serviços públicos. O Estado gasta aproximadamente o dobro com subsídio aos combustíveis do que com a educação. Então, quem paga o colégio e beneficia do subsídio aos combustíveis praticamente equilibra a conta.

O argumento de “pago impostos, logo o Estado deve educar o meu filho” é incoerente por outro motivo: quem não tem filhos paga impostos para garantir a educação de quem? Quem tem filhos que já concluíram o ensino superior continua a pagar impostos para garantir o ensino de quem? Os netos têm pai — e o pai deve estar a contribuir. É um sistema de vaquinha permanente onde não se sabe quem pode ou não pode pagar. Organizaríamos uma vaquinha familiar para pagar o aniversário de cada membro ao longo do ano? A desordem seria evidente.

Dito isto, reconheço que há injustiça para quem paga efectivamente IRT de valor significativo — acima de 500 ou 800 mil kwanzas mensais — e ainda financia o ensino público via impostos sem o utilizar.

Uma proposta concreta

Em 2023, o Ministério da Educação gastou 947 mil milhões de kwanzas para educar 8 milhões de alunos — cerca de 9 mil kwanzas por aluno por mês. Em 2025, o orçamento subiu para 2,2 biliões de kwanzas para 7,2 milhões de alunos — cerca de 26 mil kwanzas por aluno por mês. Com 26 mil kwanzas é possível ter um colégio de qualidade aceitável em Luanda. Nas províncias — Sumbe, Ndalatando, Dondo — seria provavelmente de excelente qualidade.

Proposta: todo o encarregado de educação que tenha filho matriculado num colégio privado e que pague IRT acima de determinado limiar — os economistas que encontrem o número adequado — deve receber de volta do Estado o valor correspondente ao custo por aluno no Ministério da Educação. Esse valor deve ser descontado não do ministério em abstracto, mas das escolas públicas da zona onde o encarregado vive — para que essas escolas saibam que os pais da zona não confiam na sua qualidade e preferem pagar para garantir uma educação alternativa para os seus filhos.

Sobre ministros e deputados donos de colégios

Uma das calúnias que circula é que ministros e deputados são donos de colégios, o que criaria um conflito de interesses que explica a proliferação do ensino privado. O caso da ex-ministra da Educação Luísa Grilo é exemplar da desonestidade deste argumento: as manchetes diziam “ministra da Educação é sócia de um colégio”. A realidade é que ela era sócia do colégio desde 2012 e foi nomeada ministra em 2020. A frase correcta seria “sócia de colégio nomeada ministra da Educação” — não o contrário. Ela não criou o colégio a saber que seria ministra oito anos mais tarde.

Aliás, há um argumento positivo para que membros da classe política tenham os seus próprios negócios: impede que a sua sobrevivência financeira dependa inteiramente do mandato político. A deputada Miaela Weba publicou no Facebook que ganhava 1.300.000 kwanzas e que não conseguia ter casa própria com esse salário — e pediu aumento para os deputados, que o votaram a seu próprio favor, com um ajuste de 40%. O deputado Macunta Condo, depois de a sua coligação perder mandatos, lamentava-se publicamente de que a única coisa que tinha era o carro. Um deputado do MPLA escreveu que após 24 anos como deputado recebia apenas 200 mil kwanzas de pensão de reforma e não sabia o que fazer da vida.

Pessoas que, ao perderem o mandato, não sabem o que fazer da vida, vão querer agarrar-se ao lugar como a uma bóia. Vão corromper para manter o lugar. São essas as pessoas que queremos como líderes políticos? Não há nada de errado que um servidor público tenha o seu negócio, desde que o negócio foi constituído com rendimentos legítimos.

Angola vencerá.

O Acórdão do Tribunal Constitucional sobre Eugénio Carneiro: Ordens Superiores da UNITA?

O Acórdão do Tribunal Constitucional sobre Eugénio Carneiro: Ordens Superiores da UNITA?

Estava a ler o acórdão do Tribunal Constitucional sobre a candidatura de Eugénio Carneiro à presidência do MPLA e encontrei algumas coisas interessantes. A primeira é que os advogados do MPLA estão de brincadeira — no bom sentido. Deram uma chapada sem mão aos advogados de Eugénio Carneiro, especialmente ao Sérgio Raimundo, por ser o mais famoso, tentando atirar abaixo o processo interno com um argumento sobre a denominação do partido: os advogados de Eugénio Carneiro identificaram o queixoso como estando em conflito com o “Movimento Popular de Libertação de Angola” quando o partido se chama oficialmente MPLA. O tribunal achou piada e disse que isso não era motivo suficiente para arquivar o processo. Acertou.

O que o Tribunal decidiu — e porquê

O argumento principal de Eugénio Carneiro é que haverá uma demora se o seu processo passar pelos mecanismos normais do MPLA. O MPLA, por sua vez, alega que Eugénio Carneiro não tem o direito de ir directamente ao Tribunal Constitucional quando não esgotou os mecanismos internos do partido — período de reclamação e procedimentos similares — e que há tempo suficiente até ao Congresso para exercer esses direitos.

O Tribunal concorda com o MPLA neste ponto. Alega também que não tem o direito de intervir excessivamente na vida interna dos partidos políticos, por força do princípio da intervenção mínima. A decisão da maioria foi clara: a providência cautelar de suspensão da deliberação da subcomissão de candidaturas do MPLA é improcedente. Eugénio Carneiro tem de recorrer às instâncias do próprio partido e, se dentro do partido não houver solução, ainda terá tempo de recorrer ao Tribunal.

A crítica técnica a esta decisão é legítima: a maioria elevou o padrão do “dano apreciável” — que o artigo 396.º do CPC exige apenas que seja “visível e estimável” — para um critério muito mais exigente: “perecimento do direito”, “irreversibilidade”, dano “irreparável ou de difícil reparação”. Esse é o padrão do procedimento cautelar comum, que a maioria diz aplicar apenas subsidiariamente. A aritmética temporal também assenta numa premissa discutível: soma 8 dias de reclamação e 45 de recurso e conclui que cabem antes do Congresso — mas esses são prazos para o militante agir, não para o órgão partidário decidir. E o próprio acórdão reconhece que, a 7 de Setembro, a reclamação ainda não tinha decisão.

A dissidência da juíza indicada pela UNITA — e as suas incoerências

Aqui começa o que é verdadeiramente interessante. Há uma juíza indicada pela UNITA — coisa curiosa num país que alguns dizem ser uma ditadura — que votou contra a maioria e a favor de Eugénio Carneiro. Só que o voto dela é incoerente. Muito incoerente.

Primeiro erro: a dissidência afirma que o acórdão reconheceu estar preenchido o requisito do fumus boni iuris — a aparência de ilegalidade da deliberação impugnada. Não reconheceu. A maioria apenas deu por verificada a qualidade de sócio de Eugénio Carneiro e escreveu expressamente que essa verificação “não se confunde com a probabilidade séria de a deliberação impugnada ser contrária à lei ou aos estatutos”. A juíza parece ter lido a frase sobre a titularidade dos direitos estatutários como um juízo sobre o fumus. Todo o voto parte deste erro de leitura.

Segundo erro: quando a maioria diz que ainda restam meses suficientes para Eugénio exercer os seus direitos dentro das estruturas do partido, a juíza discorda — mas em vez de provar como é que haverá demora e como essa demora pode danificar concretamente o candidato, inventa uma hipótese que o próprio Eugénio Carneiro não alegou: que mesmo que o Congresso fosse em 2027, as demoras dos processos em Angola causariam dano. E a seguir argumenta que a providência cautelar deve ser aprovada porque cada dia com a candidatura suspensa é um dia em que Eugénio não pode fazer campanha.

O problema é que Eugénio Carneiro e os seus advogados nunca alegaram essa perda de tempo de campanha. A juíza criou um argumento que o requerente não fez. Isto colide com o princípio do dispositivo, mesmo em cognição sumária. E ainda que o argumento fosse válido em abstracto, é discutível que dias de campanha interna no MPLA façam diferença significativa sobre a opinião que os militantes têm de Eugénio Carneiro. Quem o conhece já tem uma opinião formada.

Terceiro erro: a juíza usa argumentos sobre a alegada ilegalidade da deliberação para tentar demonstrar o perigo de demora — são categorias distintas que não se substituem uma à outra. E aceita o padrão de dano elevado da maioria — “dificilmente reparável” — em vez de atacar esse padrão pela raiz, invocando o artigo 396.º do CPC, que apenas exige dano “apreciável”. O seu melhor argumento — “um direito exercido fora do tempo converte-se num direito inútil” — é exactamente a formulação da tutela jurisdicional em tempo útil prevista no artigo 29.º da Constituição da República de Angola, que nunca cita.

Em síntese: a dissidência fala de um acórdão diferente do que foi escrito, não enfrenta os pontos concretos da maioria, e introduz factos e argumentos que não constam do processo. É como se Eugénio Carneiro, o MPLA e o Tribunal estivessem a discutir um assunto e esta juíza estivesse a falar de outro qualquer que lhe passou pela cabeça.

A pergunta que fica

Normalmente, quando as opiniões judiciais são incoerentes, isso aponta para interferência política. Quando há interferência política num sistema judiciário, o juiz tem de inventar qualquer justificação para o seu voto — mesmo que não faça sentido jurídico — porque o objectivo é criar um facto político, não uma fundamentação jurídica coerente.

Há duas hipóteses. A primeira: a juíza tem um preconceito institucional — o MPLA é o MPLA e ela foi indicada pela UNITA — e isso bastou para votar contra. A segunda: a juíza teve contacto com dirigentes da UNITA e recebeu indicações para votar desta forma.

São suposições. Não há prova. Mas a incoerência do voto é real, salta à vista numa primeira leitura, e qualquer pessoa versada em direito constitucional que leia a opinião da maioria e a dissidência lado a lado chegará à mesma conclusão. Quem tiver competência para verificar os contactos e o teor das comunicações que o faça. E quem não quiser verificar — como acontece frequentemente em Angola — só se assustará depois, quando já for tarde.

Angola vencerá.

A Reciprocidade entre Adalberto Costa Júnior e Eugénio Carneiro: Amizade entre Bongo e Candongueiro

A Reciprocidade entre Adalberto Costa Júnior e Eugénio Carneiro: Amizade entre Bongo e Candongueiro

A reciprocidade entre Adalberto Costa Júnior e Eugénio Carneiro parece aquela amizade entre bongo e candongueiro — aquela amizade que quase sempre acaba em corrupção. Não consigo perceber como pode existir reconciliação e reciprocidade entre quem faz acusações de corrupção e quem é acusado de corrupção. E os factos documentados tornam esta questão ainda mais pertinente.

O historial de acusações entre os dois

Em 2016, Adalberto Costa Júnior, enquanto presidente da bancada parlamentar da UNITA, acusou o governo e o Ministério das Obras Públicas de terem desviado verbas internacionais destinadas à construção e reparação de estradas. Eugénio Carneiro, que já não era ministro das Obras Públicas mas governador da cidade de Luanda, sentiu-se afectado o suficiente para se defender na Rádio Nacional de Angola — dizendo que o ACJ tinha fugido de Angola há muito tempo, que não conhecia o país, que não sabia de obras públicas e que era, aliás, um sabotador que trabalhava contra Angola quando se pedia investimento em Itália. A fonte é a Rede Angola.

Em 2018, Eugénio Carneiro foi alvo de um relatório do IGAI que denunciava irregularidades na ordem de 115 milhões de dólares durante o seu mandato como ministro das Obras Públicas — confirmando, mais ou menos, as suspeitas levantadas pelo ACJ, embora o ACJ tivesse exagerado ao falar em mil milhões. O Higino Carneiro respondeu que não tinha tempo para responder às acusações. Vários activistas pediram que o caso fosse investigado para pôr fim à impunidade no governo de Angola. A fonte é o Angola 24 Horas.

Em 2019, o ACJ acusou a TPA e a TVS de manipulação — alegando que tinham pegado nas suas palavras de denúncia contra Eugénio Carneiro e as tinham transformado em palavras de apoio e defesa ao Eugénio Carneiro. O ACJ declarou: “Como é que eu vou defender o Eugénio se o relatório do Grupo Parlamentar da UNITA, do qual sou presidente, implica o Eugénio como uma das pessoas que participou no desvio de mais de dez anos de orçamento destinado à reparação e construção de estradas em Angola?” Este vídeo pode ser encontrado na página de Facebook do próprio ACJ.

Em 2022, durante a campanha eleitoral, o ACJ reclamou de novo da qualidade das estradas de Angola, afirmando que nos 13 anos que incluem o mandato do Eugénio Carneiro como ministro das Obras Públicas se gastaram mais de 30 mil milhões de dólares — e que mais de metade desse valor foi para o bolso dos marimbondos.

Em 2024, Eugénio Carneiro disse que os dirigentes do MPLA desviaram o dinheiro das estradas — mas estranhamente, já não cita o nome de ninguém. Também em 2024, o ACJ disse que o mau estado das estradas em Angola é um crime.

O que a reciprocidade significa na prática

Então o que temos? O ACJ fez a denúncia, qualificou o acto como crime, citou o nome de um dos suspeitos — que é o próprio Higino Carneiro — e depois esteve em frente desse suspeito e deu-lhe a mão. E segundo o Samusuko, isso é um exemplo de reciprocidade que faz parte do pacto que a UNITA defende.

No pacto da UNITA, a reciprocidade é trocar a impunidade pelo poder. A reconciliação é feita entre quem acusa os dirigentes de corrupção e os dirigentes que são acusados de corrupção — e isso sem investigação, sem julgamento, sem prestação de contas.

As perguntas que ficam sem resposta

Ficam várias perguntas no ar que merecem resposta:

Devemos ter reconciliação entre quem faz acusações de corrupção e quem é acusado de corrupção?

As acusações que o ACJ fez eram falsas? Se eram falsas, que outras acusações feitas pelo ACJ foram igualmente falsas?

Se as acusações eram verdadeiras, quem dá ao presidente da UNITA o poder de perdoar alguém por um crime que não foi sequer julgado?

E se o crime não foi julgado e o presidente perdoa, não é isso um atentado à separação de poderes?

Angola vencerá.

O Deputado da UNITA Não Disse a Verdade: A Sequência Real dos Eventos de 1974-1975

O Deputado da UNITA Não Disse a Verdade: A Sequência Real dos Eventos de 1974-1975

O deputado da UNITA não disse a verdade. Os factos sobre a intolerância política de 1975 existem — estão documentados e podem ser consultados. Mas os factos completos contradizem a narrativa que ele apresentou.

O argumento que circula — e o que os factos mostram

Diz-se que em 1975 deviam existir eleições e que o MPLA expulsou a UNITA e a FNLA de Luanda, o que seria prova de intolerância. É um facto histórico parcial. O que não se diz é o que aconteceu antes — e é essa omissão que transforma um facto verdadeiro numa mentira.

O que aconteceu depois do golpe de 25 de Abril de 1974

Logo após o golpe militar em Portugal que pôs fim ao governo do Estado Novo, as novas autoridades portuguesas anunciaram a intenção de conceder independência às suas colónias e negociar um cessar-fogo. A FNLA não esperou.

No dia 29 de Abril de 1974 — quatro dias depois do golpe — instrutores chineses chegaram ao Zaire, actual República Democrática do Congo, para treinar militares da FNLA no campo do Kinkuzu. Em Julho de 1974, a CIA iniciou um programa de financiamento ilegal à FNLA — ilegal porque feito sem autorização do Congresso ou do governo americano. Em Agosto de 1974, o Partido Comunista da Roménia entregou armamento à FNLA em Kinshasa, facto confirmado em conferência de imprensa pelas próprias autoridades zairenses.

Com este apoio, a FNLA instalou-se no norte de Angola e começou a hostilizar o MPLA — no norte e na própria cidade de Luanda. Os primeiros combates entre os três movimentos aconteceram no dia 10 de Novembro de 1974. Foi em consequência desses combates que a Organização da Unidade Africana convocou os três movimentos para uma conferência na Tanzânia, o Acordo de Nakuru, e posteriormente para a Conferência de Alvor.

O Acordo de Alvor e a sua violação imediata

No dia 15 de Janeiro de 1975, os três movimentos e o governo português assinaram o Acordo de Alvor, que estabelecia um governo de transição e eleições em Outubro de 1975. Sete dias depois — dia 22 de Janeiro de 1975 — a CIA entregou 300 mil dólares à FNLA de Holden Roberto. Houve também uma proposta para entregar 100 mil dólares à UNITA de Savimbi, que não foi aprovada nessa data pelo governo americano mas foi entregue posteriormente.

Ou seja: se a acusação é que o MPLA traiu o Acordo de Alvor, o facto é que a FNLA recebeu ajuda americana sete dias após a sua assinatura. A UNITA, pelo menos, teve uma proposta — o que significa que ambos os movimentos estavam integrados no esforço americano contra o MPLA desde o primeiro momento.

Houve ainda a conferência da Ilha do Sal, entre Spínola, Kissinger e Mobutu, para coordenar os esforços americanos e israelenses contra o MPLA. Em reacção a essa ajuda militar e financeira, a União Soviética começou a dar apoio ao MPLA a partir de Março de 1975. Quem o confirma é o próprio John Stockwell, chefe da CIA em Kinshasa, responsável por coordenar o esforço americano.

De Janeiro a Julho de 1975, a CIA entregou mais de 50 milhões de dólares à FNLA e à UNITA.

A ofensiva da FNLA no norte e os confrontos em Luanda

No dia 19 de Abril de 1975, na cidade de Carmona — actual Uíge — uma manifestação não autorizada resultou numa rixa e troca de tiros entre elementos da FNLA e elementos do MPLA. Uma companhia de cavalaria portuguesa, o BCV 8423, comandada pelo Alferes Miliciano Menezes, interveio, prendeu os elementos de ambos os movimentos envolvidos nos desacatos e dispersou a manifestação. Este tipo de incidente era comum no norte de Angola naquela altura.

No dia 28 de Abril de 1975, a FNLA iniciou uma ofensiva no norte de Angola para expulsar o MPLA. Entre Abril e finais de Junho, o MPLA foi praticamente expulso das actuais províncias do Uíge e do Zaire. O próprio Ngola Kabango, então porta-voz da FNLA, confirmou a operação militar levada a cabo pelo seu partido para expulsar o MPLA do norte.

Foi apenas em Julho de 1975, perante os ataques constantes da FNLA no norte e as provocações dentro de Luanda — incluindo um ataque com granada contra a delegação do MPLA na Vila Alice durante uma visita de Lúcio Lara — que o MPLA iniciou combates contra a FNLA em Luanda. Após uma semana de combates, a FNLA foi expulsa da cidade. Catorze dos dezassete comités da FNLA em Luanda foram destruídos.

No dia 28 de Agosto de 1975, perante a impossibilidade de cooperação entre os movimentos, o governo português suspendeu o Acordo de Alvor.

A sequência completa — para que não haja dúvidas

A narrativa de que o MPLA violou os Acordos de Alvor ignora deliberadamente a seguinte cronologia:

Imediatamente após o golpe de Abril de 1974, a FNLA recebeu ajuda americana e começou a hostilizar o MPLA no norte e em Luanda. Os primeiros combates aconteceram em Novembro de 1974. O Acordo de Alvor foi assinado em 15 de Janeiro de 1975. Sete dias depois, a FNLA recebeu mais 300 mil dólares americanos. De Janeiro a Julho, a CIA entregou mais de 50 milhões de dólares à FNLA e à UNITA. Em Abril de 1975, confrontos violentos em Carmona. De Abril a Junho, ofensiva da FNLA no norte para expulsar o MPLA. Apenas em Julho o MPLA expulsou a FNLA de Luanda. Em Agosto, Portugal suspendeu o Acordo de Alvor.

Desde o momento em que a FNLA recebeu ajuda americana e lançou a ofensiva contra o MPLA no norte de Angola, o Acordo de Alvor cessou de existir na prática. A expulsão da FNLA de Luanda foi uma reacção a provocações que começaram, no mínimo, em Novembro de 1974.

Para dizer a mentira, basta uma frase. Para desmentir a mentira, são precisos sete minutos. Mas é essencial que a história seja contada de forma verídica — especialmente quando é utilizada para tirar conclusões políticas no presente.

Fontes:
— John Stockwell, In Search of Enemies (chefe da CIA em Kinshasa, coordenou a ajuda militar americana à FNLA e à UNITA)
— George Wright, The Destruction of a Nation
— Martin James, A Political History of the Civil War in Angola
— Blog Cavaleiros do Norte (história do BCV 8423, unidade militar portuguesa no norte de Angola)

Angola vencerá.

Os Musseques Que a UNITA Criticou Depois de os Ter Criado

Os Musseques Que a UNITA Criticou Depois de os Ter Criado

O deputado da UNITA Nelito Ekuikui está a passar pela cidade de Luanda para mostrar os becos da cidade. Só que ele não diz aos mais jovens que esses becos existem por causa da UNITA. Antes de 1990, a maioria dos angolanos vivia na zona rural — no campo, nas províncias, como gostam de dizer. Segundo dados da Organização das Nações Unidas, em 1990, 37% dos angolanos viviam nas cidades e 62% no campo, na zona rural.

Uma estratégia de guerra: encher as cidades de refugiados

Nesse mesmo ano, a UNITA, no quadro das suas operações militares para a conquista do poder pelas armas, decidiu duas coisas. Primeiro, fez uma campanha de terror para empurrar as pessoas para dentro das cidades; segundo, nas suas negociações nos diferentes acordos, insistia para que houvesse, entre aspas, uma “livre circulação”. O objectivo era usar o fluxo de refugiados para dentro das cidades para infiltrar os seus soldados e, ao mesmo tempo, criar uma crise humanitária capaz de levar ao colapso do governo de Angola. Ou seja: a fome que hoje a UNITA diz que existe é a mesma arma que utilizou no passado para conquistar o poder — e desde os primeiros momentos.

Os números que confirmam o êxodo — Luanda, Kinaxixi e além

Tenho aqui uma notícia do Los Angeles Times, de 1993, que explica como centenas de milhares de angolanos entraram e se refugiaram na cidade de Luanda, ocupando vários edifícios — por exemplo, o edifício do Kinaxixi, que na altura era apenas placas e pilares. Os residentes chegaram a construir 50 apartamentos com blocos apanhados por ali. A notícia diz ainda que a situação em Luanda se deteriorou de forma grave desde Outubro de 1992, depois de a UNITA perder uma eleição supervisionada pelas Nações Unidas e as suas tropas atacarem o país, ocupando mais de 75% do território: a cidade de dois milhões e meio de habitantes que é Luanda ficou abarrotada de refugiados e de mutilados, vítimas de minas terrestres. Isto em 1993.

Em 1998, uma notícia do Washington Post confirma a mesma tendência: milhares de pessoas fugindo para as cidades para escapar da UNITA. Uma notícia de 1999, do Mail & Guardian, jornal sul-africano, diz que 1,5 milhões de angolanos — mais de 10% da população — fugiram para as cidades. E uma notícia da Politics Angola, intitulada “Milhões Fugidos e Esquecidos”, descreve milhões de pessoas a abandonar casas, terrenos e a vida que tinham construído no campo para se refugiarem nas cidades: Lubango, Luanda, Kuito. É por conta dessa fuga que todas as cidades de Angola ganharam estes musseques que agora o deputado da UNITA começa a criticar — e isto prolongou-se até 2001, como mostra uma notícia de Agosto desse ano. Ainda em 2001, já quase no final da guerra, dezenas de milhares de pessoas continuavam a fugir das zonas da UNITA para se refugiarem nas cidades.

Voltando à notícia original: que hoje o deputado da UNITA venha criticar a existência de becos e musseques em Angola é como um polícia que de noite assalta as pessoas mascarado e, pelo menos nesse caso, está mascarado pelo esquecimento — e de dia aparece vestido de autoridade para investigar o crime que ele próprio cometeu. É essa a situação que vivemos: estamos a ter opiniões políticas e críticas com base em factos históricos que estamos a esquecer. E não são factos de longe — são factos de 24 anos atrás.

Não se pode ter amnésia histórica de 24 anos

Para os jovens que vão dizer que já passaram mais de 24 anos e que, por isso, a guerra já não é um factor, é importante terem isto em conta: é mais fácil destruir do que construir. Há quem, entre vocês, ache que Angola tem de ter novamente uma guerra — pois fica aqui uma lição: ainda não acabámos de corrigir os efeitos da guerra passada, e já há quem queira outra guerra em Angola.

Que Deus vos abençoe. Angola vencerá.