A Ancestralidade dos Afrocratas, uma farsa anti-Angolana
O Conceito de Ancestralidade pula a cultura real do homem Africano, seja nas suas origens reais e na sua prática desde a independência, para apelar a uma suposta cultura anterior que é convenientemente definida pelo Afrocentrista. Na verdade, fingindo ser um conceito conservador, para preservar a cultura “Africana”, ele na verdade é um conceito revolucionário pois dá poder de definir a cultura ao Afrocrata. No presente, o Afrocrata apresenta a dita ancestralidade como uma caricatura: nomes vagamente Africanos (estilo Makulu kiunga), pele de animais e uma cadência de fala matumba. Isto permite ao Afrocrata falar de cultura Africana sem conhecer qualquer cultura Africana em particular.
1. A indefinição do Conceito de “Ancestralidade”
Não existe nenhuma descrição académica do conceito de ancestralidade na literatura pan-africanista, de autores como Molefi Kete Asante (fundador do Afrocentrismo académico), Cheikh Anta Diop (considerado o pai do Afrocentrismo africano), ou Ama Mazama—o conceito de “ancestralidade” simplesmente não aparece como categoria teórica central. Estes autores falam de “epistemologia africana”, “cosmologia africana”, “agência africana” e “centralidade africana”, mas não de “ancestralidade” como os Afrocratas angolanos usam o termo. Sendo que na prática, a Ancestralidade se resume a ter um nome que pareça “africano”, como Makulo Kiunga, vestir panos e praticar feiticismo. Claro que todo conceito académico sintetiza um conjunto de ideias já existentes e inicialmente desorganizadas, porém a realidade é que a “Ancestralidade” se resume a uma vibe ao gosto dos mimos dos Afrocratas. André Vidal por exemplo tem os ancestrais, o agente atrás do fenómeno de ancestralidade, como um espiritos que agem na realidade, não sendo assim um conceito sociológico mas sim religioso e por isto fora do campo científico. Isto quando o Afrocrata não pula directamente para o Egipto antigo por este ser o “ancestral” de todas as culturas Africanas.
A “ancestralidade” dos Afrocratas angolanos não é um conceito académico sério, mas sim uma invenção local—uma bricolagem performática que permite aos Afrocratas reivindicarem autoridade cultural sem precisarem de conhecer cultura alguma.
2. A Universalidade do Conceito de Ancestralidade
A literatura antropológica é unânime: o culto aos ancestrais não é uma peculiaridade africana, mas um fenómeno universal nas sociedades pré-modernas e pré-letradas. Estudos mostram que a veneração ancestral foi identificada em praticamente todas as regiões do mundo: China (onde persiste até hoje), Japão (culto xintoísta aos ancestrais), Roma antiga (culto aos lares e manes), Grécia antiga, Índia védica, culturas nativas americanas (dos Andes à América do Norte), e naturalmente em África. O próprio termo “ancestor worship” foi cunhado em 1885 pelo antropólogo britânico Herbert Spencer, sendo hoje considerado enganoso—antropólogos modernos preferem “ancestor veneration” ou “ancestor respect”, precisamente porque não se trata de “adoração” no sentido religioso mas de respeito cerimonial. Portanto, apresentar a reverência aos ancestrais como marca distintiva da “africanidade” é simplesmente falso do ponto de vista antropológico.
No máximo, os Afrocratas extrapolaram o “Quimbuntismo”, a suposta reverência das culturas ditas “africanas” aos mais velhos. Porém, vale a pena aprofundar este ponto pois revela como os Afrocratas romantizam relações de poder perfeitamente banais. A gerontocracia—o poder dos mais velhos—não é um valor cultural peculiarmente africano, mas sim a forma natural de organização política em sociedades sem escrita e com pouca acumulação de capital. Nestas sociedades, o conhecimento não está registado em livros mas na memória dos indivíduos, e naturalmente quem viveu mais tempo sabe mais: conhece mais histórias, mais técnicas, mais genealogias, mais alianças. Além disso, em economias pastoris e agrárias simples, o mais velho teve mais tempo para acumular riqueza tangível—mais dependentes (esposas, filhos, sobrinhos), mais gado, mais terras cultivadas, mais conexões políticas. A “reverência” aos mais velhos é portanto um reconhecimento pragmático de poder real, não uma peculiaridade cultural. Antropólogos como Michael Singleton argumentam que interpretar estas práticas como “culto religioso” é projecção etnocêntrica—trata-se simplesmente de reconhecimento cerimonioso do papel indispensável que os anciãos desempenhavam na sobrevivência de comunidades rurais pré-modernas.
Porém se tivermos em conta a evolução geral das sociedades, estes cultos aos ancestrais desaparecem à medida que a sociedade se torna maior e mais complexa, cedendo o lugar a cultos a forças da natureza e abstractas como religiões organizadas. Estudos recentes em antropologia evolutiva documentam esta sequência evolutiva típica: animismo → crença na vida após a morte → xamanismo → culto aos ancestrais → politeísmo → monoteísmo. O culto aos ancestrais funciona bem em grupos pequenos onde todos partilham ancestrais comuns recentes, mas torna-se problemático em sociedades maiores compostas por clãs distintos. A solução histórica foi o politeísmo: os ancestrais venerados de diferentes clãs foram gradualmente transformados em deidades dentro de um panteão partilhado. Eventualmente, com a formação de estados centralizados, surge o monoteísmo ou henoteísmo—um deus supremo que legitima a autoridade central. Esta evolução não é “perda de cultura africana”, mas processo histórico universal. Fingir que Angola deveria “regressar” ao culto ancestral é tão absurdo quanto sugerir que a Europa deveria regressar ao culto de Zeus ou que a China deveria abandonar o confucionismo para retornar ao culto aos espíritos tribais.
Quando falamos de Angola especificamente, a cronologia histórica desmente completamente a narrativa Afrocrata. O Reino do Congo converteu-se ao cristianismo já em 1491, mais de 530 anos atrás. Porém não abandonaram a sua “ancestralidade”, pois como sabemos dos relatos dos missionarios e padres, o Reino do Congo, como a maioria dos povos da epoca, já não praticava cultos ancestrais simples, mas tinha desenvolvido religiões mais complexas, com panteões de divindades, sacerdócios organizados, e cosmologias sofisticadas. O argumento Afrocrata de que o colonialismo “roubou” aos angolanos o culto ancestral é portanto duplamente falso: primeiro porque o cristianismo chegou antes do colonialismo moderno, e segundo porque mesmo antes do cristianismo muitos povos já tinham evoluído para formas religiosas mais complexas.
3. O carácter revolucionário e hipócrita
A suposta “crise de identidade” que a Ancestralidade dos Afrocratas diz combater não existe, afinal Angola já tem uma cultura nacional praticada de modo independente nos últimos 50 anos e de modo orgânico pelo menos um século antes.
Esta cultura supostamente “Africana” à qual devemos regressar não existe, até porque a África não existe como unidade Africana. Sim os povos de Angola têm quase todos uma origem bantu, se excluirmos os Luso-Angolanos e os Khoisans, mas mesmo para estes bantus de origem se separaram por tempo e distância suficiente para que cada um criasse sua cultura distinta. Para colocar as coisas em uma escala menor, pergunto ao leitor que me diga se o neto de Catetistas que nasceu e cresceu em Benguela teria a mesma cultura que um outro neto de Catetistas nascido na Lunda Sul, aliás, será que estes dois teriam a mesma cultura que um Catetista que nasceu e cresceu em Catete?
As relações de origem são apenas passivas, são factos pontuais, enquanto que as culturas são realidades vividas e construídas por seres humanos todos os dias. Dizer que um Angolano não tem cultura por ter o nome de João Pedro é menosprezar a cultura activa em nome da mera relação passiva com pessoas que nunca viu e não conhece. Até porque as culturas são organismos sociais vivos, que têm como objectivo a reprodução de ideias que permite a perenidade de um povo, cultura por mera origem não existe e é apenas tribalismo.
Mas o artifício Afrocentrista piora, pois a sua Africanidade não é uma proposta para um retorno a uma cultura real, mas a uma caricatura de cultura Africana que deve ser definida exclusivamente segundo os caprichos dos Afrocratas, que ficam assim elevados a autoridade moral da sociedade. Isto não é uma coincidência, mas a consequência directa do facto do afrocentrismo ser na sua essência uma ideologia Marxista mas de luta de classes raciais no espaço histórico, sendo que como toda ideologia revolucionária, tem o seu primeiro inimigo no alienado pois reduzir este à escravidão é o primeiro passo para acumular o poder para lutar contra o inimigo de classe. O carácter ideológico do Afrocentrismo está claro quando vemos que repetem o mesmo esquema no campo religioso com sua noção de “espiritualidade”.
Este processo de fabricação de uma “ancestralidade” fictícia encaixa perfeitamente no conceito de “invenção de tradições” desenvolvido pelo historiador Eric Hobsbawm, demonstrando que muitas “tradições” que “aparecem ou alegam ser antigas são frequentemente bastante recentes em origem e às vezes inventadas”. No contexto africano, Terence Ranger documentou como na África colonial tradições foram inventadas tanto por colonizadores (para estabelecer comando e controle) quanto por elites africanas (que facilmente as apropriaram para fortalecer sua própria autoridade). O que os Afrocratas angolanos fazem é precisamente isto: inventar uma “tradição ancestral” vaga o suficiente para ser indefinível mas específica o suficiente para excluir quem eles querem excluir (cristãos, “assimilados”, pessoas com nomes portugueses). O paralelo com as elites coloniais que inventavam “chefes tradicionais” para governar através deles é perturbadoramente exacto—apenas que agora os Afrocratas inventam “guardiões da ancestralidade” para acumularem capital político e moral. Nada disto tem a ver com preservação de cultura real, e tudo a ver com fabricação de instrumentos de poder.
O autoritarismo do projecto Afrocrata
Não estamos diante de um regresso, mas sim da construção de uma nova cultura e em que o Afrocrata se coloca no centro, o que não seria um problema se fosse feito de maneira normal, pois o Afrocrata não coloca as suas ideias como propostas que podem ser avaliadas com outras. Para o Afrocrata, a sua ancestralidade é a cultura natural do Angolano, que está no sangue, e à qual ele deve aderir por ser um africano negro. Sendo que qualquer Angolano que recuse dobrar o joelho é um alienado, um traidor, um burro ou um branco de cor negra. Não chegam a admitir que haja outro ponto de vista.
Para encurtar uma conversa longa, o Afrocrata é inimigo de Angola, sendo por isto normal que esta ideologia tenha particular popularidade entre pessoas de nacionalidade duvidosa.









