O mito da riqueza de Angola
Políticos, bispos e líderes de opinião gostam de proclamar que a pobreza em Angola é uma anomalia e que a riqueza seria o nosso destino natural do nosso pais. Mas quando olhamos para os números, percebemos que esta crença é apenas um mito conveniente — útil para discursos eleitorais e para alimentar ilusões coletivas, como o socialismo ou uma chuva de comida pós revolucionaria..
O petróleo que não chega para o povo
É verdade que Angola é o segundo maior produtor de petróleo em África. Mas quando dividimos a produção pela nossa população, a história muda: em 2023, cada angolano teve direito a cerca de 11 barris de petróleo por ano. Compare-se com os Emirados Árabes Unidos: 135 barris por habitante. E se considerarmos apenas os cidadãos nacionais (menos de 15% da população), cada emiradense recebe o equivalente a 1.160 barris por ano — mais de 100 vezes mais que um angolano. É por isso que lá o discurso da “nação rica” faz sentido e aqui não.

As reservas de petroleo de Angola são muito menores do que os grandes produtores de petroleo do mundo, estimadas em 2,6 bilhões de barris pela US Energy Administration em 2025, sendo que mesmo as estimativas antigas da SONANGOL, de 9 bilhões de barris esta muito abaixo das reservas dos outros grandes produtores, Emirados Árabes Unidos por exemplo tem 100 bilhões de barris, Venezuela (~ 303 B), Arábia Saudita (~ 267 B), Irã (~ 208 B).
Minerais medianos
Diz-se também que Angola é rica em diamantes e cobre. A realidade: temos menos petróleo que a Nigéria, menos cobre que a RDC, menos diamantes que o Botswana. A RDC conta com cerca de 80 milhões de toneladas de cobre em reservas provadas, a Zâmbia com 21 milhões, enquanto em Angola nem estimativas confiáveis existem. O Botswana, com população dez vezes menor, arrecada duas a três vezes mais que nós em receitas de diamante há 20 anos.
Quanto ao ouro, Angola produziu ~0,11 Toneladas em 2024, uma quantidade muito quando se sabe que a África do Sul produziu 100 toneladas no mesmo ano (Fonte: CEIC, 2024).
Chegando neste ponto, os crentes no mito da riqueza de Angola especulam sobre supostas reservas por descobrir … algo curioso, pois deveriam explicar como que as mesmas nunca foram descobertas pelo por um Governo Colonial Português desesperado por receitas fiscais para financiar sua guerra e a sobrevivência do Regime ou pelo Governo do MPLA desesperado por receitas fiscais para financiar a reconstrução do pais depois de uma guerra civil catastrófica. Se a boia existe, porque que foi ignorada por dois afogados ?
A agricultura abandonada
Agricultura seria um sector no qual melhorias seriam imediatamente benéficas, porem mesmo aqui estamos a adorar mitos, que somos um grande produtor potencial de alimentos.
Na verdade, temos terras férteis em quantidade, mas não em qualidade. Solos tropicais pobres, que exigem correção e tecnologia — o mesmo desafio que o Brasil enfrentou e superou, produzindo agora 5 tonelada por hectare, quando Angola produz cerca de 1,5 tonelada por hectare, ou seja podemos melhorar, mas ainda assim nem seria excepcional. A Zâmbia seria um exemplo mais proximo para imitar, e necessitando menos investimentos, que tem clima e solos semelhantes, colhe 2,5 a 3 toneladas por hectare e exporta para os vizinhos por ter investido na agricultura. Angola, mesmo com mais população e mais terras que Zambia, continua dependente de importar comida, em parte por continuarmos a entreter a agricultura familiar ineficiente.
Os EUA chegam a 10 toneladas por hectare, porem eles tem as melhores terras do planeta e representam o limite máximo do possível em agricultura.
Cultura de rapina
O problema não é apenas económico. É cultural. Em Angola, o desrespeito pela propriedade privada é a regra, não a exceção, tanto no sector privado como publico. Rouba-se no mercado, na rua e no Estado. Se aplaude o assalto de transporte de mercadoria e se aplaude o vandalismo … Isso aumenta custos, desincentiva o investimento e naturaliza a corrupção. Países que prosperaram investiram na confiança, nós investimos na desculpa.
Argumentos contra os factos.
Os argumentos que ouvi contra minha tentativa de desmontar o mito da riqueza, tirando aquele que me acusa de ser um defensor do governo, algo tanto curioso … se resume a invocar como prova a corrupção, e a riqueza colonial …
A corrupção.
Sendo Angola um pais pobre, como que os corruptos conseguem roubar tanto dinheiro !
Este argumento trai a incapacidade do seu enunciador de imaginar uma quantia de dinheiro alem de seu ponto de vista meramente pessoal, como se o corrupto se preocupasse do valor do dinheiro roubado de um ponto de vista do Estado, afinal rouba por ser muito dinheiro para de ponto de vista pessoal. Em países mais pobres do que Angola, os políticos roubam sem se preocupar.
A Riqueza colonial.
Como apontei mais acima, o Governo colonial lidava com um território despovoado com recursos modestos, por isto por exemplo que Portugal almejavam o Catanga ou Zâmbia no seu mapa cor de Rosa, por serem territórios mais ricos. Porem Angola já passou para a uma condição de explosão demográfica que excede os recursos existentes, sendo que o Governo colonial teria dificuldades em lidar com esta nova Angola.
Conclusão: desarmar o mito
O mito da riqueza serve para encobrir más escolhas. Angola não é a Arábia Saudita, nem os Emirados. Não temos reservas minerais abundantes, não temos solos naturalmente férteis, não temos poupança suficiente. Temos população em rápido crescimento, produtividade baixa e um Estado que depende do petróleo.
A verdadeira riqueza só virá se formos capazes de produzir o que consumimos, respeitar a propriedade, poupar de facto e diversificar com base em trabalho — não em slogans. Até lá, insistir que “Angola é um país rico” é apenas perpetuar um engano que nos condena à pobreza.
Na verdade, os angolanos querem ser pobre, como escrevi em outro artigo.
O perigo do mito.
O mito traz em si um perigo, pois ao sobrestimar a riqueza de Angola, algumas pessoas se acham confortável em pregar a destruição do pouco que temos, pois tudo vai ser reconstruido com a riqueza ilimitada que temos.
Este mito alimenta coisas como a retórica sobre a suposta doença holandesa de Angola, como se a industria petrolífera estaria a impedir o surgimento de uma industria nacional, quando este item nunca esteve disponível. Estamos diante de uma tentativa de fuga a realidade e politização da questão económica, como a proposta de José Godinho de “nacionalizar a industria petrolífera” que iria afugentar os investidores.
Crença quase que religiosa na riqueza mineira de Angola é apenas um sintoma da mente politizada, aonde tens que exagerar os crimes do suposto opressor para mobilizar as pessoas para a luta política, sendo que ao mesmo tempo exagerar a riqueza de Angola permita um extremismo justificado certeza que a suposta riqueza ilimitada vai permitir reconstruir tudo.
Postscript: O que deveríamos fazer ?
Sabendo que muitos nunca leriam meus outros textos, vou esboçar uma breve lista de propostas para Angola.
1- Por fim aos gastos de consumo que não sejam essenciais (subsidio aos combustíveis, e regalias da função publica), de modo a priorizar investimentos de longo prazo em energia e transportes que possam ser a base de uma economia saudável.
2- Lidar de maneira decisiva com o crescimento demográfico:
- Garantir acesso gratuito a serviços públicos (saúde, educação, etc) gratuitos apenas para os dois primeiros filhos, devendo recorrer ao privado para os outros.
- Oferecer benefícios fiscais a todo Angolano jovem que tendo já dois filhos, aceite ser sujeito a um procedimento reversível de planeamento familiar.
3- Por fim a hegemonia cultural esquerdista que classifica o pobre como oprimido, logo impedindo que as pessoas mudam o seu modo de vida, de modo a responsabilizar todo Angolano pelas suas decisões económicas e reduzir a desordem social incentivada por apelos irracionais a direitos económicos.
Outras medidas directas ou indirectas podem existir, porem estas seriam de carácter urgente e permitiriam resgatar a situação a medio prazo.















