Angola Road Trip 2025
Fazendo o que me diziam ser impossível: turismo pelas estradas que supostamente não existem
📍 O Percurso
- Luanda → Uíge (Uaco Cungo) – 8 horas
- Uaco Cungo → Cuito – 4 horas (264 km)
- Cuito → Huambo – 3.5 horas
- Huambo → Lubango – Via Caconda (com desafios)
- Lubango → Namibe – Descida da Serra da Leba
- Namibe → Benguela – Através do deserto
Luanda → Uaco Cungo: O Começo
O primeiro troço de Luanda para o Uaco foi feito em 8 horas, com a pior parte do troço por volta de Catete, porém já tem obras em curso e está muito melhor que o ano passado. A estrada foi de excelente qualidade e o número de buracos que não poderia evitar era baixo.

Infelizmente tinha de cumprir agenda no Cuito, sendo que foi impossível explorar o Kwanza Sul, porém deu para visitar uma “pedrinha” impressionante. Os habitantes dizem que foi escalada por Americanos e que um antepassado conseguiu subir sem conseguir descer.
A “pedrinha” do Kwanza Sul – quase 500 metros de rocha nua
Descobertas no Uaco Cungo
No Uaco Cungo, Agostinho Neto foi escondido dentro do edifício da administração, em vez de estar no pedestal no parque. Seria fácil ver nesse fato uma rejeição ao Partido e à sua figura; porém, parece-me mais uma vitória do caos sobre a ordem, com um toque de vandalismo gratuito.
Parque vasto e sem iluminação, herdado de um tempo em que se valorizavam esses espaços e o conceito de arte pública. Agora, sem policiamento ostensivo, o fundador se esconde de sua própria criatura.
Parque do Uaco Cungo: arte pública esquecida
Foi irónico ver esta loja da Movicel ao lado de um telefone fixo da Angola-Telecom. O colapso da empresa foi tão rápido que ainda há telefones dentro da loja, sem qualquer valor.
Cuito: História e Contradições
Deixamos o Uaco e chegamos no Cuito no mesmo dia. Se tivéssemos partido de Luanda às 6 horas, teríamos chegado no mesmo dia antes do anoitecer.
A História Ridícula de Silva Porto
No Cuito encontrei a história ridícula da estátua de Silva Porto, fundador da Cidade, comerciante, explorador e herói trágico, que foi substituída pela estátua de um rei africano declaradamente escravagista, até mesmo no folclore local.
A ironia histórica: A cidade antes nomeada em homenagem a seu fundador, passou a se chamar “Cuito”, o rio onde os soldados haviam sido amarrados, denominado de Kwitu, significando kwi (fortemente) e tu (todos), por Ekuikui I em suas guerras contra os Portugueses.
A estátua de Silva Porto foi removida em 1975 e colocada no local de sua antiga residência. Uns anos atrás, roubaram o braço… pouco depois a estátua inteira de bronze desapareceu, provavelmente vendida a sucateiros e fundida. Assim se perde e destrói a história.
Pilar que marca o local da casa de Silva Porto
Jardim da “Pouca Vergonha”
Depois visitamos o Jardim da “Pouca vergonha”, onde duas estátuas de Bronze, representando mulheres nuas, uma Europeia e outra Africana, foram erguidas depois dos anos 60. Haveria possivelmente uma terceira estátua perdida.
O Jardim da “Pouca Vergonha” no Cuito
O Valor Dado à Educação
A biblioteca municipal do Cuito, destruída durante a guerra, continua em ruínas, enquanto a universidade de 4 andares que Zé Du mandou construir ficou apenas no papel, desviada pelo governo local, e o presidente ficou a saber no dia do corte de fita…
Biblioteca municipal: o valor que damos à educação
Memorial da Batalha do Cuito
Este sino foi a única coisa que restou da Catedral da Cidade de Silva Porto, pois Jonas Savimbi mandou destruir a mesma durante a batalha do Cuito. A Igreja Católica passou a ter as missas no Cine, tendo em fase de conclusão uma nova catedral arquitetonicamente infiel.
O sino: único vestígio da catedral original
A próxima paragem foi o Memorial da Batalha do Cuito, onde a cidade resistiu por 9 meses, enquanto o Huambo caiu em menos de 2, antes de um contra-ataque das FAA que destruiu as forças da UNITA. Savimbi, em represália pelo fracasso, executou seu próprio sobrinho, General Bock.
Curiosidade: Nem tudo foi amargura, pois esta cidade fundada por um Português apoiado por Angolanos cansados do despotismo de seus sobas, tem como restaurante e discoteca de referência o “OPUTU”, de Mwene Putu, o rei de Portugal. Visitem com cuidado e evitem se apaixonar…
Camacupa e o Centro Geodésico
Próxima paragem foi Camacupa, a caminho do centro geodésico de Angola, uma vila que ainda tem o edifício do BNA demolido pela guerra e uma bomba de gasolina das antigas esperando pelos devoradores de ferro velho.
Camacupa: vestígios de outro tempo
O Centro Geodésico de Angola foi descoberto por uma expedição financiada pela Igreja Católica, marcado com uma estátua de Cristo Rei. Durante a guerra civil, a estátua foi metralhada e posteriormente substituída por uma cópia infiel. Casa do guarda e o WC encontram-se vandalizados.
Cristo Rei no Centro Geodésico: cicatrizes de guerra
Huambo: Cidade das Musas Perdidas
A viagem do Cuito para o Huambo durou pouco menos de 3.5 horas, com algumas paragens para ver os megalitos que lembram o Uaco Cungo. Aqui as motas de 3 rodas cumprem seu papel de meio de transporte rural e o número de toyotas antigos diminui.
Megalitos pelo caminho: Angola para além do asfalto
No Huambo, ninguém conseguiu me explicar onde estavam as estátuas de Norton de Matos e suas Musas… temo que foram fundidas. Me consolei com uma visita ao museu onde encontrei bustos.
Museu do Huambo: guardião da memória
Um tanque dentro do qual cresceu uma árvore… a natureza sempre reclama o que é seu.
A Tempestade e o Caminho para o Lubango
Huambo para o Lubango foi o primeiro percurso realmente difícil, por ter escolhido o caminho direto pela Caconda que me levou por uma via de terra batida entre Cuíma e Cuisse, porém já tinha trabalhos na via, que tinha parte do trajeto pronto para ser asfaltado.
O momento mais crítico: Os problemas realmente iniciaram depois da Caconda, quando uma tempestade engoliu o asfalto. Nada se via a mais de 3 metros e o asfalto tinha aqueles buracos aleatórios. Por sorte chegei ao Caluquembe e passei a noite em um simpático hotel de 2 estrelas.
Lubango: A Pérola do Sul
A estrada do Caluquembe ao Lubango foi perfeita, tirando alguns quilômetros desviados ao chegar à cidade por motivos de obra e o musseque inicial com trânsito lento. O centro histórico e nobre da cidade tinha um trânsito fluido e era mais lindo que Huambo e Cuito.
Lubango: elegância no planalto
Visitei o museu do Lubango, que tem uma vasta coleção de objetos Africanos, porém peca por não ter quase que nenhum objeto Português, como o do Huambo, porém tem estátuas monumentais e bustos. Aqui o Agostinho Neto está a salvo em público.
Uma Observação sobre os Mendigos
Os mendigos do Lubango parecem ser outra espécie… Exibem uma teatralidade que beira o ridículo. Traje exagerado e a sujeira que parece maquiagem, só enganam quem quer ser enganado. O desejo do angolano de ser um bom samaritano, aliado à vontade de acreditar que o país vai mal, acaba por perpetuar a farsa.
Serra da Leba: O Ícone
Ao sair do Lubango, tive um encontro com mais um mendigo no miradouro da Serra da Leba. Seu truque consiste em dançar no meio da estrada, forçando os motoristas a parar e, assim, sentir-se obrigados a lhe dar algum dinheiro.
Serra da Leba: nervos à flor da pele e vistas de cortar a respiração
Descer a Serra da Leba foi nas calmas e com os nervos à flor da pele. As poucas fotos que tirei foram depois de parar o carro em uma zona segura sem atrapalhar o trânsito.
Vi um burro pela primeira vez na vida e um Ucraniano pintou a bandeira de seu país na montanha…
Namibe: O Deserto e o Oásis
O percurso do Lubango a Moçâmedes foi em uma pista perfeita, permitindo 120 km/h em retas, porém deve-se ter cuidado com o gado que às vezes atravessa a estrada. Tenha sempre consigo água, alguma comida e todos os acessórios do carro – estas em um deserto.
Deserto do Namibe: beleza selvagem
Farol do Sacomar
Visitei o farol do Sacomar, uma imponente estrutura de 20 metros de altura que está infelizmente em ruínas e em risco iminente de desmoronamento.
Farol do Sacomar: sentinela em ruínas
Oásis do Curoca
Depois visitamos o oásis do Curoca, para ver a lagoa dos Arcos, uma alegria para quem percebe de geologia e um lugar mágico. O caminho de deserto é traiçoeiro e recomenda-se ter água e comida extra, GPS e tanque de gasolina cheio. Os habitantes são simpáticos – ofereci vinho.
Lagoa dos Arcos no Curoca: magia no deserto
Hotel Moçâmedes
Me hospedei no hotel Moçâmedes, que é luxo com estilo e logo na marginal. As outras opções são mais caras e menos convenientes. Pertencente aos magnatas das pedras ornamentais Silva&Silva, tudo que poderia ser feito de madeira é feito de mármore no hotel: cama, mesas, etc.
As festas do mar são um festival com eventos noturnos na marginal durante um mês, com exposições dos empresários da província do Namibe. Recomenda-se a visita. Um jantar no clube náutico e estávamos prontos para atacar o Tombwa.
O Troço Difícil: Namibe → Benguela
O percurso de Moçâmedes a Benguela tem um troço difícil de 60 km depois da Lucira, com terra batida com lombas que criam vibrações e montanhas. Perigoso e esgotante, mas perfeito se tiveres um Landcruiser. Jetour vai falecer aqui.
Desafio máximo: Óleo caminho todo, podias apanhar tomates caídos de camiões carregados. Depois de atravessar um rio com tração, pegas um asfalto perfeito até Benguela, com apenas uma lomba traiçoeira e rebanhos de bois que atravessam o asfalto à vontade.
60 km de pura adrenalina
O caminho era um deserto, porém tinha alguns rebanhos a pastar sob a guarda de nativos, que quase sempre faziam um pedido teatral por pão… Quando vários milhões de kwanzas em bois pastando.
Benguela e Lobito: A Realidade Urbana
A cidade de Benguela está dividida entre prédios dilapidados, habitados por moradores sem capacidade financeira ou desejo de fazer manutenção, e vivendas transformadas em escritórios e hospedarias. Tudo envolto de um musseque igual ao Malueca.
A província de Benguela deveria ter sido dividida em duas, pois não é normal que as duas piores cidades de Angola estejam na mesma província, com os moradores das duas em contenda para decidir qual parte do desastre é a menos ruim.
Benguela é uma cidade sem semáforo com uma nuvem de cupapata que não respeitam as leis do trânsito e muito menos da física, fazem qualquer manobra que lhe bater à tela.
Lobito é uma versão piorada de Benguela, com uma quantidade ainda maior de motas, barrocas nas montanhas e musseques.
A Relação com o Passado
A relação de Benguela com seus monumentos do tempo dito “colonial” é de desdém e esquecimento. O monumento ao fundador da cidade teve o busto removido, as escritas apagadas e os habitantes nem sabem qual é seu significado.
Monumento ao fundador: memória apagada
O monumento aos 350 anos da cidade foi rodeado de bonecos. Colocar Transformers no mesmo parque que celebra os 350 anos da cidade mostra falta de cultura local relevante.
Reflexão final: Atribuir uma descrição de “colonial” ao monumento não ofusca o facto que Benguela foi uma cidade portuguesa fundada por portugueses antes de existir uma colônia.
Conclusões da Viagem
Esta viagem provou que o impossível é apenas uma questão de perspectiva. As estradas existem. Angola existe para ser descoberta. Pelos Angolanos.
Vi beleza e abandono. História e amnésia. Progresso e estagnação. Mas acima de tudo, vi um país que merece ser conhecido pelos seus próprios filhos.
O vídeo da DashCam será publicado nos próximos dias. As memórias já estão gravadas para sempre.
⚠️ Recomendações para Quem Quiser Fazer
- Leve água e comida extra
- GPS é obrigatório
- Tanque sempre cheio
- Kit de primeiros socorros
- Pneu sobressalente (e saber trocar)
- Carregador de telemóvel
- Lanterna potente
- Um bom companheiro de viagem

















