Nota: Publico aqui pois o email do Poligrafo não chegou ao destinatário.
Assunto: Fact-check sobre o financiamento da educação em Angola (3 de Outubro) — pedido de contextualização e de correcção
Exmos. Senhores da equipa do Polígrafo África,
Exmo. Sr. Jorge Mendes Batalha,
Li com interesse o fact-check publicado a 3 de Outubro de 2026 sobre a afirmação de Lukanu Sebastião de que Angola está entre os países que menos financiam a educação.
Não contesto a classificação de «Verdadeiro» no que toca ao esforço financeiro. Com cerca de 2,5% do PIB e uma fatia da despesa pública bem abaixo dos 15%, Angola está de facto longe das referências da Declaração de Incheon. Gostaria, no entanto, de assinalar dois pontos: um erro factual e uma distinção que o artigo não faz.
1. A ordenação africana
O artigo refere que, em África, Angola só fica acima das Comores (2,34%) e do Zimbabwe (0,38%). Na própria ordenação africana do TheGlobalEconomy para 2023, a fonte citada no artigo, Angola surge em 30.º lugar entre 38 países. Abaixo dela aparecem, além das Comores e do Zimbabwe, o Gabão, a Libéria, a Guiné (1,72%), a Nigéria (0,32%) e a Somália. Acrescento que o valor de 0,38% do Zimbabwe coincide com a forte instabilidade cambial do país em 2023 e talvez mereça confirmação.
2. Esforço não é montante
A percentagem do PIB ou do orçamento mede a prioridade que um país dá à educação, não o montante que efectivamente gasta. Ao apresentar a Serra Leoa (30%), a Etiópia e o Senegal como contraponto, o artigo deixa ao leitor a ideia de que esses países investem mais na educação do que Angola. Isso não se confirma quando a despesa é medida em dólares por habitante.


Comparei 40 países africanos com dados do Banco Mundial e da UNESCO para 2023. Incluí os países citados no vosso artigo e os de um gráfico semelhante exibido na TV Zimbo em 2018:
- Angola é 33.ª em percentagem do PIB (2,5%) e 34.ª em percentagem da despesa pública (7,7%), mas 14.ª em dólares por habitante (cerca de 73 USD);
- A Serra Leoa é 1.ª em percentagem da despesa pública (29,4% em 2022), mas apenas 32.ª em dólares por habitante (cerca de 20 USD);
- A Etiópia passa do 12.º lugar (18,3% da despesa pública) para o 26.º (cerca de 31 USD);
- Moçambique passa do 5.º lugar em percentagem do PIB (6,0%) para o 26.º (cerca de 37 USD);
- O Lesoto passa do 2.º lugar (7,3% do PIB) para o 16.º (cerca de 67 USD).
Angola financia pouco no sentido de que poderia e porém isto é um argumento politico que deve ter em conta os outros items do OGE dos outros países, Angola tem por exemplo uma despesa com subsídio aos combustíveis e por isto os preços mais baixos de África, por exemplo. Ao nível de referência de 4% do PIB, seriam cerca de 117 USD por habitante. Não financia pouco no sentido de os seus alunos receberem menos do que os da Serra Leoa, da Etiópia ou de Moçambique. São afirmações diferentes, e o público beneficia dessa distinção.
Reconheço as limitações do meu cálculo. Os valores por habitante são estimativas, obtidas multiplicando a percentagem do PIB pelo PIB per capita de 2023. Estão em dólares correntes, sem ajuste ao custo de vida, e referem-se ao gasto por habitante e não por aluno. O indicador de despesa pública da UNESCO mede a despesa executada, e não a dotação inscrita no OGE. Alguns países usam o ano de 2021 ou 2022 por falta de dados de 2023, o que está assinalado nos gráficos.
Sugiro, por isso, duas coisas: que se corrija a referência aos países africanos abaixo de Angola, e que o artigo seja complementado com uma nota sobre a diferença entre esforço (percentagem) e montante (valor por habitante ou por aluno).
Em anexo seguem dois gráficos que comparam, para os mesmos países, a ordenação por percentagem do PIB e por percentagem da despesa pública com a ordenação em dólares por habitante. Tenho todo o gosto em enviar a folha de cálculo e as fontes utilizadas.
Com os melhores cumprimentos,
Roboredo
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