O movimento Afrocrata incentiva um revisionismo histórico intenso e confuso, uma mistura de negação e invenção de pseudo-história, em uma narrativa que oscila entre vitimização e triunfalismo, criando requintes de burrice como a ideia de que Angola e a República do Congo (RC Brazza-ville) seriam na verdade províncias perdidas da República Democrática do Congo (Kinshasa): “Angola é Congo, os Angolanos são bakongos que falam português, Congo Brazza-ville é falso Congo, viva o Grande Congo Kinshasa foi dividido pela conferência de Berlim”.
A maioria do Território do Reino do Congo esta em Angola.
O Antigo Reino do Congo, no seu auge entre os séculos XV e XVII, ocupava aproximadamente 180.000 km² de território sob controle direto do Manikongo, distribuídos entre dois países modernos. Em Angola, o reino controlava cerca de 150.000 km² nas províncias do Zaire, Uíge, norte de Bengo e partes de Cuanza Norte e Malanje, representando aproximadamente 12% do território angolano atual e constituindo o núcleo do poder real. Na República Democrática do Congo, o controle direto limitava-se a uma faixa de aproximadamente 30.000 km² ao longo da margem sul do Rio Congo (incluindo partes de Kongo Central e Kinshasa), representando apenas 1,3% da vasta extensão da RDC moderna. Esta distribuição demonstra que o coração territorial do Reino do Congo estava predominantemente localizado no que é hoje o norte de Angola, com o Rio Congo servindo como fronteira natural do reino.

O que se entende por Congo ?
O primeiro equívoco está em dizer que a palavra Congo no nome RDC se refere ao Reino do Congo, para dizer de que Angola é o Congo. Na verdade, o Congo RDC deriva seu nome do rio Congo, e não do Reino do Congo, o que é evidente se contarmos a origem da palavra Congo usada nos nomes da República Democrática do Congo e da República do Congo.

A República Democrática do Congo (RDC), é na origem um projecto do Rei Belga Leopoldo II, que criou, em 1876, a “Association Internationale pour l’Exploration et la Civilisation de l’Afrique Centrale” (AIECAC), associação para explorar e civilizar a África central, definida como a zona mediana do continente ao longo do equador. Para este efeito, a associação contratou os serviços de Henry Morton Stanley, que havia já feito viagens de travessia da África por esta mesma zona.

Em contraste, as zonas exploradas por David Livingstone entre 1851 e 1873, que também fez uma travessia da África, estavam mais a sul no território da actual República de Angola, desde o Cuando-Cubango até chegar a Luanda, e longe das zonas exploradas por Stanley, a actual RDC. Notem que no mapa, anterior aos trabalhos de Leopoldo, que iniciaram em 1876, a palavra Congo está limitada apenas ao território do antigo Reino do Congo.

As terras atravessadas por Livingstone sendo as mesmas que seriam exploradas por Serpa Pinto, que seriam depois parte dos territórios desejados por Portugal para ligar Angola a Moçambique, naquilo que seria chamado o “mapa cor-de-rosa”.

Com Stanley ainda cumprindo o plano que recebeu da AIECAC em África, esta foi dissolvida e substituída pelo Comité para o Estudo do Alto-Congo (comité d’études du Haut-Congo (CEHC)), também liderado por Leopoldo II de maneira secreta, sendo que Alto-Congo significava a parte superior do curso do rio Congo, isto é, a zona próxima da nascente do rio.
O CEHC tinha como objectivo:
- Avaliar a navegabilidade do Rio Congo;
- Avaliar o potencial de comércio europeu com os habitantes da região;
- Descobrir quais os custos de entrada que as tribos podem cobrar;
- Conhecer a natureza dos produtos comercializados localmente;
- Investigar a possibilidade de criar uma ferrovia na zona das quedas de água (hoje conhecidas por Livingstone Falls) e as mercadorias a transportar.
Outro objetivo do Estado Independente do Congo foi abolir a escravatura na bacia do Congo, pois a zona servia de terreno de razia dos Arabizados, Tippu Tip e Msiri, que abasteciam os portos da costa Swahili, com escravos. Sendo que a similaridade entre a língua Swahili e as línguas banto, como o lingala, apresentadas como prova de que esta seria uma língua pan-africana, tem a sua verdadeira origem no tráfico de escravos.

O trabalho de campo deste comité, permitiu estabelecer a Associação Internacional do Congo, que tinham como objectivo, controlar a bacia do Congo e explorar os seus recursos económicos.
Como se pode ver pelos factos, o Congo no nome Congo democrático tem um sentido meramente geográfico e nada tem a ver com o reino do Congo. Alias, diante da ameaça dos portugueses de impedir o acesso ao mar por meio de Matadi, tendo Lisboa assinado um tratado com Londres para assegurar seus direitos históricos sobre todos os territórios do antigo rei de Mbanza Congo, o Leopoldo colocou em marcha, em 1882, um plano para criar um acesso alternativo a bacia do Congo por meio do rio Couilou-Niari, que foi o traçado depois usado pelos Franceses para sua colónia do Congo Medio.
No fim, Portugal cedeu o Baixo-Congo a Bélgica em troca das Lundas, separando assim Cabinda do resto de Angola, quando antes fazia parte do distrito do Congo, com capital em Landana, que incluía as actuais províncias de Cabinda, Baixo-Congo, Uíge, e Zaire.
O que se entende por Congo-Brazzaville ?
A República do Congo, com sua capital em Brazzaville, tem a sua origem na colónia Francesa do Congo-Médio, sendo este nome uma referência geográfica à parte intermédia de um rio, entre a sua foz e a sua nascente, neste caso específico a margem esquerda na qual estava situado o reino dos Tékés com quem Savorgnan de Brazza assinou um tratado em 1880. Novamente, isto nada tem a ver com o Reino do Congo, sendo que os Tékés nunca fizeram parte e nem foram vassalos do Rei de Mbanza Congo. Congo-Médio foi o nome de um distrito da colónia do Congo Belga, na margem direita do rio Congo, directamente oposto ao Congo-Médio Francês (Número 2 no mapa).

O que se entende por Reino do Congo ?
O primeiro equívoco que os Afrocratas, ou pessoas que aceitam ideias Afrocratas sem pensar, só porque lhes disseram que estas são as ideias que um negro deve ter, está em cometer o anacronismo de pensar que o reino do Congo era um reino nacional de todos os bacongos, e vão dizer por exemplo que o Reino do Congo chegava até ao Gabão, só porque no Gabão há uma tribo de bacongos, os balumbus cujo membro mais famoso foi Oliver Ngoma, que cantava música do estilo anti-lhano em qui-congo.

Na verdade o reino de Mbanza Congo definia-se apenas como o território sob o domínio do rei de Mbanza Congo. Aliás, vários territórios do Reino do Congo foram conquistados depois da chegada dos Portugueses, por exemplo o Congo-Dia-Nlaza, nas margens do rio Cuango, e outros territórios saíram do Reino, como o Sonho, actual Soyo, que ganhou independência nos anos de 1640. Quando foi criado o Estado Independente do Congo, o Reino do Congo já nem existia, restando apenas um rei simbólico encurralado em Mbanza Congo.

Existiram reinos mono-étnicos constituídos por tribos pequenas, mas o Reino do Congo tinha uma estrutura imperial e dominava territórios além das zonas habitadas por Bacongos, por exemplo o Ndongo e os Dembos.
A existência de Bacongos numa zona não significa que o território fazia parte do Reino do Congo; aliás, vários grupos Bacongo emigraram para o norte e leste, uns dominando reinos locais, como no caso do Loango, ou simplesmente vivendo como grupos isolados, como os Mbala da RDC. Aliás, se a definição de Reino do Congo fosse qualquer lugar com Bacongos, logo a definição do Ndongo seria também qualquer lugar com Ambundus, o que significaria que os Pendes da RDC também fariam parte do Reino do Ndongo? Os Mbala nunca fizeram parte do Reino do Congo, e aliás nos anos de 1900 chamavam os imigrantes Bacongos de Angola, que eram recrutados como técnicos nas empresas dos belgas, de Mussansalvador, aqueles de São Salvador do Congo.


Congo, o nome do Rio.
Uma última evidência de que o nome Congo, da República Democrática do Congo (Kinshasa) e da República do Congo (Brazzaville), deriva do rio e não do reino, está no facto de Mobuto ter mudado o nome do rio Congo para rio Zaire ao mesmo tempo que mudou o nome do país de Congo para Zaire, pois o país tira o seu nome do rio que constitui o seu elemento geográfico dominante. Se o país derivasse o seu nome do Reino do Congo, bastaria mudar o nome do país apenas sem mexer no rio, ou mudar o nome do país para outro reino importante do território, como o Luba ou Kuba.
Por isto, por exemplo, é que o Congo tinha uma província do Alto-Congo, que depois foi chamada de Alto-Zaire (caixa vermelha), do mesmo jeito que a província do Baixo-Congo passou a ser chamada de Baixo-Zaire (caixa verde), quando Mobutu mudou o nome do país, nomes estes que sempre se referem ao rio. O hino do Zaire, La Zaïroise, definiu o país como as terras à volta de um rio, o rio Zaire: “Pour bâtir notre pays toujours plus beau, Autour d’un fleuve Majesté”.

Foi apenas em 2015 que os Congoleses mudaram o nome da província do Baixo-Congo, parte do rio próxima da foz, para o novo nome de Congo Central no sentido de parte central do território dos Bacongos ou do reino do Congo, o que foi um absurdo porque o território no centro do Antigo Reino do Congo deveria estar entre a parte norte e sul, pois tratava-se de territórios do norte do reino (área verde) e apenas parte da província do baixo Congo fazia parte do Reino do Congo, sendo que a margem norte nunca fui território do rei de Mbanza Congo.

O facto de o rio ter o nome de Congo nada tem de extraordinário, sendo apenas uma convenção geográfica adoptada pelos Europeus; do ponto de vista do Reino do Congo, o rio era apenas um rio grande que nem definia a sua identidade, chamavam ao rio nzere o zadi, ou rio que engole outros rios, ou seja, um grande rio. Aliás, este nome nem se repetia ao longo do rio, que tinha vários nomes; por exemplo, perto da nascente chamava-se Lualuaba e era apenas um rio pequeno como muitos outros. Do ponto de vista Europeu, fazia sentido chamar este rio de Congo por ser o maior rio da costa do Reino do Congo, mas era apenas uma questão de conveniência.
Ter o mesmo nome significa ser a mesma coisa ?
Para as mentes simples, o facto de duas coisas terem o mesmo nome significa que sejam a mesma coisa; aliás existem vários exemplos em que uma mesma palavra se refere a coisas totalmente diferentes, por exemplo a palavra Libolo refere-se a uma localidade de Angola, mas usa-se como insulto na RDC, ao mesmo título que a palavra Kona, que significa o lado seco da ilha e que foi usado como nome de um modelo de carro, significa o mesmo insulto em Angola.
Porque tanta pseudo-historia ?
Para o Afrocrata, a história tem de ser reescrita tanto por ser falsa por ser escrita por brancos e por ser vergonhosa por ter sido protagonizada por brancos… e por isto qualquer coisa que exalta o Africano, mesmo que neste caso sejam alguns Africanos, os Congoleses da RDC à custa dos Angolanos e dos Congoleses da República do Congo. Estes ataques têm a sua origem na ausência de uma identidade Congolesa coesa, que os leva a adoptar as fantasias afrocratas e a atacar os países com identidades nacionais, Angola e Congo Brazza-ville.
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