Inflação e demografia em Angola

A inflação angolana é maioritariamente um fenómeno demográfico, pois há cada vez mais pessoas a competir pelos mesmos produtos, ao mesmo tempo que a economia (a produtividade dessas mesmas pessoas) não é suficiente para justificar investimentos externos e, muito menos, internos.



Esta tendência pessoal ao consumo, repetida por quase 35 milhões de habitantes, exprime-se na forma de uma baixa taxa de poupança e de políticas públicas consumistas (como o subsídio aos combustíveis), além de uma taxa de natalidade elevada, por conta de uma cultura que vê o filho como “fonte de riqueza” — afinal, um pode subir na vida — e como “método de poupança”, pois um irá cuidar de mim na velhice, em vez de ser encarado como uma responsabilidade: um novo ser humano que precisa de instrumentos e instrução para competir num mundo complexo.

Destarte, é fácil apontar o dedo ao BNA pela política monetária ou ao Governo pela política fiscal; porém, o desafio que deixo a cada angolano é refletir sobre a sua participação pessoal na economia: é positiva ou negativa?

Sei que é desconfortável sair do discurso acusativo e vitimista, mas isso é necessário para o nosso país amadurecer.

Luanda foi fundada por Paulo Dias de Novais: os Afrocratas mentem

Luanda foi fundada por Paulo Dias de Novais: os Afrocratas mentem

Escrevi a primeira versão deste artigo em 2022, reagindo a vários Afrocratas que negavam a fundação de Luanda por Paulo Dias de Novais, como Ruis Ramos no Jornal de Angola, Isidro Fortunato no Facebook e Felipe Vidal na TPA. Contudo, estamos em 2026, a celebrar os 450 anos da nossa cidade, e surge mais uma figura, desta vez na rádio MFM, a repetir a mesma falsidade, invocando uma suposta “controvérsia histórica” que simplesmente não existe. Estamos perante uma ideologia pseudo-intelectual, nociva para a inteligência nacional, conhecida como Afrocentrismo.

Os argumentos apresentados pelos Afrocratas para negar um facto histórico resumem-se, essencialmente, a três pontos: primeiro, que “Luanda” já existia; segundo, que já viviam pessoas em Luanda; e terceiro, que celebrar a fundação de Luanda constitui uma apologia ao colonialismo.


Luanda já existia?

A forma mais elementar e menos inteligente deste argumento afirma que a baía de Luanda já existia antes da chegada de Paulo Dias de Novais. Tal afirmação é obviamente absurda, pois fundar uma cidade não significa criar o espaço físico onde ela se localiza — a menos que se trate de um holandês a construir novas terras sobre o Mar do Norte.

Subindo ligeiramente na escala da inteligência, mas ainda abaixo do limiar do razoável, surge o argumento de que “viviam povos em Luanda”. Isso é inegável: Angola não era uma terra vazia, apenas pouco povoada. No entanto, a presença de habitantes não equivale à existência de uma cidade. Se assim fosse, qualquer município angolano seria automaticamente uma cidade. Um artifício retórico usado pelo entrevistado da MFM consiste em alegar que a zona de Luanda era “uma unidade administrativa onde não viviam pessoas”, o que é um contrassenso evidente: se não havia população, então não poderia existir uma cidade anterior à fundada por Paulo Dias de Novais.

Chegamos, por fim, à forma mais inteligível do argumento: a alegação de que existia uma povoação africana na zona de Luanda e que, por esse motivo, Paulo Dias de Novais não teria fundado realmente a cidade.

No entanto, sabe-se que não existiu em Luanda nenhuma cidade antes de Luanda, nem segundo os padrões portugueses, nem segundo os padrões bacongos. Durante os 92 anos que decorreram entre a chegada de Diogo Cão e a fundação de Luanda por Paulo Dias de Novais, nunca se mencionou a existência de uma Mbanza no local de Luanda, ao contrário do que sucedia com Mbanza Congo, Mbanza Soyo, Mbanza Mbamba, Mbanza Loango, entre outras. O conceito de Mbanza era o mais próximo de cidade segundo a perceção portuguesa da época: uma aglomeração permanente de vários milhares de pessoas, não exclusivamente agrícola, com atividades artesanais, comerciais, políticas e religiosas. Em contraste, uma aldeia era uma aglomeração de membros do mesmo clã, maioritariamente agrícola e, no contexto angolano da época, semi-sedentária, podendo ser abandonada em caso de ataque ou para a procura de novas terras de cultivo.


A aldeia da ilha das Cabras

Existiu, de facto, uma aldeia na ilha de Luanda, governada por uma representante do rei do Congo, cuja população se dedicava à pesca e à recolha de búzios (nzimbos), utilizados como forma de moeda. Contudo, esta aldeia não pode ser considerada um precursor de Luanda por duas razões simples.

Primeiro, porque, embora a ilha de Luanda seja hoje um elemento icónico da cidade, ela só passou a integrar estruturalmente Luanda nos anos 1940, com a construção de uma ponte. Antes disso, existia apenas uma fortaleza no extremo sul, destinada a proteger a barra da Corimba e a estação naval do esquadrão contra o tráfico de escravos combatido pela Marinha Real Britânica.

Segundo, a aldeia da ilha de Luanda e a recém-fundada cidade de Luanda coexistiram como entidades administrativa e politicamente distintas até, pelo menos, 1620. A partir dessa data, o rei do Congo perdeu a sua capacidade de influência sobre a ilha, substituindo inclusive os nzimbos por panos de ráfia do tipo libongos. A distinção entre as duas localidades é clara quando se observa que Paulo Dias de Novais passou um ano hospedado na ilha de Luanda, onde recebeu embaixadores do rei do Ndongo, antes de decidir construir a fortaleza no topo do Morro de São Miguel. Se “Luanda já existisse”, teria sido necessária uma batalha para conquistar essa suposta cidade.

Luanda definiu-se por características que não partilhava com a aldeia da ilha: a fortaleza no topo do Morro de São Paulo, a Cidade Alta, a Cidade Baixa e o porto na baía. A ilha de Luanda só passou a integrar este conjunto urbano no século XX.


Celebrar a fundação de Luanda é celebrar o colonialismo?

A fase final do argumentário afrocentrista, uma vez refutados os pontos anteriores, consiste em condenar a alegada “glorificação do colonialismo” implícita na celebração da fundação da cidade por um “colonialista português”. Independentemente dos méritos ou deméritos do colonialismo, estamos perante uma tentativa de negar factos históricos considerados desfavoráveis ao “seu povo”, o que equivale a uma recusa da própria realidade. O facto de a fundação de Luanda ter sido um ato colonial não altera em nada a sua veracidade histórica. Negar um facto por discordância ideológica aproxima-se do pensamento mágico, como o indivíduo que recusa aceitar provas evidentes por incapacidade emocional de lidar com a verdade. O bem e o mal fazem parte da história, e devemos desconfiar de qualquer narrativa que apresente o passado apenas de forma positiva.

Os Afrocratas escondem a sua intenção de manipular a história sob o pretexto de que ela já estaria “manipulada a favor dos brancos” para justificar o colonialismo, como se a superioridade militar e logística do Ocidente no século XIX necessitasse de legitimação moral. Na realidade, trata-se apenas de um reflexo da própria mentalidade afrocrata, que não encara a história como a sucessão de factos ocorridos, mas como um instrumento ao serviço de uma utopia ideológica.

Esta chamada “descolonização da História” reduz-se ao sofisma de que “não faz sentido a capital ser mais velha que o país”, repetido por Isidro Fortunato no Facebook, ou à afirmação de William Tonet de que “ANGOLA SERIA UMA GRANDE ABERRAÇÃO POR TER FILHOS MAIS VELHOS QUE A MÃE”. O mesmo autor lamenta ainda que Angola avance para o futuro sem uma independência “imaterial”, por ainda carregar “símbolos, sinaléticas, datas e nomes portugueses”. A pergunta impõe-se: quem deve definir os “novos símbolos”? Os Afrocratas, naturalmente — afinal, são eles que se arrogam o monopólio da definição do que é ser “africano”, esquecendo que a África existia antes de Angola.

Não se trata aqui de “defender os portugueses”, nem de assumir a condição de “negro assimilado”, como gostam de acusar os Afrocratas sempre que encontram um angolano que não partilha das suas ideias. Trata-se, simplesmente, de defender a verdade. Quem não respeita a realidade jamais respeitará os direitos dos seus semelhantes, estando já comprometido com uma estratégia de empobrecimento intelectual do público para alimentar o próprio ego e ascender socialmente. Por que razão deveríamos capitular e renunciar à nossa identidade angolana diante de tais pessoas?

A Vanglória e Saudosismo Colonial de André Ventura: O Mito Colonial Português em Angola

Antes de qualquer discussão sobre os ataques de Ventura contra o Presidente e o povo de Angola, devemos reconhecer que o político português enganou o povo de Portugal sobre as palavras do presidente angolano, João Lourenço.

## A Mentira Inicial

As declarações exactas do presidente de Angola foram: “mal tínhamos acabado de vencer o colonialismo português, que nos oprimiu e escravizou durante séculos, tivemos de enfrentar o regime retrógrado do Apartheid… como resultado de nossa luta, deixamos para trás 500 anos de colonização, escravatura e humilhação”.

A mentira que André Ventura disse ao povo Português foi: “e cito, o colonialismo português escravizou e destruiu os Angolanos durante 500 anos”. O uso de “e cito” para dar a impressão de que estas são as palavras exactas do presidente Angolano revela a intencionalidade da manobra de Ventura.

Esta foi a segunda manipulação, pois Ventura já havia atacado o presidente angolano em Julho de 2025 por conta de uma resposta genérica sobre imigração. A resposta de João Lourenço seguiu o padrão usado por qualquer chefe de Estado: respeitou a soberania de Portugal, pediu respeito pelas normas internacionais de imigração e solicitou reciprocidade no tratamento dos imigrantes. Esta posição é similar às declarações de Marcelo Rebelo de Sousa sobre os efeitos do Brexit nos imigrantes portugueses no Reino Unido.

Ventura também insinuou falsamente que o presidente JLO teria exigido reparações históricas a Portugal, quando isto nunca aconteceu. Sem estas mentiras sobre supostos ataques do Presidente de Angola contra Portugal, seu discurso seria visto como uma anomalia curiosa e quixotesca.

Deputados e comentadores alinhados ao Chega usam a mesma táctica, nunca citam as palavras do presidente Angolano, repetem a acusação do Ventura ou insinuam o seu conteúdo, para logo encadear o seus ataques contra Angola. Até mesmo jornais seguem o mesmo esquema, com o Correio da Manha tendo a acusação de Ventura no segundo paragrafo, quando as palavras do presidente Angolano estão no sexto e sem que se escreva de maneira clara que a acusação de Ventura esta infundada, pelo contrario o primeiro paragrafo legitima as palavras de Ventura: “O líder do Chega, André Ventura, criticou esta quarta-feira as declarações do Presidente angolano sobre o colonialismo português e a reação de Marcelo Rebelo de Sousa, que quer ver condenada pelo parlamento.”

## A Estratégia de Ventura

André Ventura está a fazer campanha contra Angola com uma estrutura partilhada pelos deputados do Chega: (1) os portugueses construíram, (2) os Angolanos despojaram os portugueses, (3) os angolanos estão a oprimir os portugueses através da imigração.

Sendo a imigração uma preocupação legítima de parte do eleitorado nativo português, Ventura tenta mobilizar seus eleitores nativos sem alienar o eleitorado imigrante brasileiro, o maior grupo de imigrantes e que mais tem tendências de votar no CHEGA. A defesa apaixonada que fez de Zelensky, mais autoritário que JLO, também se entende quando sabemos que os ucranianos são o segundo grupo mais naturalizado do país, com 34 mil eleitores.

Ventura faz uma defesa do nacionalismo português no passado, que ele mescla com o colonialismo português, porque uma defesa no presente antagonizaria o grupo imigrante que corteja. A sugestão de que a emigração angolana seria causada pela pobreza serve apenas para alimentar o ego dos portugueses, quando na realidade a emigração angolana é consequência da prosperidade recente e um fenómeno maioritariamente de classe média.

## Quando Portugal Construiu Angola?

### O Mito dos Cinco Séculos

Um dos erros do discurso do Presidente de Angola foi repetir a mentira portuguesa dos “500 anos de colonização”. Esta fórmula fez parte da propaganda oficial de Salazar, alegando que “as outras potências são intrusos que entraram com a conferência de Berlim quando Portugal tem cinco séculos de presença em Angola”.

Na verdade, a presença portuguesa durou cinco séculos apenas no vale do rio Cuanza e na costa de Benguela, em relações diplomáticas e comerciais com os reinos africanos circundantes, numa área muito menor que as actuais fronteiras de Angola. Foi com a conferência de Berlim que Portugal se viu obrigado a ocupar o interior do continente, tendo em conta o imperativo da ocupação efectiva. A colónia de Angola foi realmente fundada em 1886 e Portugal ocupou o território actual apenas em 1912.

### A Fase Colonial da República Monárquica (1886-1910)

Foi nesta fase que o território foi conquistado em campanhas que chegaram a absorver 12% do orçamento português. Em 1892, com a nova pauta, as exportações portuguesas para as colónias africanas passaram a pagar entre 10% e 20% dos direitos estabelecidos, enquanto produtos estrangeiros pagavam o total da tarifa geral.

Angola contribuiu directamente através de direitos aduaneiros e manipulação cambial, pois as divisas fortes eram retidas na metrópole enquanto os fornecedores angolanos eram pagos em Angolares ou Escudos coloniais. Indirectamente, Angola foi um mercado cativo que absorvia 15% das exportações portuguesas em 1909, sendo que os produtos portugueses eram mais caros e de qualidade inferior às alternativas disponíveis no mercado internacional.

Em 1899, um novo código laboral impôs um regime de trabalho forçado a todos os nativos africanos para garantir níveis de produção que sustentassem as exportações. A colónia tinha apenas 3 cidades – Moçâmedes, Luanda e Benguela – pequenas vilas povoadas por 9 mil brancos e 3 mil mestiços em 1900.

### A Fase Colonial da República (1910-1928)

Foi neste período que se iniciou a primeira fase de investimento em Angola, com o Governador Norton de Matos (1910-1915) a fundar Nova Lisboa e financiar a vinda de 9.000 colonos portugueses. Como Alto-Comissário (1921-1924), Norton de Matos levou a população total de colonos para 36.000, porém teve de se exilar para Londres e sua política de investimento foi definitivamente interrompida por Salazar, então ministro das Finanças, que aplicou uma política de austeridade nos gastos coloniais.

### A Fase do Estado Novo em Tempo de Paz (1928-1961)

A acção política de Salazar pode ser resumida nos seguintes princípios: centralização administrativa, equilíbrio das contas públicas e dos saldos comerciais das colónias, orientação dos fluxos comerciais em benefício de Lisboa através do Acto Colonial de 1930, e austeridade nas colónias com diminuição dos investimentos.

Neste período, a exploração da mão de obra continuou a ser a maior fonte de renda de Angola, não apenas na forma de trabalho sub-remunerado, mas também na forma de exportação de trabalhadores para as minas da Rodésia e África do Sul. No final dos anos 50 foram feitos os primeiros grandes investimentos em Angola com programas de colonização e construção de barragens.

### A Fase do Estado Novo em Tempo de Guerra (1961-1974)

Este foi efectivamente o período de investimento em massa em Angola, com um investimento total nos 13 anos de guerra superior ao investimento colonial feito antes. A infraestrutura que suscita a vanglória de Ventura foi construída na década de 60 e 70, evidente no aumento do número de colonos e nos projectos que documentam o legado arquitectónico em Angola, onde a maioria das construções são dos anos 60.

“Para Angola, rapidamente e em força” foi a ideia central do discurso de Salazar em 13 de Abril de 1961, anunciando sua decisão de defender Angola depois dos ataques da UPA/FNLA. A escalada não foi apenas militar, mas também colonial, com as verbas de investimento multiplicadas por dois e o número de colonos dobrando em 12 anos, chegando ao máximo de 400 mil pessoas em 1974.

As cidades existentes foram ampliadas para acomodar os novos colonos e um milhão de Africanos foi deslocado para aldeias protegidas para cortar laços com a guerrilha. Foi neste tempo que se iniciou o primeiro programa de escolaridade em massa para angolanos autóctones. Esta fase ficou na mente popular, ocultando os primeiros 33 anos de governo do Estado Novo sem desenvolvimento.

## A Diamang: Exploração sem Investimento

A Diamang, fundada em 1917, representa um resumo da política de exploração da mão de obra angolana sem investimentos. Gozava do privilégio de mobilização de trabalho forçado em 1921, mas só investiu em meios de transporte para levar trabalhadores às minas em 1948. Durante 27 anos os angolanos privados de liberdade deviam viajar a pé até as minas da Lunda, alguns percorrendo até 1.000 quilómetros. O desgaste do percurso era tal que os oficiais da Diamang recusavam recrutas que chegavam estropiados pela fome, chuvas, travessias de rios e enfermidades.

As receitas do Estado Português decorrentes das actividades da Diamang, de 1928 a 1961, chegaram a 8 biliões de dólares – dinheiro suficiente para investir em infraestruturas ou serviços públicos para as populações indígenas, porém usado para benefício de Portugal.

## O Mito do Desenvolvimento Colonial

Ventura e saudosistas do tempo colonial evidenciam o fracasso de Angola pela queda da produção agrícola após a independência, pois o território era um dos maiores produtores de café e algodão. Porém, o factor decisivo que permitiu esta produção não era a qualidade dos solos, que oscila entre péssima e média em Angola, nem o investimento em capital, mas a disponibilidade de trabalho forçado indígena.

A queda da produção após a independência evidencia apenas o carácter insustentável da actividade colonial, que não era económica no sentido que o custo real do trabalho era suprimido pelo poder do Estado. A abolição do Estatuto do Indigenato, em consequência da revolta angolana, iniciou a derrocada do sistema e a necessidade de investimentos para sustentar a produtividade.

## Quanto Foi Extraído de Angola?

A economia portuguesa tinha ganhos directos com Angola estimados em $1 bilhão em 1957. Antes da revolta angolana de 1961, a maior fonte de riqueza era o trabalho indígena usado na agricultura de produtos de exportação. Depois da Revolta Angolana, a extração de riqueza cresceu e se afastou da exploração da mão de obra indígena. Com os investimentos em exploração mineira, a contribuição da actividade mineira passou de 25% para 33% da actividade económica.

Este aumento foi possível graças ao Terceiro Plano de Desenvolvimento, que previa investir dois terços das verbas em minas e indústria. Os capitais eram maioritariamente angolanos: 31% de receitas públicas do governo local, 23% de investimento privado de empresas que operavam no mercado angolano, e 43% de investidores estrangeiros.

Antes da guerra colonial, Salazar aplicou uma política de equilíbrio de contas que impedia o investimento em Angola de capitais angolanos, usados em prol de Portugal para compensar a baixa taxa de poupança portuguesa, ao mesmo tempo que opunha veto ao investimento de capital estrangeiro. Sem a revolta angolana, nenhuma das mudanças necessárias para criar a prosperidade da década de setenta seria possível.

## O que Foi Construído em Angola

### Hospitais

Para todas as colónias portuguesas em 1952 existiam 107 hospitais, 145 enfermarias e 603 postos sanitários. Os grandes hospitais de Angola em 1974 eram o Maria Pia, o Hospital Militar, e os hospitais centrais de Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Lobito e Moçâmedes. Não existe estudo sobre o número exacto de hospitais e camas disponíveis.

Para Angola independente, 189 unidades sanitárias foram construídas nos últimos sete anos (até Julho de 2024), aumentando o total para 3.344 unidades sanitárias. Angola conta actualmente com mais de 42 mil camas hospitalares, tendo registado aumento de 24.382 em 2019 para 29.912 em 2021, quando o mínimo em 2002 era de 13 mil camas.

### Habitação

As cidades que Portugal construiu em Angola datam da década de 1960, no quadro da política “para Angola, rapidamente e com força”, albergando a maioria dos 400 mil portugueses residentes, caracterizadas por prédios residenciais com estabelecimentos comerciais no rés-do-chão. Quatrocentos mil angolanos eram acomodados nos bairros populares e musseques.

Angola independente construiu centralidades para 268 mil habitantes de classe média e o Projecto Zango conta com mais de 600.000 habitantes em projecto que mistura casas sociais e terrenos urbanizados. O Governo Angolano duplicou a oferta de imóveis residenciais dentro da Capital e construiu mais centralidades para 200.000 habitantes no resto do país. Uma prova foi a queda do preço das casas entre 2016 e 2021, de pelo menos 30%.

### Educação

Em 1927, o Diploma legislativo n.º 518 estabeleceu dois ramos assimétricos: ensino para europeus e assimilados, e ensino para indígenas. O Diploma Legislativo n.º 238 (1930) institucionalizou a separação: o ensino indígena tinha por fim “elevar gradualmente da vida selvagem à vida civilizada dos povos cultos a população autóctone”, enquanto o ensino primário elementar para “não indígenas” visava dar os instrumentos fundamentais do saber.

O Acordo Missionário de 1941 entregou às Missões Católicas a responsabilidade integral do “ensino rudimentar” para indígenas. As escolas católicas foram reconhecidas como oficiais, mas as Missões Protestantes mantiveram escolas sem reconhecimento oficial.

Apesar da instrução ser exigência para “progredir” de “indígena” a “assimilado”, em 1958 o número de analfabetos em Angola era de 4.009.911, representando 96,7% da população. Na véspera da independência, 75% da população era analfabeta.

De 1926 a 1941, o ensino para “indígenas” contava apenas com cerca de 2.000 alunos. Em 1959/60 havia quase 70.000 alunos nas escolas de adaptação e perto de 290.000 crianças frequentavam escolas de catequese das Missões Católicas, que não faziam parte do sistema oficial. Em 1972/73, o total era superior a 600.000 – mais de 500.000 no ensino primário, cerca de 75.000 no secundário, mais de 3.000 no normal.

Se dependêssemos do investimento colonial não falaríamos português, o que é paradoxal com a imagem de Angola como uma das ex-colónias mais ocidentalizadas. O desejo angolano por educação, como forma de emancipação e ascensão social, antecede o governo colonial. Não falamos português porque fomos colonizados, falamos português porque somos Angolanos.

### Infraestruturas: Estradas e Barragens

A rede de estradas asfaltadas de Angola passou de 400 km em 1960 para 7.000 km em 1972, em grande parte em zonas de maior acção militar anti-guerrilha, chegando a 10.000 km em 1975. Entre 2002 e 2024, o governo angolano construiu e reabilitou dezenas de milhares de quilómetros de estradas, chegando a 19 mil km asfaltados em 2024.

Nas barragens, a capacidade instalada depois da independência supera de longe as obras portuguesas: Portugal Colonial construiu 5 barragens com capacidade de 283 MW, enquanto Angola Independente construiu 3 barragens com capacidade de 3.370 MW – 11,9 vezes mais.

## As Algemas Douradas: A Mentalidade do Escravo

Se definirmos a pobreza como a ausência de infraestrutura e rendimentos que permitem um estilo de vida urbano moderno, os 350 mil angolanos que viviam nos musseques seriam uma classe média africana. O Estado de Angola seria um fracasso por ter 6 milhões de angolanos de classe média num país com 36 milhões de pessoas, mas a Província de Angola seria um sucesso com 400.000 portugueses e 370.000 angolanos de classe média numa população de 6 milhões?

Temos 16% de angolanos de classe média hoje, quando tínhamos apenas 6% em 1974, porém a qualidade de vida dos musseques coloniais era nitidamente inferior à qualidade de vida das centralidades e bairros nobres da Luanda independente. Nos dois casos, a maioria da população vive na pobreza, mas no primeiro temos uma elite nacional e no segundo uma elite estrangeira.

A preocupação hipócrita com a pobreza ignora que a pobreza colonial era consequência directa da exploração do governo colonial, enquanto a pobreza na Angola moderna é endógena à população pobre, sendo que a natureza insular da renda petrolífera não requer a opressão da população para gerar riqueza.

## Conclusão

Nestas comparações entre Angola angolana e Angola portuguesa, existem duas questões implícitas: (1) A revolta angolana foi desnecessária porque Angola era desenvolvida antes da guerra colonial; (2) Angola colonial é mais desenvolvida que Angola independente.

A Angola colonial antes da guerra era caracterizada pela exploração directa do trabalho dos angolanos para benefício de Portugal, ao mesmo tempo que se impediam investimentos através de austeridade e violação do direito ao ensino. Tendo em conta que as reformas foram implementadas depois e em reacção à guerra colonial, a revolta angolana não foi irracional – foi contra um estado de opressão e os angolanos tinham o direito de exigir concessões.

Se as construções coloniais são impressionantes, tendo em conta o espaço curto de tempo em que foram realizadas, não existe uma categoria na qual Angola independente não construiu mais e para mais angolanos. A situação era insustentável do ponto de vista político, económico e demográfico.

Na busca de votos brasileiros, o Chega de André Ventura está a defender um regime colonial que condenava Portugal a virar “um país Africano com uma Província Ultramarina na Europa”, nas palavras do General Spínola. Esta contradição seria apenas um episódio cómico, se não tivesse escolhido a história de Angola como seu campo de batalha.

Obviamente que algum bem foi feito por Portugal em Angola, tanto ao nível do Estado como ao nível das pessoas, porém o discurso paternalista e as mentiras de Ventura não podem ser toleradas.

O maior bem que Portugal legou aos angolanos foi um conjunto de fronteiras coerentes e uma cultura que permite a integração de povos numa unidade nacional, a única com futuro no cone austral de África. Somos um segundo Brasil neste aspecto, pois aquele país também uniu pela cultura portuguesa povos que viviam eternas contendas nas suas terras de origem.

Porém ser herdeiro não nos retira a responsabilidade e o dever de traçar o nosso destino, nem deveria nos colocar em situação de subordinação, afinal quantos desperdiçaram talentos maiores.

Do ponto de vista angolano, o assunto já está ultrapassado, como disse o presidente de Angola na entrevista que suscitou a primeira mentira de Ventura: Portugal não é a nossa porta de entrada para a Europa, é um país como qualquer outro.

Viva Angola e Viva Portugal.

A Vangloria e Saudosismo colonial de André Ventura: Blog post

Antes de qualquer discussão sobre os ataques de Ventura contra o Presidente e o povo de Angola, devemos reconhecer que o político português enganou o povo de Portugal sobre o teor das palavras do presidente angolano, João Lourenço.

Estas são as declarações exactas do presidente de Angola: “mal tínhamos acabado de vencer o colonialismo português, que nos oprimiu e escravizou durante séculos, tivemos de enfrentar o regime retrogrado do Apartheid. … como resultado de nossa luta, deixamos para traz 500 anos de colonização, escravatura e humilhação”.

Esta é a mentira que André Ventura disse ao povo Português: “e cito, o colonialismo português escravizou e destruiu os Angolanos durante 500 anos”.

O uso de “e cito” para dar a impressão de que estas são as palavras exactas do presidente Angolano, revela a intencionalidade da manobra de Ventura.

Alias esta foi a segunda, pois ele atacou o presidente angolano por conta de uma resposta genérica sobre a proposta de lei de imigração, em Julho de 2025.

Os países são soberanos, portanto, têm as suas políticas de imigração. Você só recebe na sua casa quem você quer. Ninguém lhe pode impor que o João tem que ter as portas abertas para aquele que manda para lá mesmo sem estar de acordo.

Isso por um lado. Mas, por outro lado, pensamos que não se deve fugir muito daquilo que é a prática internacional em termos de imigração. Se tivermos em conta que hoje são uns, amanhã são outros, ou no passado foram outros. Portugal mesmo é um país de cidadãos que imigram bastante e que não é de hoje. Portanto, o passado de Portugal está muito ligado à imigração para o mundo. Para Portugal e para a América Latina. Deixe-me terminar (tentativa de interrupção pelo jornalista). Os portugueses imigraram para todo o mundo e o mínimo que a gente exige é que Portugal não trate os imigrantes que escolheram Portugal como um destino para fazerem suas vidas, de forma pior a que foram tratados nos países que os acolheram ao longo dos anos. Portanto, é este segmento genericamente o apelo que nós fazemos a Portugal, porque de uma forma geral, se houver exceções, todos os países têm imigrantes. Presidente de Angola, JLO

Ventura acusou JLO de “ingerência”, quando a resposta segue o padrão genérico usado por qualquer chefe de Estado diante de uma pergunta similar:

1- Respeita a Soberania de Portugal, que “pode escolher quem deixa entrar em seu pais”. 2- Pede respeito pelas normais internacionais, “o que se faz internacionalmente em matéria de imigração”. 3- Que se respeite o principio de reciprocidade, “que Portugal trate os imigrantes do mesmo jeito que se tratam seus emigrantes”.

A resposta de JLO reconheceu os direitos do Estado, e por isto povo Português, e apenas cumpriu com seu dever de chefe de Estado de velar pela proteção dos Angolanos no exterior, e alias se aproxima a declarações similares feitas por Marcelo Rebelo de Sousa sobre os efeitos do Brexit sobre os imigrantes Portugueses no Reino Unido.

“Tenho a convicção de que os interesses de Portugal, bem como os dos portugueses a viver e a trabalhar no Reino Unido, continuarão a ser prosseguidos não obstante esta decisão.

Seguirei em todo o caso com grande atenção o evoluir da situação e posso assegurar que Portugal não deixará de apoiar os nossos compatriotas e luso-descendentes no Reino Unido, país ao qual nos ligam sete séculos de história de uma aliança sem par.

Ao fim e ao cabo, o Reino Unido continua a ser, cultural, economicamente e em termos de paz e segurança, um país europeu.”

Renascença – “Marcelo. ‘Brexit’ não põe em causa interesses dos portugueses”
Publicado: 24 de junho de 2016
URL: https://rr.sapo.pt/noticia/politica/2016/06/24/marcelo-brexit-nao-poe-em-causa-interesses-dos-portugueses/57403/

Não estamos diante de um lapso ou um um engano de Ventura, mas diante de uma estratégia pensada, evidente pelo facto de Ventura insinuar que o presidente JLO teria exigido reparações históricas a Portugal.

O líder do Chega fez um vídeo com um pequeno excerto do discurso do presidente angolano. Ouve-se João Lourenço referir-se ao colonialismo português como um período de opressão e escravização, frase à qual se segue a “resposta” de Ventura. Defende que a corrupção está na origem de todos os problemas do país — ideia que sublinha também na descrição do vídeo — e questiona: “Depois ainda querem indemnizações? Ainda querem que Portugal vos venha indemnizar pelo passado que teve em Angola e Moçambique e em todos os países do mundo? Ganhem juízo! Se deixarem de roubar os vossos povos não vão precisar das indemnizações de Portugal”, afirma.

https://www.publico.pt/2025/11/17/mundo/noticia/presidente-angola-nao-pediu-reparacoes-historicas-redes-sociais-2154966

Sem estas mentiras sobre supostos ataques do Presidente de Angola contra Portugal, seu discurso seria visto como uma anomalia, mesmo que verdadeiro, seria como denunciar a ditadura e pobreza da Correia do Norte … do nada. Seria curioso e quixotesco, por isto que Ventura precisa mentir sobre as palavras do presidente de Angola.

André Ventura esta a fazer campanha contra Angola, com uma estrutura partilhada pelos deputados do Chega: (1) os portugueses construiram, (2) os Angolanos despojaram os portugueses, (3) os angolanos estão a oprimir os portugueses (imigração e elite comprada).

Sendo a imigração uma preocupação legitima de parte do eleitorado nativo português, 600 mil votos para o CHEGA nas ultimas eleições autárquicas, Ventura esta a tentar ter um discurso contra estrangeiros que possa mobilizar seus eleitores nativos sem alienar o eleitorado imigrantes Brasileiro, com direito de voto nas eleições autarquias (300 mil) e presidenciais (95 mil), o maior grupo de imigrantes e o mais problemático, mas também o que mais tem tendenciais de votar no CHEGA. Pegar alguns eleitores dos PALOPS que apreciam que se deixam encantar pelo discurso de “luta contra as ditaduras de esquerda”, poderia ser apenas uma cereja no topo do bola mas permite uma forma de escapar acusação de racismo.

A defesa apaixonada que fez de Zelensky, que é mais autoritário e ditatorial que JLO, também se entende quando se sabe os ucranianos são o segundo grupo mais naturalizado do pais, com 34 mil eleitores.

Ventura esta a fazer uma defesa do colonialismo no passado, porque uma defesa no presente antagonizar o grupo imigrante que corteja ao mesmo tempo que preocupa seu eleitorado indígena.

Outra coisa que ouvi nestas intervenções do CHEGA e assimilados, foi que os Angolanos estariam a viver na pobreza, causada pelo seu Governo, e por isto estariam a emigrar para Portugal … Isto serve apenas para alimentar o ego dos portugueses, que se sentem lisonjeados quando diz que criaram riqueza em África e tem aquele desejo quixotesco de se sentirem humanitários, quando na realidade dos factos, a emigração Angolana é uma consequência da prosperidade recente e um fenómeno maioritariamente de classe media. Esta linha de argumentação é querida entre Angolanos para justificar seu desejo de emigrar e fingir que é mais um sinal da situação supostamente desesperadora do pais. A sugestão de ventura, é que se a emigração é causada pela pobreza dos países de origem, então deve se derrubar os governo dos países de origem.

Agora que demonstrei de forma clara a mentira inicial e sua função, vamos agora tratar de cada elemento do discurso de Ventura, de uma forma objetiva e factual, pois o pior que poderia acontecer seria cair na Armadilha Racista e responder com um discurso igualmente idiota, como fizeram alguns Afrocratas Angolanos.

Portugal construiu Angola? Nem de longe.

Quando Ventura diz que Portugal construiu Angola, é evidente que o faz por desprezo e necessidade exaltar o ego portugueses, em um sentimento nacionalista a custa da História de Angola e um insulto no dia de nossa independência, para alimentar o sentimento nacionalista do seu eleitorado na véspera das presidenciais. Se olharmos para os factos históricos e o contexto, Portugal não construiu Angola, e para provar isto coloco as seguintes perguntas: O que foi construído, e quando.

1) Quando é que Portugal construiu Angola?

O mito dos cinco séculos de colonialismo português.

Um dos erros do discurso do Presidente de Angola foi repetir a mentira portuguesa dos “500 anos de colonização”, porém sabendo que isto fez parte da propaganda oficial de defesa do colonialismo português, Salazar emprega esta formula alegando que “as outras potencias são intrusos que entraram com a conferencia de Berlim quando Portugal tem cinco séculos de presença em Angola”, a formula entrou na propaganda do nacionalismo Angola como uma prova que a opressão colonial já durou demasiado tempo e era por isto insuportável.

Na verdade, a presença portuguesa durou cinco séculos apenas no vale do rio Cuanza e na costa de Benguela, com relações diplomáticos e comerciais com os reinos africanos circundantes, em uma área muito menor que as actuais fronteiras de Angola.

Foi com a conferencia de Berlim que Portugal se viu obrigado a ocupar o interior do continente para não perder o acesso ao mercado do interior, tendo em conta o imperativo da ocupação efectiva, sendo a colónia de Angola foi realmente fundada em 1886 e Portugal ocupa o território actual apenas em 1912.

Apesar do Estado Novo já não existir, Angolanos repetem esta mentira para exagerar os crimes de Portugal ao mesmo tempo que os portugueses o fazem para se vangloriar e humilhar Angola.

A Fase Colonial Republica Monárquica.​ (1886 – 1910).

Foi nesta fase que o território foi conquistado em uma seria campanhas que chegaram a absorver 12% do OGE Português.

Em 1892, com a nova pauta aduaneira, as exportações de Portugal para as colónias africanas passaram a pagar entre 10% e 20% dos direitos estabelecidos na pauta geral, enquanto os produtos estrangeiros reexportados para as colónias através de Lisboa pagavam 80% e as exportações directas de outros países para as colónias pagavam o total da tarifa geral.

De forma directa, Angola contribuiu para a economia Portuguesa com de direitos aduaneiros e manipulação cambial, pois as divisas fortes que eram retidas na metrópole enquanto os fornecedores angolanos eram pagos em Angolares ou Escudos coloniais desvalorizados.

De forma indirecta, Angola foi um mercado cativo, que absorvia 15% das exportações portuguesas em 1909, foi a segunda forma de contribuição, indirecta e dificilmente quantificável, porem de modo geral os produtos portugueses eram mais caros e de qualidade inferior as alternativas disponíveis no mercado internacional. Ao mesmo tempo, Portugal reexportava as mercadorias angolanas ao preço de mercado, quando um comercio directo entre Angola e outros países era tecnicamente possível.

Para ser ter uma ideia da importância económica das colónias, deve se ter em conta que a desvalorização da moeda brasileira, na sequência da revolução republicana e da abolição da escravatura, levou a uma redução das remessas dos emigrantes portugueses residentes no Brasil, particularmente depois de1890. Em Portugal, a carência de ouro e de moeda estrangeira daí resultante levou a uma crise no pagamento dos coupons da dívida externa, em 1891, que
tardou a ser resolvida e que levou ao abandono do padrão-ouro. Esta crise financeira teve amplas implicações políticas, embora as suas consequências económicas fossem menos sérias do que em tempos pensaram os historiadores. (Pedro Lains)

Na lista dessas exportações angolanas incluem-se produções controladas por africanos, sem administração nem capitais europeus, como a borracha selvagem, a cera e o pescado, e produções de plantações a cargo de colonos europeus, como o cacau, o café, as sementes oleaginosas e o açúcar. A importância dos produtos de produção nativa decresceu no período entre 1901 e 1936, enquanto as exportações das plantações aumentaram, à excepção do cacau.

Em 1899, um novo código laboral foi aplicado a todos os nativos africanos, impondo um regime de trabalho forçado, de modo a garantir níveis de produção para sustentar as exportações, o que explica em parte a queda da produção nativa.

A colónia tinha apenas 3 cidades, Moçâmedes, Luanda e Benguela, pequenas vilas com povoadas por 9 mil brancos e 3 mil mestiços em 1890, com o maior grupo de imigrantes sendo os degredados, quase 3 mil criminosos portugueses condenados ao exílio, como o famoso Zé do Telhado e que suscitavam a preocupação das autoridades locais, como a Camara Municipal de Luanda (1926 ), que pedia que “limpasse Angola dos elementos prejudicais ao seu progresso, sendo por isto necessária que o povo de Angola seja liberto da presença dos degredados”.

Obviamente que não foi neste período Angola foi “construída”.

A Fase Colonial Republica (1910 – 1928).

Foi neste periodo que se iniciou a primeira fase de investimento em Angola, com o Governador Norton de Matos (1910-1915) a fundar Nova Lisboa e financiar a vinda de 9000 colonos portugueses, número considerável quando sabemos que apenas 35.000 portugueses escolheram emigrar para Angola, de 1900 a 1939, enquanto um milhão escolheram a América (Brasil, Argentina e EUA) no mesmo período.

Como Alto-Comissario (1921-1924), Norton de Matos levou a população total de colonos para 36.000, porém teve de se exilar para Londres e sua política de investimento foi definitivamente interrompida pelo ministro das Finanças de Portugal, António de Oliveira Salazar, que aplicou uma política de austeridade nos gastos colónias de modo, que contribuíram para os problemas financeiros da república, conjuntamente com as despesas decorrentes da primeira guerra mundial.

A fase colonial do estado Novo em tempo de Paz (1928-1961)

Parece um paradoxo iniciar este período antes da tomada de poder de Salazar e o estabelecimento do Estado Novo, porém a acção política de Salazar tem uma consistência em todos os cargos que ocupa, desde o ministério das Finanças a presidência do concelho, e que pode ser resumida para seguintes princípios: 1) Centralização administrativa, 2) o equilíbrio das contas públicas e dos saldos comerciais das colónia , 3) orientar os fluxos comercias em beneficio de Lisboa com Acto colonial de 1930 (sem precisar passar fisicamente por Lisboa, mas por meio de controle cambial), 3) austeridade nas coloniais (diminuição das dos investimentos).

Em “Em Portugal e o Futuro”, Spinola cita este desvio da vocação histórica de Portugal na década de 30, na tradição da proposta de Norton de Matos, como causa do beco sem saída das guerras coloniais.

Neste período, a exploração da mão de obra continua a ser a maior fonte de renda de Angola, não apenas na forma de trabalho sub-remunerado, mas também na forma de exportação de trabalhadores para as minas da Rodésia e África do Sul.

No final dos anos 50, são feitos os primeiros grandes investimentos em Angola com programas de incentivo a colonização (Cela, Santa Comba), Construção de barragens, e que Luanda adquire parte de sua estrutura moderna (Marginal construída em 1951).

A fase colonial do Estado Novo em tempo de Guerra (1961-1974)

Este foi efectivamente o período de investimento em massa em Angola, que foi superior ao investimento feito antes da guerra colonial.

A infraestrutura que suscitam a vangloria do Ventura, e seu rebanho do Chega, foi construido na década de 60 e 70, o que esta evidente no (1)aumento do numero de colonos, que serve de medida indirecta pois seus estilo de vida moderno necessitava mais investimentos que o trabalhador nativo, (2) em projectos que documentam a legado arquitectónico em Angola (Luanda Antigamente, hpip.org, etc) e nos quais a maioria das construções são feitas nos anos 60, algumas nos anos 50, porem apenas Luanda tem um numero de construções significativas anteriores a 1940, o que se entende pelo facto da cidade sempre ter sido um entreposto comercial com uma população local de comerciantes e laços comerciais com o interior.

Para Angola, rapidamente e em força !

“Para Angola, rapidamente e em força” foi a ideia central do discurso do Presidente do Conselho, António de Oliveira Salazar, no dia 13 de abril de 1961, em que anuncia a sua decisão de defender Angola depois dos ataques da UPA/FNLA no norte de Angola. Porem a escalada não foi apenas militar, mas também colonial, com as verbas com investimento na infraestrutura multiplicada por dois e o número de colonos dobrando em 12 anos, chegando ao seu máximo de 400 mil pessoas em 1974, sendo que foram para estes que se construíram as grandes cidades, os hospitais, as escolas e estradas.

As cidades existentes são ampliadas para acomodar os novos colonos e um milhão de Africanos são deslocados para aldeias protegidas para cortar seu laço com a guerrilha, sendo que inicia neste tempo o primeiro programa de escolaridade em massa para angolanos autóctones.

Foi esta fase da colónia que ficou na mente popular, ocultando a ausência de desenvolvimento dos primeiros 33 anos de governo do Estado Novo.

Copiando Norton de Matos … com 33 anos de atraso.

Norton de Matos, primeiro como administrador e depois candidato a presidência 1949, e sintetizado no seu livro “África Nossa”, tivera proposto um programa que se assemelha com as Reformas que Salazar implementa em resposta a guerra colonial: 1) Fomento ao povoamento português, 2) investimento em infra-estruturas, 3) respeito dos direitos dos autóctones. Estas propostas foram rejeitadas por Salazar, as duas primeiras ainda como Ministro das Finanças por conta de seu foco no equilíbrio das contas em favor da Metrópole, e a ultima pela sua promulgação do Acto Colonial que ampliava o uso do trabalho forçado, contrariando a política humanista protectora dos direitos laborais dos indígenas perfilhada por Norton de Matos em Angola e por Brito Camacho em Moçambique, de 1921 a 1924, que incomodou os interesses burgueses de grupos de colonos e tiveram ganho de causa com o Acto Colonial que consagrou o principio de trabalho forçado para os indígenas, o famoso contrato. Claro que se pode interpretar o contrato como uma forma de imposto necessário para financiar o funcionamento do Estado e o investimento em infraestrutura, porem os benefícios decorrentes destes não eram usados para o benefício de Angola de modo geral e muito menos dos indígenas de modo particular, pois mesmo um investimento em infraestrutura para os colonos teria o efeito inevitável de tornar a economia mais eficiente e baixar os custos para todos, incluindo os indígenas.

A Diamang, um caso típico de exploração e abandono.

A Diamang, fundada em 1917, representa um resumo interessante da política de exploração da mão de obra angolana sem investimentos, pois gozava do privilegio de mobilização de trabalho forçado em 1921 , o shibalo por meio dos chefes de postos, mas so investiu em meios de transportes para levar estes nas minas em 1948, sendo que durante 27 anos os Angolanos já privados de sua liberdade ainda deveriam viajar a pé ate as minas da Lunda, alguns percorrendo até mesmo 1000 quilómetros(trabalho forçado Africano, o caminho da Ida,CEAUP, pg 161). O desgaste do percurso era tal que os oficiais da Diamang chegavam a recusar recrutas que chegavam estropiados, por conta da fome, das chuvas, das travessias dos rios e de enfermidades contraídas no percurso. Enquanto isto, as receitas do Estado Português decorrente das activadas da Diamang, de 1928 a 1961, chegavam a 8 bilhões de dólares … dinheiro suficiente para investir em infraestruturas ou serviços públicos para as populações indígenas, porem este dinheiro foi usado para benefício de Portugal.

O mito do Desenvolvimento colonial, e a realidade do Trabalho forçado.

Ventura e Saudosistas do tempo colonial evidenciam o fracasso de Angola por conta da queda da produção agrícola depois da independência, pois o território era um dos maiores produtores de café, de algodão e outros produtos.

Porém, qual era o factor decisivo que permitiu esta produção ? Não era a qualidade dos solos, que oscila entre péssima a media em Angola, nem sequer era o investimento em capital (infraestruturas ou mecanização), mas a disponibilidade de trabalho forçado indígena. As primeiras iniciativas de saúde publica de Angola eram motivadas pela ameaça do despovoamento, pois era a mão de obra mais escassa que o capital e a terra em Angola.

Neste caso, a queda da produção depois da independência evidencia apenas o carácter insustentável da actividade colonial, que não era económica no sentido que o custo real do trabalho era suprimido pelo poder do Estado. O desenvolvimento passa pela acumulação progressiva de capital que permite aumentar a produtividade por trabalhador e aumentar sua qualidade de vida sendo que o trabalhador é mais produtivo depois de no seu vigésimo ano de trabalho do que no seu primeiro, se for a mesma pessoa por acumulo de experiência e se forem diferente por investimentos em maquinas, porém em actividades de trabalho forçado e escravo, a produtividade do contratado é igual no seu primeiro e ultimo ano, isto para não falar de suas condições de vida.

Claro que a abolição do Estatuto do Indigenato, em consequência da revolta Angolana, iniciava a derrocada do sistema e a necessidade de investimentos para sustentar a produtividade, mas não podemos definir a obra colonial pelos seus 13 anos de progresso apenas e esquecer os 33 anos de exploração da mão de obra indígena, especialmente quando a mudança foi imposta pelos Angola e não foi um acto de benevolência portuguesa.

O fim da exploração do Homem, pelo homem.

Se a Diamang ainda esta na lógica da exploração do trabalho indígena, ao ponto que revogação do estatuto do indigenato leva a uma melhoria substancial das condições de vida dos trabalhadores, a abertura ao capital estrangeiro permite a descoberta e valorização de recursos que não requerem a exploração da mão de obra nativa, especificamente o Petróleo de Cabinda e as minas de ferra de Cassinga. Estes novas fontes de receitas vão financiar o crescimento económico e urbano na colónia na década de 1960, ao ponto que o petróleo ultrapasse o café como principal produto de exportação de Angola, que passa assim de uma colónia de exploração de mão de obra indígena a petro-estado com uma fonte de receita desligada da actividade economia local, Angola independente herdou esta nova realidade económica.

Quanto foi extraído de Angola ?

Se temos de não apenas “agradecer pela infraestrutura que nos dignidade” e ainda aturar o olhar paternalista, deveríamos perguntar quais eram as receitas disponíveis, sendo que caímos sempre o mesmo contraste criado pela revolta angolana.

Se tivermos em conta apenas os ganhos directos, e não os indirectos como no paragrafo anterior, a economia portuguesa tinha ganhos com Angola estimados em $1 bilhão em 1957 (Portuguesa Africa, a Textbook), sem investimentos relevantes na colonia angolana e este valor pode ser extrapolado até pelo menos 1961.

Fonte: Portuguese Africa, a Textbook, D.M. Abshire.

Antes da revolta Angolana de 1961, a maior fonte de riqueza era o trabalho indígena, usado na agricultura de produtos de exportação (Sisal, café, e trabalho forçado de maneira geral), apesar da Diamang usar trabalho forçado de modo geral, o valor de venda dos diamantes excede largamente o valor do trabalho empregue na sua extração e por isto podemos o contar como uma receita mineira. Os meios indirectos, como controle de preços e manipulação cambial, são uma maneira indirecta de extrair riqueza da população nativa, obrigando esta a consumir produtos mais caros do que as alternativas disponíveis no mercado internacional, ao beneficio de firmas e produtores portugueses.

Depois da Revolta Angolana, a extração de riqueza cresce e se afasta da exploração da mão de obra indígena, com investimentos em exploração mineira que agora constituem 33% quando antes eram 25% da actividade económica.

Este aumento da actividade mineira foi possível graças a investimentos executados no quadro do Terceiro plano de desenvolvimento, que previa investir dois terços das verbas em minas e industria. Os capitais eram maioritariamente Angolanas, tanto na forma de receitas publicas do governo local (31%), como de investimento privado de empresas que queriam operavam no mercado angolano (23%), e finalmente de investidores estrangeiros (43%).

Antes da guerra colonial, Salazar aplicou uma política de equilíbrio de contas que impedia o investimento em Angola de capitais Angolanas, que eram usados em prol de Portugal para compensar a baixa taxa de poupança portuguesa, ao mesmo tempo que opunha seu veto ao investimento de capital estrangeiro em Angola. O Presidente de Angola não levantou o argumento de “Portugal atrasou Angola”, isto foi uma mentira de André Ventura, porém diante dos factos, esta claro que sem a revolta Angolana, nenhuma das mudanças necessárias para criar a prosperidade da década de setenta seriam possíveis.

Reproduzido em Portuguesa Africa, a Texbook.

Claro que as guerras, que antecedem e que seguem a independência, com o caos da limpeza étnica contra a população portuguesa de Angola, destruíram uma parte significativa da economia e do capital de Angola, porém discussões sobre o potencial agrícola de Angola que usam a fase colonial como ponto de comparação nunca consideram a realidade que o desempenho agrícola de Angola dependia de mão de obra sub-remunerada, sendo politicamente impossível a sua sustentabilidade no contexto de um pais independente quando foi um dos motivos da revolta e luta pela independência. O facto que apenas um terço da economia não dependia da exploração mão de obra nativa explica a contração da economia Angolana depois da independência.

O que foi construido em Angola.

As infra-estruturas magicas Portuguesas …

Agora que já vimos quando Portugal construiu Angola e como financiou Angola, a pergunta que resta saber é se estas obras “dão dignidade aos Angolanos”, como disse um deputado do CHEGA em uma entrevista.

O carácter absurdo do argumento não é surpreendente, sabendo que estamos diante de uma corja de mentirosos que exploram as tendenciais xenofóbicas de seus eleitores, mesmo que a preocupação com a imigração em massa seja legitima, mas deve se reconhecer a coragem de sugerir que infraestruturas construidas para 400.000 colonos estariam a dar dignidade para 36 milhões de Angolanos, ao menos que a definição de dignidade seja estar apertados como sardinhas ou estas infra-estruturas tem um carácter elástico que se adapta a um numero infinito de Angolanos. Alias, esta Angola que usava as infra-estruturas coloniais, para o beneficio de uma minoria de Angolanos ao invés de uma minoria portugueses, existiu entre 1977 e 1990, e apesar da guerra e dos problemas económicos, não podemos negar que sair foi um incremento de qualidade vida significativo.

Devemos notar que o quadro muda em 1992, quando Savimbi submerge as cidades Angolanas de refugiados, com o objetivo de criar uma crise de refugiados e infiltrar seus homens, o que muda definitivamente a demografia de Angola e cria o fenómeno da maioria urbana a nivel do pais, com um fenómeno de explosão demográfica dentro das cidades, foi neste momento que se vive os limites da infraestrutura colonial, especialmente em Luanda, e quem visitasse Angola em 2002 teria realmente a impressão de estar ainda a viver na cidade abandonada pelos portugueses em 1974, especialmente porque os esforços Angolanos eram limitados tanto pela austeridade e destruição imposta pela guerra.

Porém, de 2002 ao presente, a infraestrutura colonial foi eclipsada pelo investimento Angolano em infraestruturas, isto em todas as categorias.

As algemas douradas, a mentalidade do escravo.

Se definirmos a pobreza como a ausência de infraestrutura e rendimentos que permitem ter uma estilo de vida urbano moderno, os 350 mil Angolanos que viviam nos musseques e bairros populares, uma minoria, seriam uma classe media Africana, usufruindo de condições de vida superiores ao Africanos que viviam nas aldeias.

O Estado de Angola seria um fracasso por ter 6 milhões de Angolanos de classe media em um pais com 36 milhões de pessoas , mas a Província de Angola seria um sucesso com 400.000 Portugueses e 370.000 Angolanos de classe media com uma população de 6 milhões de Angolanos ? Se ainda não esta evidente, temos 16% de Angolanos de classe media hoje, quando tínhamos apenas 6% de classe media em 1974, porém sem se ter em conta a qualidade de vida dos musseques coloniais, aonde residia a vasta maioria dos Angolanos em 1974, é nitidamente inferior a qualidade de vida das centralidades, condomínios e bairros nobres da Luanda independente … nos dois casos, a maioria da população vive na pobreza, mas no primeiro temos uma elite nacional e no segundo uma elite estrangeira.

Obviamente que a qualidade vida dos Portugueses de classe media em 1974 era superior a qualidade vide dos Angolanos de classe media actuais, porém porque que isto seria melhor do ponto de vista Angolano ?

A preocupação hipócrita com a pobreza.

Se a pobreza colonial era consequência directa da exploração directa e indirecta do governo colonial (trabalho forçado e manipulação cambial), a pobreza na Angolana moderna é endógena a população pobre, sendo que a natureza insular da renda petrolífera não requer a opressão da população para gerar riqueza, alias esta funcionou de maneira normal até mesmo em cenários de perca total do pais, como aconteceu em 1974 e 1992. O facto da riqueza poder ou não ser usada para o beneficio dos pobreza sendo apenas um detalhe secundário na comparação.

Se eu atropelo alguém e retiro deste acto um beneficio antes de me recusar a prestar assistência a vitima, tenho responsabilidade penal e moral maiores do que alguém que recusa-se a prestar assistência a um atropelado que encontrou na via publica, ou seja alguém cujo o infortúnio não é da sua autoria.

Resumindo, Angola portuguesa seria um sucesso porque era confortável para uma minoria de portugueses, mas Angola angolana seria um fracasso por ser confortável para uma minoria de angola …

As infra-estruturas magicas Portuguesas ; Hospitais.

Para todas as colónias portuguesas em 1952: No conjunto das colónias portuguesas, existiam 107 hospitais, 145 enfermarias e 603 postos sanitários, sendo que os grandes hospitais de Angola em 1974 eram o Maria Pia, o Hospital Militar, e os hospitais centrais das cidades de Nova Lisboa, Sá da Bandeira, Lobito, e Moçâmedes. Porém não existe um estudo ou relatório sobre o numero de hospitais e camas, disponíveis em Angola, seja para Angolanos ou Portugueses, sendo que só nos resta deduzir que haveria o numero suficiente de unidades para acudir a população urbana ao menos, constituída de 400 mil brancos e 500 mil Africanos. Sendo que a cidade em si já tem uma população que supera este numero, com 8 milhões de habitantes, estamos diante de uma impossibilidade matemática.

Para Angola independente, 189 unidades sanitárias foram construídas nos últimos sete anos (até julho de 2024), das quais 54 no âmbito do Programa de Investimentos Públicos (PIP) e 135 no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), aumentando o total para 3.344 unidades sanitárias em todo o país.

https://www.giranoticias.com/sociedade/2024/07/19877-construidas-em-angola-189-novas-unidades-sanitarias-em-sete-anos.html

Angola conta atualmente com mais de 42 mil camas hospitalares, tendo registado aumento do número de camas do SNS de 24.382 em 2019 para 29.912 em 2021, sendo que o minimo de camas disponiveis em 2002, ano que o pais ainda “dependia dos hospitais do colono” era de de 13 mil camas …

Habitação .

As cidades que Portugal construiu em Angola datam da década de 1960, no quadro da política económica e militar do Estado Novo, “para Angola, rapidamente e com força”, sendo que albergavam a maioria dos 400 mil portugueses residentes na colónia, caracterizadas maioritariamente por prédios residenciais com estabelecimentos comerciais no rés de chão. Sendo que 400 mil angolanos era acomodados nos bairros populares e nos musseques.

Angola independente construiu centralidades para 268 mil habitantes de classe media e o Projecto Zango, que é um análogo dos Bairros Populares, conta com mais de 600.000 habitantes em projecto que mistura casas sociais e terrenos urbanizados. Ou seja, o Governo Angolano duplicou a oferta de imóveis residenciais dentro da Capital, isto sem contar as e ainda construiu mais centralidades para 200.000 habitantes no resto do pais. Uma prova disto foi a queda do preço das casas entre 2016 a 2021, de pelo menos 30%, atribuída a crise económico ou poder de compra, mas que se entende quando a oferta é aumentada.
https://www.angocasa.com/artigos/noticias/angocasa-lanca-relatorio-sobre-a-perspetiva-de-evolucao-do-mercado-imobiliario-angolano-em-2022/

Se incluirmos as o fomento imobiliário privado, que permite colocar residenciais antigas a disposição da classe media e pobre, existiu um aumento generalizado da oferta de residenciais para todas as classes sociais, a medida que a classe media migra para as centralidades e bairros nobres, alugando seus apartamentos no centro da cidade antes associado a classe alta.

Educação

Estamos diante de um cenário similar a saúde e habitação, mas de maneira ainda mais clara.

Em 1927, o Diploma legislativo n.º 518 de 16 de Abril decretou o plano geral de remodelação do ensino primário, estabelecendo dois ramos assimétricos: o ensino para os europeus e assimilados e o ensino para os indígenas

Diploma Legislativo n.º 238 (17 de Maio de 1930), institucionalizou a separação dos objectivos de cada tipo de ensino: o ensino indígena tinha por fim “elevar gradualmente da vida selvagem à vida civilizada dos povos cultos a população autóctone das províncias ultramarinas”, e o ensino primário elementar para os “não indígenas que visa «dar à criança os instrumentos fundamentais de todo o saber e as bases de uma cultura geral, preparando-a para a vida social».

Acordo Missionário de 1941 entregou às Missões Católicas a responsabilidade integral do “ensino rudimentar” (mais tarde designado “ensino de adaptação”) para indígenas. As escolas católicas foram reconhecidas como oficiais. As Missões Protestantes mantiveram o mesmo tipo de escolas, mas sem reconhecimento oficial.

O mito da portugalidade no ensino colonial: a história e a razão metonímica, 2014

https://journals.openedition.org/mulemba/263

LIBERATO, Ermelinda. Avanços e retrocessos da educação em Angola. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, v. 19, n. 59, p. 1003-1031, out.-dez. 2014. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rbedu/a/Dn4CYmKD5W5dw4ygQLBCxzN/

Aliás, apesar da instrução ser uma exigência para se ‘progredir’ ou ‘aprovar’ de ‘indígena’ a ‘assimilado’, em “1958, o número de analfabetos (negros e mestiços) em Angola situava-se em 4 009 911, o que representava 96,7% da população” (Noré & Adão, 2003,p.105). Sendo que na vespera da independencia de Angola, 75% da população de Angola era analfabeta.

SISTEMA EDUCATIVO ANGOLANO: PROCESSOS DE DESCONSTRUÇÃO, CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃO DOS SEUS FINS E ESTRUTURA

Com o inicio da guerra colonial, seguindo o espírito da abolição do Estatuto do Indigenato, a distinção entre dos ensinos é eliminada e o numero de alunos aumentou consideravelmente.

Para o período 1928-1961:

De 1926 a 1941 [o ensino para “indígenas”] teve pouca expressão: em 1929/30 contava apenas com cerca de 2000 alunos, metade nas “escolas-oficinas”, metade nas “escolas rurais”. (Liberato, 2014, p. 1007; baseado em Pélissier & Wheeler, 2011)

Para 1959/60:

Durante os anos 1940 e 1950 verifica-se nestes sectores um crescimento contínuo, embora lento. Em 1959/60 encontram-se quase 70 000 alunos nas escolas de adaptação. […] Perto de 290 000 crianças frequentam as escolas de catequese das Missões Católicas, que não fazem parte do sistema “oficial e oficializado” de ensino (Liberato, 2014, p. 1007-1008).

Para 1972/73:

Em 1972/73, o total dos alunos tinha quadruplicado em relação a 1961/62: o seu total era ligeiramente superior a 600 000 – mais de 500 000 no ensino primário, cerca de 75 000 no ensino secundário, mais de 3000 no ensino normal. (Liberato, 2014, p. 1011)

Para o ensino superior:

No ano letivo de 1973/1974, a Universidade de Luanda albergava já “2.354 alunos, ensinados por um corpo docente de 274 elementos” (Gulbenkian, 1987, p. 16). (citado em Liberato, 2014, p. 1012)

Um outro deputado do Chega disse que “os Angolanos deveriam agradecer pela língua que receberam”, porém se dependêssemos do investimento colonial não falaríamos português, o que é paradoxal com a imagem de Angola como uma das ex-colónias mais ocidentalizadas e com uma das guerras de independências mais violentas. O desejo Angolano por educação, como forma de emancipação e ascensão social antecede até mesmo o governo colonial, como se pode ver nos comerciantes letrados Ambaquistas, satirizados de maneira vergonhosa por Uenga Xito em Mestre Tamoda, mas que tem a sua culminação em António de Assis Júnior e seus “relato dos Acontecimentos de Dalatando”. Não se trata de um fenómeno circunscrito ao corredor do cuanza, que se gosta diminuir a noção simplista de assimilação, pois o florescimento das escolas missionarias entre os bacongos do norte e dos ovimbundus do Planalto, acoplado aos 290.000 alunos da catequese, demonstra uma vontade dos povos de Angola de abraçar a educação como instrumento do progresso, criando assim raízes profundas e autóctones para a língua portuguesa em nosso pais, que foram fortificadas pela rejeição de tribalismos arcaicos e casamentos mistos no ambiente urbano.

O Congo Belga, em contraste, teve uma política publica de civilização dos autóctones mais agressiva, com escolaridade compulsiva e universal, porém a língua francesa segue um recuo constante diante da “lingalização” da cultura.

Não falamos português porque fomos colonizados, falamos português porque somos Angolanos.

Infraestruturas.

Em uma de suas intervenções, André Ventura dizia que os Angolanos deveriam pagar pelas pontes, barragens, estradas e outras infraestruturas …

Estradas:

A rede de estradas asfaltadas de Angola passou de 400 km em 1960 para 7000 km em 1972, em grande parte em zonas de maior acção militar anti-guerrilha. Cf. entre outros Bender (1976: 253, n. 55), chegando a 10.000kz em 1975.

Entre 2002 e 2024, o governo angolano fez obras de construção e reabilitação em dezenas de milhares de quilómetros de estradas, e o comprimento total de estradas asfaltadas no país chegando a 19 mil km asfaltados em 2024.

Barragens.

Nas barragens a capacidade instalada depois da independência supera de longe as obras portuguesas, ao menos que a electricidade Portugal tenha um brilho magico.

A imagem abaixo ilustra de maneira clara a mudança positiva da política colonial de Salazar depois da revolta angolana.

O Significado deste discurso.

Nestas comparações entre Angola angolana e Angola portuguesa, existe duas questões implícitas: 1) A revolta Angolana foi desnecessária porque Angola era desenvolvida antes da guerra colonial, 2) Angola colonial é mais desenvolvida que Angola independente.

A revolta Angolana foi desnecessária ?

Como vimos, a antes colonial antes da guerra colonial era caracterizada pela exploração directa do trabalho dos Angolanos para o beneficio de Portugal Metropolitano, ao mesmo tempo que se impedia investimentos, na forma de austeridade e violação do direito a ensino (vagas publicas limitadas e ensino religioso não reconhecido).

Tendo em conta que as reformas foram implementadas depois, e em reacção a guerra colonial, a revolta Angolana não é de todo irracional, afinal foi contra um estado de opressão e os Angolanos tinham o direito de exigir mais concessões ou esperar por uma solução negociada favorável.

Angola colonial é mais desenvolvida que Angola independente

Se as construções coloniais são efectivamente impressionantes, tendo em conta o espaço curto de tempo em que foram realizadas, ainda assim como vimos com os dados deste artigo, não existe uma categoria na qual Angola independente não construiu mais e para mais Angolanos. Suposições fantasiosas sobre o que poderia ter sido um governo colonial indefinido seria apenas uma perca de tempo, a situação era insustentável do ponto de vista político, económico e mesmo demográfico.

A contradição nos pastos do Chega.

Na busca de votos Brasileiros necessários para salvar Portugal da submersão por imigração, o Chega de André Ventura esta a defender um regime colonial que condenava Portugal a virar “um país Africano com uma Província Ultramarina na Europa”, nas palavras do General Spínola … esta contradição seria apenas um episódio cómico, se o amante de ervas zairenses não tivesse escolhido a historia de Angola como seu campo de Batalha. Viva Angola e Viva Portugal.

A economista sem sentido de Carlos Rosado: Turismo ao contrário.

A Proposta de Rosado e Suas Falhas Fundamentais

O Economista e professor de Economia Carlos de Rosado de Carvalho proferiu mais um contra-senso lógico, económico e histórico durante um programa da MFM, quando disse que “Estrangeiro não, nós temos de começar pelo turismo nacional, pelo turismo interno”.

Primeiro, do ponto de vista lógico, não faz sentido dar prioridade, ou seja “começar primeiro” (sic), ao turismo interno quando o número de turistas nacionais se limita a uma fracção ainda menor da população. **Considerando realisticamente apenas aqueles com rendimento acima de 5 milhões de kwanzas por ano (~$5.411 USD) como tendo capacidade efectiva para turismo — a verdadeira classe média com rendimento disponível para actividades de lazer — o mercado reduz-se a talvez 1-2 milhões de pessoas no máximo, concentradas principalmente em Luanda.** Estes são funcionários públicos de nível superior, gestores do sector formal e empresários, que representam uma elite económica num país onde o PIB per capita é de apenas $2.333.

**Mesmo entre esta classe média alta, o poder de compra para turismo é dramaticamente inferior ao dos turistas internacionais.** Um angolano que ganha 5 milhões de kwanzas anuais (~$5.411) tem um rendimento disponível de aproximadamente $4.491 após impostos e contribuições, do qual destinará entre $135-$225 anuais para gastos em hospitalidade e lazer — cerca de 3-5% do rendimento disponível. **Compare isto com um turista internacional: um turista chinês gasta em média $2.260 por viagem, ou seja, 10 a 17 vezes mais numa única viagem do que um angolano de classe média alta gasta em hospitalidade durante um ano inteiro. Um turista americano, gastando $2.645 por viagem, gasta 12 a 20 vezes mais. Um turista alemão ou português, com gastos de $1.800-$2.400 por viagem, gasta 8 a 18 vezes mais.**

**Isto significa que um turista internacional gasta numa semana de férias o equivalente a 1-2 anos de gastos em hospitalidade de um angolano de classe média alta.** Com uma inflação de 28,2% que corrói este poder de compra e apenas 1-2 milhões de pessoas nesta faixa de rendimento, **o mercado doméstico total para turismo gera talvez $135-$450 milhões anuais, enquanto atrair apenas 200.000 turistas internacionais geraria $450-$530 milhões — o mesmo volume com uma fracção dos visitantes.**

Ora, porque se limitar a 1-2 milhões de clientes que gastam $135-$225 anuais quando existe um universo de milhões de turistas internacionais potenciais que gastam $2.000-$2.600 por viagem? **A diferença não é marginal — é uma ordem de magnitude diferente. Enquanto precisaríamos de 10-20 visitas de angolanos de classe média para gerar o mesmo que uma única visita de um turista internacional, o esforço de marketing, infra-estrutura e facilitação é similar ou até menor para o turista internacional (que não precisa de financiamento, tem menor sensibilidade a preço, e traz divisas novas versus rearranjo de moeda local).**

**Para ilustrar a dimensão desta diferença: o mercado doméstico completo de 1-2 milhões de angolanos de classe média alta, gastando $135-$225 cada por ano, gera $135-$450 milhões anuais. O Brasil, com o seu mercado doméstico massivo de 217 milhões de habitantes e PIB per capita de $8.917, gera $112,3 mil milhões em turismo doméstico. A diferença? Escala populacional de 6x e poder de compra 4x superior criam um mercado 250 vezes maior. Angola simplesmente não tem a base demográfica nem económica para replicar o modelo brasileiro — e tentar fazê-lo seria desperdiçar recursos escassos perseguindo uma miragem.**



## A Realidade da Infraestrutura Hoteleira: Já Existe, Mas Não Pode Ser Rentabilizada pelo Mercado Doméstico

Angola enfrenta um paradoxo económico que expõe a inviabilidade da proposta de Rosado: **o país possui infraestrutura hoteleira de padrão internacional operando a apenas 30% de capacidade em Luanda e 10-15% no interior**, mas não pode baixar os preços para níveis acessíveis ao mercado doméstico sem inviabilizar completamente as operações. Luanda cobra entre $228-301 por noite em média, com hotéis 5 estrelas a $240-475 — preços que colocam a cidade como a 9ª mais cara do mundo para alojamento.

**A inauguração recente de três gigantes ilustra o problema:** O InterContinental Luanda Miramar (377 quartos, $276/noite, inaugurado 2022), o EPIC SANA Luanda Hotel (288 quartos, $240-248/noite), e o renovado Hotel Trópico (280 quartos, $276-364/noite) trouxeram **945+ novos quartos de luxo ao mercado**. Resultado? A taxa de ocupação permanece em 30%. Não por falta de qualidade — o EPIC SANA tem avaliação 8.7/10 — mas porque **não existe mercado doméstico capaz de preencher esta capacidade a preços viáveis.**

**A matemática da impossibilidade é brutal.** Consideremos o Hotel Trópico: custos operacionais de $80-120/quarto/noite (energia cara, pessoal qualificado escasso, alimentos importados), investimento inicial de $40-60 milhões, custo de capital de $4,8-9 milhões/ano. **Break-even: $150-180/noite com 60-70% ocupação.** Agora compare com o que um angolano de classe média pode pagar: rendimento disponível de $200/mês, gasto razoável em lazer de 5% = $10/mês, preço máximo viável para 2 noites/ano = **$25-40/noite**. O abismo é de 4-6x. Não há “meio-termo” possível — a diferença não é marginal, é estrutural.

Esta infraestrutura foi construída com custos internacionais (importação de equipamentos), opera com custos internacionais (energia caríssima, ingredientes importados), e **só pode ser rentabilizada com receitas internacionais**. Tentar preencher estes hotéis com turismo doméstico a preços “acessíveis” seria como operar um Boeing 777 com bilhetes de autocarro, vender Mercedes-Benz a preços de bicicletas, ou manter hospitais privados cobrando preços de clínicas de bairro. A infraestrutura entraria em colapso, os investimentos seriam perdidos, e Angola ficaria **sem** infraestrutura hoteleira de qualidade.

**A evolução histórica dos preços confirma a dependência do turismo internacional.** Durante a crise 2016-2021, a taxa de ocupação colapsou para 25%, mas os preços mantiveram-se elevados (custos fixos em dólares). Na recuperação pós-pandemia 2022-2024, a taxa subiu ligeiramente para 30%, mas os preços **aumentaram 36%** — de $350 para $475 em hotéis 5 estrelas. Aparente contradição? Não. Os poucos clientes que ficaram são turistas de negócios internacionais (petróleo, construção) que pagam preços premium cobertos por empresas. **O mercado ajustou-se para maximizar receitas de um volume menor de hóspedes de alto valor — exactamente o oposto de uma estratégia de turismo doméstico.**

E para piorar: Angola cobra 2-3x mais que destinos competitivos. Enquanto Luanda cobra $475/noite em hotéis 5 estrelas, Cidade do Cabo cobra $150-250, Nairóbi $120-200, Kigali $100-180, até Lisboa cobra apenas $150-280. Esta estrutura só é sustentável porque o mercado depende de profissionais do sector petrolífero, eventos corporativos e expatriados de longo prazo. **Todos segmentos internacionais. O mercado doméstico angolano simplesmente não aparece nesta equação — porque não pode.**



## A Lição Universal das Indústrias Nascentes: Sempre Começam pelo Luxo

Segundo, do ponto de vista da ciência económica, quando se estabelece uma nova indústria, dá-se prioridade ao segmento de luxo para que este possa custear os investimentos necessários e uma taxa de rentabilidade suficientemente alta para lidar com as incertezas sobre a viabilidade a médio e longo prazo.

Foi assim, por exemplo, que os primeiros telemóveis eram bens de luxo que custavam quase 10.000 USD, sendo que agora podem-se encontrar aparelhos a menos de 100 USD com melhores funcionalidades, pois os custos de pesquisa e fabrico foram amortizados pelos clientes de luxo, permitindo assim uma economia de escala. **Este princípio aplica-se perfeitamente ao turismo: atrair 10.000 turistas internacionais que gastam $2.260 cada gera $22,6 milhões em receitas, comparado com apenas $386.000 de 100.000 turistas domésticos — um multiplicador de 58 vezes mais receitas com apenas 10% do volume de visitantes.** Se Rosado fosse um consultor do sector, iria advocar primeiro uma massificação para clientes pobres e por isto atrasar o crescimento do sector.

Este padrão não é acidental — é um padrão histórico universal documentado em todas as indústrias nascentes dos últimos 120 anos. **Os telemóveis custavam $12.000 em 1983 e só chegaram aos actuais $50-100 após 40 anos de receitas premium que financiaram I&D de $50+ mil milhões. O primeiro Ford Model T custava o equivalente a $28.000 (1,5 anos de salário médio) e Ford não baixou preços até acumular capital suficiente para inovar a linha de montagem — tentar vender barato desde o início teria resultado em falência imediata. A aviação comercial cobrava $8.200 por uma passagem transatlântica em 1939 (27% do rendimento anual médio), e só os passageiros ricos dos primeiros 20 anos financiaram os $100+ mil milhões necessários para construir aeroportos e desenvolver aviões a jacto. Computadores pessoais custavam $6.500 em 1977 e só early adopters corporativos e entusiastas ricos permitiram à indústria sobreviver até atingir economias de escala.**

**O padrão é invariável: Luxo (anos 0-15) → Escala (anos 15-30) → Massa (anos 30+). Todas reduziram preços 80-99% ao longo de 25-50 anos, mas nenhuma tentou massificar prematuramente.** As que tentaram — países socialistas com automóveis “populares” subsidiados como Trabant e Lada — produziram produtos horríveis, empresas cronicamente deficitárias, e eventualmente falência.

**Angola está na Fase 1 do turismo** (infraestrutura recente, custos elevados, procura doméstica inexistente) e Rosado propõe saltar directamente para Fase 3. Seria como vender iPhones a $50 em 2007 quando o custo de produção era $240, ou Ford Model T a $100 em 1908 quando custava $600 produzir. **O gap actual de Angola — hotéis precisam $150-180/noite para sobreviver vs. angolanos podem pagar $25-40/noite (diferença de 5-6x) — é perfeitamente normal e esperado numa indústria nascente.** Telemóveis em 1985 tinham gap de 10x, automóveis em 1910 tinham gap de 9x, aviação em 1940 tinha gap de 10x. Todos resolveram vendendo primeiro a quem podia pagar, acumulando capital, investindo em eficiência, e **só então** massificando décadas depois.

**Propor que Angola faça turismo doméstico primeiro é propor que Angola ignore 120 anos de história industrial e repita os erros que o mundo inteiro já aprendeu a evitar.**



## Evidência Histórica: Nenhum País Pobre Começou pelo Turismo Doméstico

Terceiro, não existe nenhum exemplo histórico de um país que tenha iniciado a sua indústria turística pelo segmento interno. **A investigação histórica é inequívoca: nenhum país de baixa renda construiu uma indústria turística sustentável priorizando o mercado doméstico nas fases iniciais de desenvolvimento.**

### O Brasil Mal Interpretado e a China Que Destroi o Argumento de Rosado

O exemplo usado pelo Rosado, o Brasil, que supostamente “vive do turismo interno”, teve um esforço governamental de promoção do turismo internacional desde o ano de 1973, com a campanha “Conheça o Brasil”, sendo que as campanhas anteriores de promoção do turismo interno realizadas entre 1960 e 1966, da Comissão Brasileira de Turismo, tinham como objectivo a integração nacional e a limitação de saída de divisas, com o turismo interno sendo uma substituição do turismo externo para o brasileiro de classe média.

**Mais importante ainda: o Brasil tem 217 milhões de habitantes e PIB per capita de $8.917 — seis vezes mais população e quatro vezes mais rendimento que Angola.** As 206 milhões de viagens domésticas brasileiras e $112,3 mil milhões em gastos internos só são possíveis devido a esta escala massiva. Comparar Angola com Brasil em turismo doméstico é como comparar Luxemburgo com China em manufactura pesada — escalas completamente incomparáveis. **O mercado brasileiro é 250 vezes maior que o angolano.** Angola simplesmente não tem a base demográfica nem económica para replicar o modelo.

**A China, o maior mercado de turismo interno do Mundo, destrói completamente o argumento de Rosado.** A China iniciou sua indústria em 1978 focando explicitamente em divisas estrangeiras como forma de “financiar as Quatro Modernizações” através de receitas em moeda forte. Deng Xiaoping declarou o turismo “meio invisível de exportação” e construiu hotéis de luxo exclusivamente para estrangeiros — preços de $100-200/noite quando o rendimento chinês médio era $300/ano. **A China só atingiu 1 milhão de turistas internos em 1990 — doze anos após iniciar a estratégia turística focada no internacional.**

O crescimento doméstico explosivo — 2,1 mil milhões de viagens em 2010, 6 mil milhões em 2019 — só foi possível porque o PIB per capita chinês multiplicou por mais de 50 vezes ao longo de 40 anos. **O turismo doméstico chinês foi consequência do desenvolvimento económico, não a causa — exactamente o oposto do que Rosado propõe para Angola.** Quando o país ainda era pobre, nas mesmas condições que a co-panelista de Rosado diz impedir o turismo em Angola, isto prova que sempre existirá turistas que “gostam de apanhar poeira”, como disse o Presidente JLO.

**Botswana, Ruanda, Dubai, Tailândia — todos os casos africanos e asiáticos de sucesso começaram com foco laser no turismo internacional de alto valor.** Botswana desde 1966 persegue “alto valor, baixo volume” para europeus e americanos ricos ($500-1.000/dia); mesmo com PIB per capita de $18.100, turismo doméstico continua marginal. Ruanda cresceu de 13.000 para 1,6 milhões visitantes internacionais focando em gorilas a $1.500/permissão; mercado doméstico é praticamente inexistente. Dubai construiu Burj Al Arab a $1.000+/noite sem qualquer mercado doméstico (população 1 milhão) e só 25 anos depois viu emergir turismo regional.

**Padrão universal documentado em 50+ países: Foco internacional → Desenvolvimento económico → Turismo doméstico emerge naturalmente décadas depois.** Propor o contrário para Angola é ignorar deliberadamente toda esta evidência histórica.



## A Falácia do “Patriotismo Turístico” e Subordinação de Factos à Narrativa

Para terminar, sendo a economia angolana deficiente em capitais e poupança, priorizar o turismo interno seria um contra-senso do ponto de vista macro-económico, pois estaríamos a desviar capitais valiosos e reduzir investimentos necessários, quando o turismo internacional traz novos capitais e aumenta o total. **Com Angola ainda dependente do petróleo para 95% das exportações e 60% das receitas governamentais, a necessidade de diversificar fontes de divisas é crítica. O turismo internacional trouxe receitas recordes de $6,9 mil milhões ao Brasil em 2023 e $7,2 mil milhões em 2024 — exactamente o tipo de injecção de moeda forte que Angola necessita desesperadamente.**

Não que seja irracional desejar que haja um turismo nacional, mas que Carlos Rosado não está apenas a exprimir um desejo, mas sim uma necessidade de priorizar o turismo nacional, ou seja, usar recursos públicos limitados para este fim em detrimento do turismo internacional. Porém, não apenas esta prioridade seria trilhar uma via com menos potencial, contra a própria lei da economia e sem base histórica, mas o crescimento da indústria nacional do turismo já acontece naturalmente com o crescimento da economia, com empresários a usar o turismo como investimento alternativo de modo a diversificar o seu portefólio, à medida que mais infra-estruturas e mais pessoas ascendem à classe média, o que está patente, por exemplo, na intensa actividade publicitária nas redes sociais para os mais variados orçamentos.

Ademais, todos os investimentos em turismo internacional permitem, de ressaca, impulsionar o turismo nacional, pois têm em comum o mesmo tipo de infra-estrutura e cadeia logística, além de que activos amortizados pela clientela internacional podem depois ser providenciados a preços menores aos clientes nacionais. Um exemplo simples: desde que se construíram os hotéis modernos de Luanda, como o Skyna e Epic Sana, os hotéis anteriores, como o Hotel Continental e Presidente, tiveram que escolher entre reduzir os preços para competir num segmento inferior do mercado ou actualizar as suas estruturas para competir com os novos.

**Angola possui três segmentos internacionais naturais que já existem e apenas precisam de facilitação: o turismo de negócios ligado ao sector petrolífero que já traz profissionais chineses, portugueses, europeus e americanos; a diáspora lusófona que já representa 30% dos visitantes actuais (portugueses) mais os 40+ milhões de brasileiros com ascendência portuguesa e os 440.000 angolanos na diáspora; e os turistas chineses aventureiros que registaram crescimento de 200% em destinos africanos, gastando entre $1.700-$3.400 por viagem. Estes segmentos não precisam de “criação” de mercado — precisam de reformas de visas e infra-estrutura básica.**

### A Incoerência Liberal de Rosado

Sendo o Carlos Rosado um liberal, pelo menos auto-proclamado, a sua recomendação de que o governo deveria investir dinheiro público numa actividade que o mercado já consegue atender vai contra o espírito desta corrente económica, que, apesar de preferir a iniciativa privada, reconhece o papel do Estado naquelas actividades que têm dificuldade em capturar investimento, seja pelo volume de capitais necessários, como infra-estruturas públicas (pontes, túneis, portos, etc.), seja pelo tempo extenso necessário para rentabilizar o investimento ou dificuldades de cobrança (estradas, etc.)…

**Os dados económicos tornam este ponto ainda mais claro no contexto do turismo angolano: quando o mercado doméstico viável se reduz a 1-2 milhões de pessoas com gastos anuais de $135-$225 em hospitalidade (gerando no máximo $135-$450 milhões totais), enquanto 200.000 turistas internacionais gerariam $450-$530 milhões — o mesmo volume com uma fracção dos visitantes — propor que o Estado invista recursos escassos para estimular artificialmente um mercado doméstico estruturalmente limitado não é apenas má economia, é desperdício de dinheiro público que poderia atrair divisas através do segmento internacional que já demonstrou procura natural.**

Agora, um liberal que queira usar dinheiro público para o que a iniciativa privada pode e já faz usa uma etiqueta que pouco entende.

### Patriotismo de Dados vs. Patriotismo de Palavras

Na verdade, o problema aqui não está propriamente num entendimento deficiente da economia, mas numa subordinação da honestidade intelectual ao papel de activista que o Carlos Rosado desempenha, no qual ele diz o que a plateia quer ouvir, em frases que juntam palavras usadas pelo seu peso emocional, negativo para estrangeiro e positivo para nacional.

**Quando a evidência histórica mostra que todos os países de sucesso — China, Índia, Vietname, Botswana, Ruanda — focaram primeiro no turismo internacional e só depois desenvolveram mercados domésticos robustos à medida que os rendimentos cresceram naturalmente, defender o caminho oposto para Angola não é patriotismo, é ignorar deliberadamente os factos para servir uma narrativa que soa bem mas condena Angola a repetir erros que todos os outros países já aprenderam a evitar.**

**Patriotismo verdadeiro não é dizer o que soa bonito. É defender políticas que funcionam, baseadas em evidências, mesmo quando essas políticas não são politicamente populares.**

A Palavra “Mulato” no Contexto Angolano: Uma Defesa da Autodeterminação Linguística

A Palavra “Mulato” no Contexto Angolano: Uma Defesa da Autodeterminação Linguística

Introdução

A recente controvérsia sobre a palavra “mulato” em Angola revela não apenas um debate linguístico, mas uma questão mais profunda sobre quem tem o direito de definir identidades e termos em contextos culturais específicos. Este ensaio argumenta que a oposição ao termo “mulato” no contexto angolano constitui, paradoxalmente, um discurso de apagamento disfarçado de preocupação social.

O Princípio da Autodeterminação Linguística

Historicamente, a mudança de etnónimos pejorativos surge da iniciativa das próprias pessoas afetadas. Os Afro-Americanos e os Coloureds da África do Sul exemplificam este processo legítimo: comunidades vitimizadas propõem novos termos escolhidos por si mesmas, exercendo seu direito fundamental à auto-definição identitária.

Em Angola, contudo, observa-se um fenômeno distinto. Quem se opõe ao termo “mulato” geralmente não são as próprias pessoas mestiças, mas indivíduos ideologicamente motivados que, curiosamente, combinam discursos aparentemente contraditórios. Por um lado, empregam retóricas como o “colorismo” e afirmações de que mulatos são meramente “frutos do colonialismo”. Por outro, recusam-se a propor termos alternativos, alegando que o próprio grupo não existe como categoria válida.

Este padrão revela algo preocupante: estamos diante de um apagamento identitário que sucede, em ato contínuo, uma desumanização prévia. O que se apresenta como sensibilidade social funciona, na prática, como negação de uma realidade vivida.

A Questão Etimológica: Analogia, Não Literalidade

A objeção etimológica à palavra “mulato” baseia-se num mal-entendido fundamental sobre como a linguagem funciona.

“Mulato” deriva do latim mulus (mula), um híbrido resultante do cruzamento entre cavalo e burro. O termo evoca, por analogia, uma pessoa nascida de progenitores de aparência diferente, criando uma terceira aparência. Crucial aqui é compreender que se trata de analogia, não de equivalência literal.

A objeção colapsa quando examinamos outros termos aceitos sem controvérsia:

PARDO faz analogia idêntica, derivando do latim Pardus (leopardo), referindo-se à cor acastanhada como a pelagem do animal. Ninguém interpreta isto como afirmação de que pardos sejam literalmente leopardos. Em Angola, o equivalente contemporâneo seria “moreno”, que deriva de Maurus (mouro), designando europeus mais escuros “como se fossem Mouros”, sem serem africanos negros.

A linguagem humana está repleta de analogias animais. Quando dizemos que alguém tem “força de touro” ou “esperteza de raposa”, não estamos afirmando que essa pessoa seja literalmente esses animais, mas destacando características específicas. Sob perspectiva científica, o ser humano é um animal pensante; sob perspectiva religiosa, possui uma alma. Em ambas as visões, analogias animais são ferramentas descritivas legítimas.

Diversidade Terminológica Histórica

A palavra “mulato” nunca foi o único termo para descrever pessoas mestiças, o que contradiz narrativas de imposição linguística única:

MESTIÇO, do latim mixticius (misturado, raiz miscēre), designa genericamente qualquer pessoa nascida de mestiçagem, sem especificar etnias parentais.

MAMELUCO, do árabe mamlūk (escravo, possuído), originalmente designava escravos-soldados turcos. No Brasil, foi adaptado para filhos de portugueses com indígenas, não por implicar escravidão, mas pela aparência similar aos soldados turcos do Império Otomano, então maior inimigo de Portugal.

Significativamente, mesmo povos não-europeus criaram terminologia própria. CABOCLO, do tupi kari’boka, significa literalmente “vindo do branco” (kari = branco + boka = derivado de). Isto refuta o argumento simplista de que toda categorização mestiça constitui estratégia colonial para “dividir negros”. Distinguir pessoas e coisas faz parte da atividade cognitiva humana universal.

A preocupação com suposta “divisão” revela, na verdade, desconforto com a diferença em si. Paradoxalmente, os mesmos que negam diferenças mestiças simultaneamente as realçam através da retórica do colorismo. Esta contradição ideológica — manter duas opiniões opostas simultaneamente — caracteriza muitos jogos dialéticos contemporâneos.

O Contexto Angolano Específico

No contexto angolano, “mulato” não possui uso pejorativo na língua portuguesa. É empregado como um entre vários termos descritivos de aparência, com precedente histórico positivo notável.

Luís Lopes de Cerqueira, celebrado como “o Mulato dos Prodígios”, exemplifica o uso honorífico do termo. Nas crônicas portuguesas da batalha de Ambuíla, soldados são descritos como “pardos e mulatos” em ambos os exércitos, puramente como caracterização descritiva, sem conotação pejorativa.

Conotações negativas emergiram apenas durante a luta de independência, como instrumento de luta política adaptado da retórica anti-portuguesa. Significativamente, esta instrumentalização política sugeria que se lutava contra os portugueses não pela legitimidade de governar Angola, mas simplesmente por serem europeus — uma nacionalização do conflito através da racialização.

Imperialismo Cultural Disfarçado

Afirmar que o termo é ofensivo baseando-se no contexto de racismo de outros países — particularmente dos Estados Unidos ou Brasil — constitui negação da identidade angolana específica. Subordina Angola a uma identidade internacional homogeneizada baseada em cor de pele, quando deveríamos reconhecer que somos todos angolanos, iguais e merecedores de igual respeito.

A imposição de sensibilidades linguísticas estrangeiras sobre realidades locais é, ela mesma, uma forma de colonialismo cultural. Nega-se aos angolanos o direito de definir seus próprios termos dentro de sua própria história e contexto social.

Conclusão

A palavra “mulato” no contexto angolano tenta simplesmente descrever uma pessoa usando uma característica de sua origem que influencia sua aparência. Não há, em sua etimologia, uso histórico ou aplicação contemporânea em Angola, fundamento para considerá-la pejorativa.

O verdadeiro “Bom Samaritano do Mal” nesta questão é aquele que, sob pretexto de sensibilidade, nega identidades vividas, impõe categorias externas e silencia vozes locais. A defesa da dignidade humana não pode passar pela negação de realidades humanas complexas nem pela imposição de frameworks interpretativos estrangeiros sobre experiências locais.

Angola merece definir sua própria linguagem sobre suas próprias realidades.

O Colorismo não existe em Angola, e o Anti-colorismo constitui um Discurso de Ódio

Introdução

As ideologias criam frequentemente adversários imaginários para justificar a própria existência (Viana, 2012; Korsch, 2008). O marxismo criou uma suposta ideologia burguesa/capitalista, e o comunismo ergueu-se como movimento anti-fascista antes de existirem fascistas. Löwy (2015) explica que as vítimas por vezes adotam ironicamente o rótulo, justificando post-facto as alucinações ideológicas.

Leitura do artigo.

O discurso anti-colorista apresenta três características de discurso de ódio: 1) impossibilidade estatística da acusação, 2) generalização preconceituosa e 3) ódio hipócrita. Gagliardone et al. (2015) definem discurso de ódio como “linguagem violenta ou ofensiva focada num grupo que partilha uma propriedade comum, baseada num desequilíbrio de poder” (p. 23). Parekh (2012) acrescenta que desvaloriza pessoas com base em características imutáveis e promove hostilidade sistemática.

As ideologias tornam-se senso comum ao ponto de as pessoas esquecerem a origem das ideias que guiam suas emoções (Marx & Engels, 2007). Como observa Rouanet (1985), “a essência da ideologia é ignorar a história ou deformá-la” (p. 86).

A Impossibilidade da Acusação

Constituindo menos de 2% da população angolana (censo 2014), é estatisticamente impossível que mulatos estejam privilegiados em número suficiente para causar impacto sistémico. Mesmo supondo generosamente que todos os mestiços sejam parte dos 20% de angolanos com emprego formal (público ou privado), fazendo assim parte de pelo menos a classe média, ainda assim significa que 18% de não mestiços estão nestes lugares.

O facto de ser ilógica não constitui problema para o anti-colorista. Como disse Konder (2002), “a ideologia caracteriza-se pela incapacidade de apreender a totalidade concreta do processo histórico” (p. 42), substituindo análise factual por construções abstratas.

Generalização Preconceituosa

O discurso anti-colorista julga indivíduos não pelos seus atos concretos, mas por fatores históricos e geográficos ilimitados – julgando todos os mulatos em todos os lugares e tempos. Mészáros (2004) explica que “a ideologia não é simplesmente um sistema de crenças, mas um modo historicamente determinado de representar a ordem estabelecida como eterna” (p. 65).

Esta generalização constitui mais um ataque anti-colorista: nega a identidade angolana do mulato, subordinando-a a uma identidade africana global na qual não tem lugar, quando não o taxa de inimigo por ser “resultado do colonialismo”.

Esta forma de julgamento coletivo baseado em características imutáveis (ascendência e aparência) define o discurso de ódio porque impede a vítima de escapar. Um criminoso pode reformar-se, mas um mulato nunca deixará de o ser.

Para garantir vitória, o discurso inclui no processo contra mulatos os atos de europeus e africanos. A incapacidade dos anti-coloristas em aceitar a falsidade de suas ideias leva-os a taxar quem os contraria de “privilegiado que não vê seu privilégio” (se mulato) ou “alienado” (se africano de pele escura).

Este mecanismo corresponde à natureza não-falsificável das ideologias totalitárias identificada por Popper (1945): “uma teoria científica tem que ser falsificável — caso contrário, é ideologia” (p. 312). Qualquer evidência contrária é reinterpretada como confirmação da teoria. Verkuyten (2013) observa que tal discurso opera através da “rejeição de acusações de ódio ao afirmar estar contra uma ideologia, não contra pessoas” (p. 351).

Ódio Hipócrita

O colorismo deriva de uma mutação do marxismo que transforma relações humanas numa luta entre opressor e oprimido, onde o oprimido tem não apenas razão automática, mas licença para fazer o que quiser por estar supostamente a reagir. Voegelin (1975) argumenta que Marx “pretendia apoiar a violência contra seres humanos afetando indignação moral” (p. 267).

Como explica Lilla (2016), este movimento “abandonou a luta de classes económica em favor de batalhas culturais entre opressores e oprimidos definidos por identidade” (p. 3). Eagleton (1997) desenvolve esta análise: esta transformação permite que “o preconceito se apresente como resistência legítima, invertendo categorias morais” (p. 45).

Stephan e Stephan (2000) explicam que “minorias podem ser vistas como ameaças simbólicas às normas culturais, mesmo sem representarem ameaças concretas sobre recursos” (p. 29). Os anti-coloristas encontram colorismo até onde nenhum mulato esteve presente – como no caso do médico Dala, morto numa esquadra após romper a cerca sanitária durante a COVID, com ativistas afirmando que “se fosse mulato estaria vivo”.

A Ausência do Agente

Para o podcaster angolano Herlander Napoleão, colorismo acontece quando o africano dá vantagem ao mulato. Ou seja, o suposto privilegiado está presente apenas como beneficiário passivo, não como agente ativo de discriminação.

Compare com o racismo americano do KKK: grupos de homens de origem europeia cometiam atos documentados de discriminação. No racismo tradicional existe relação clara entre agente (Racista Europeu), ação (Discriminar) e vítima (Afro-Americano).

Porém, no discurso anti-colorista angolano, esta cadeia causal está ausente. O suposto beneficiário não é agente de nenhuma ação discriminatória, tornando a acusação impossível de verificar empiricamente.

Conclusão

Existe uma fonte de discursos anti-colorista angolana, que transformou a luta política contra o colonialismo português em luta racial contra o Europeu. Porém, a nova moda do anti-colorismo em Angola vem do marxismo cultural, ou revolução diversitária na moda no ocidente, que representa uma mutação ideológica combatendo uma discriminação inexistente ou irrelevante, criando um novo alvo de discriminação.

Ao julgar indivíduos pela ascendência e aparência, e ao atribuir culpa coletiva a um grupo minoritário (2%), o discurso preenche todos os critérios de discurso de ódio estabelecidos pela literatura. Gagliardone et al. (2015) definem discurso de ódio como comunicação que “cria ambiente de preconceito, fomentando discriminação e hostilidade” (p. 23). O discurso anti-colorista manifesta precisamente estas características: cria hostilidade contra mulatos, desvaloriza-os com base em características imutáveis, e opera através de ameaças simbólicas sem base factual.

Como observa Altman (2012), o discurso de ódio frequentemente se apresenta disfarçado de crítica legítima ou defesa de oprimidos. É esta inversão – preconceito vestido de linguajar académico – que torna o anti-colorismo particularmente insidioso. Como argumentam Marx e Engels (2007), “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência” (p. 94), e a realidade material angolana – onde mulatos representam 2% da população – torna estatisticamente impossível a narrativa de privilégio sistémico.

O mito da riqueza de Angola

O mito da riqueza de Angola

Políticos, bispos e líderes de opinião gostam de proclamar que a pobreza em Angola é uma anomalia e que a riqueza seria o nosso destino natural do nosso pais. Mas quando olhamos para os números, percebemos que esta crença é apenas um mito conveniente — útil para discursos eleitorais e para alimentar ilusões coletivas, como o socialismo ou uma chuva de comida pós revolucionaria..

Leitura do artigo

O petróleo que não chega para o povo

É verdade que Angola é o segundo maior produtor de petróleo em África. Mas quando dividimos a produção pela nossa população, a história muda: em 2023, cada angolano teve direito a cerca de 11 barris de petróleo por ano. Compare-se com os Emirados Árabes Unidos: 135 barris por habitante. E se considerarmos apenas os cidadãos nacionais (menos de 15% da população), cada emiradense recebe o equivalente a 1.160 barris por ano — mais de 100 vezes mais que um angolano. É por isso que lá o discurso da “nação rica” faz sentido e aqui não.

As reservas de petroleo de Angola são muito menores do que os grandes produtores de petroleo do mundo, estimadas em 2,6 bilhões de barris pela US Energy Administration em 2025, sendo que mesmo as estimativas antigas da SONANGOL, de 9 bilhões de barris esta muito abaixo das reservas dos outros grandes produtores, Emirados Árabes Unidos por exemplo tem 100 bilhões de barris, Venezuela (~ 303 B), Arábia Saudita (~ 267 B), Irã (~ 208 B).

Minerais medianos

Diz-se também que Angola é rica em diamantes e cobre. A realidade: temos menos petróleo que a Nigéria, menos cobre que a RDC, menos diamantes que o Botswana. A RDC conta com cerca de 80 milhões de toneladas de cobre em reservas provadas, a Zâmbia com 21 milhões, enquanto em Angola nem estimativas confiáveis existem. O Botswana, com população dez vezes menor, arrecada duas a três vezes mais que nós em receitas de diamante há 20 anos.

Quanto ao ouro, Angola produziu ~0,11 Toneladas em 2024, uma quantidade muito quando se sabe que a África do Sul produziu 100 toneladas no mesmo ano (Fonte: CEIC, 2024).

Chegando neste ponto, os crentes no mito da riqueza de Angola especulam sobre supostas reservas por descobrir … algo curioso, pois deveriam explicar como que as mesmas nunca foram descobertas pelo por um Governo Colonial Português desesperado por receitas fiscais para financiar sua guerra e a sobrevivência do Regime ou pelo Governo do MPLA desesperado por receitas fiscais para financiar a reconstrução do pais depois de uma guerra civil catastrófica. Se a boia existe, porque que foi ignorada por dois afogados ?

A agricultura abandonada

Agricultura seria um sector no qual melhorias seriam imediatamente benéficas, porem mesmo aqui estamos a adorar mitos, que somos um grande produtor potencial de alimentos.

Na verdade, temos terras férteis em quantidade, mas não em qualidade. Solos tropicais pobres, que exigem correção e tecnologia — o mesmo desafio que o Brasil enfrentou e superou, produzindo agora 5 tonelada por hectare, quando Angola produz cerca de 1,5 tonelada por hectare, ou seja podemos melhorar, mas ainda assim nem seria excepcional. A Zâmbia seria um exemplo mais proximo para imitar, e necessitando menos investimentos, que tem clima e solos semelhantes, colhe 2,5 a 3 toneladas por hectare e exporta para os vizinhos por ter investido na agricultura. Angola, mesmo com mais população e mais terras que Zambia, continua dependente de importar comida, em parte por continuarmos a entreter a agricultura familiar ineficiente.

Os EUA chegam a 10 toneladas por hectare, porem eles tem as melhores terras do planeta e representam o limite máximo do possível em agricultura.

Cultura de rapina

O problema não é apenas económico. É cultural. Em Angola, o desrespeito pela propriedade privada é a regra, não a exceção, tanto no sector privado como publico. Rouba-se no mercado, na rua e no Estado. Se aplaude o assalto de transporte de mercadoria e se aplaude o vandalismo … Isso aumenta custos, desincentiva o investimento e naturaliza a corrupção. Países que prosperaram investiram na confiança, nós investimos na desculpa.

Argumentos contra os factos.

Os argumentos que ouvi contra minha tentativa de desmontar o mito da riqueza, tirando aquele que me acusa de ser um defensor do governo, algo tanto curioso … se resume a invocar como prova a corrupção, e a riqueza colonial …

A corrupção.

Sendo Angola um pais pobre, como que os corruptos conseguem roubar tanto dinheiro !
Este argumento trai a incapacidade do seu enunciador de imaginar uma quantia de dinheiro alem de seu ponto de vista meramente pessoal, como se o corrupto se preocupasse do valor do dinheiro roubado de um ponto de vista do Estado, afinal rouba por ser muito dinheiro para de ponto de vista pessoal. Em países mais pobres do que Angola, os políticos roubam sem se preocupar.

A Riqueza colonial.

Como apontei mais acima, o Governo colonial lidava com um território despovoado com recursos modestos, por isto por exemplo que Portugal almejavam o Catanga ou Zâmbia no seu mapa cor de Rosa, por serem territórios mais ricos. Porem Angola já passou para a uma condição de explosão demográfica que excede os recursos existentes, sendo que o Governo colonial teria dificuldades em lidar com esta nova Angola.

Conclusão: desarmar o mito

O mito da riqueza serve para encobrir más escolhas. Angola não é a Arábia Saudita, nem os Emirados. Não temos reservas minerais abundantes, não temos solos naturalmente férteis, não temos poupança suficiente. Temos população em rápido crescimento, produtividade baixa e um Estado que depende do petróleo.
A verdadeira riqueza só virá se formos capazes de produzir o que consumimos, respeitar a propriedade, poupar de facto e diversificar com base em trabalho — não em slogans. Até lá, insistir que “Angola é um país rico” é apenas perpetuar um engano que nos condena à pobreza.

Na verdade, os angolanos querem ser pobre, como escrevi em outro artigo.

O perigo do mito.

O mito traz em si um perigo, pois ao sobrestimar a riqueza de Angola, algumas pessoas se acham confortável em pregar a destruição do pouco que temos, pois tudo vai ser reconstruido com a riqueza ilimitada que temos.

Este mito alimenta coisas como a retórica sobre a suposta doença holandesa de Angola, como se a industria petrolífera estaria a impedir o surgimento de uma industria nacional, quando este item nunca esteve disponível. Estamos diante de uma tentativa de fuga a realidade e politização da questão económica, como a proposta de José Godinho de “nacionalizar a industria petrolífera” que iria afugentar os investidores.

Crença quase que religiosa na riqueza mineira de Angola é apenas um sintoma da mente politizada, aonde tens que exagerar os crimes do suposto opressor para mobilizar as pessoas para a luta política, sendo que ao mesmo tempo exagerar a riqueza de Angola permita um extremismo justificado certeza que a suposta riqueza ilimitada vai permitir reconstruir tudo.

Postscript: O que deveríamos fazer ?

Sabendo que muitos nunca leriam meus outros textos, vou esboçar uma breve lista de propostas para Angola.

1- Por fim aos gastos de consumo que não sejam essenciais (subsidio aos combustíveis, e regalias da função publica), de modo a priorizar investimentos de longo prazo em energia e transportes que possam ser a base de uma economia saudável.

2- Lidar de maneira decisiva com o crescimento demográfico:

  • Garantir acesso gratuito a serviços públicos (saúde, educação, etc) gratuitos apenas para os dois primeiros filhos, devendo recorrer ao privado para os outros.
  • Oferecer benefícios fiscais a todo Angolano jovem que tendo já dois filhos, aceite ser sujeito a um procedimento reversível de planeamento familiar.

3- Por fim a hegemonia cultural esquerdista que classifica o pobre como oprimido, logo impedindo que as pessoas mudam o seu modo de vida, de modo a responsabilizar todo Angolano pelas suas decisões económicas e reduzir a desordem social incentivada por apelos irracionais a direitos económicos.

Outras medidas directas ou indirectas podem existir, porem estas seriam de carácter urgente e permitiriam resgatar a situação a medio prazo.

O ministro da Agricultura está errado: os Angolanos querem ser pobres

O ministro da Agricultura está errado: os Angolanos querem ser pobres.

O problema em Angola é uma confusão entre querer e desejar. Como disse Sartre, ‘o desejo é a consciência de uma falta, mas só a ação transforma o desejo em um projeto.’ Ou seja, querer é desejar algo e fazer o necessário para trazê-lo à fruição; desejar é só uma vontade sem ação. Se eu notar uma mulher bonita rua, que mova a cobiça de meu peito mas sem falar com ela, estaria eu realmente querendo ela ? Nao, mas seu ele endereçar-lhe a palavra, disposta a aceitar o fracasso ou o sucesso, as duas consequências possíveis de minha impudência. O mesmo se dizer de um aluno que diz querer passar de classe, mas que foge o trabalho intelectual necessário para estudar.

Isso se aplica também ao campo económico: todos desejam ser ricos, mas quantos realmente querem, no sentido de aceitar as causas e sacrifícios? Como Bourdieu observou, ‘o habitus transforma necessidades objetivas em projetos subjetivos, convertendo o desejo em práticas sistemáticas.’

Há também o facto de que muitas decisões foram tomadas antes do nosso nascimento, influenciando-nos. Se olharmos para a média das decisões económicas dos angolanos, não vemos uma vontade clara pela riqueza. Como Foucault apontaria, não é apenas uma questão de vontade individual, mas também das estruturas sociais que moldam essas escolhas.

Do ponto de vista da classe pobre, a alta taxa de natalidade demonstra uma ausência de um desejo genuíno pela riqueza, pois isso perpetua a pobreza, já que nenhum dos filhos recebe o mínimo de atenção, amor, comida e educação. Do ponto de vista da classe média, a obsessão por bens de luxo como iPhones e carros de luxo importados de segunda mão, alias o simples facto que a Jetour faz sucesso com um SUV ao inves de um turismo, que seria mais pratico, ilustra a preocupação do Angolano de classe media pelo status acima a poupança ou do investimento. Angola tem uma baixa taxa de poupança baixíssima e o nosso mercado de capitais atrai pouco investimento. Estes factores evidenciam a falta de uma vontade real de construir riqueza. E do ponto de vista da classe alta, nota-se que muitos envolvidos em esquemas de corrupção o dinheiro para consumo imediato, como casas, garotas de programa e viagens no ultimo escândalo da AGT, que ainda esta a ser julgado, no estilo Major Lussaty. Um corrupto inteligente, sabendo que a ilegalidade tem limites, investiria para criar riqueza produtiva a longo prazo, mas o tolo acha que sempre vai conseguir roubar …

Em conclusão, sim, o ministro está errado, mas não são apenas os agricultores do planalto que querem ser pobres. O angolano médio, em média, quer ser pobre nas suas escolhas, pois não transforma o desejo em um querer consistente.

Fácil exteriorizar preferenciais verbais, porem as colocar em praticar, nisto se sabe o querer verdadeiro das pessoas.

Nepal e Angola: a verdadeira lição de uma revolução traída

Nepal e Angola: a verdadeira lição de uma revolução traída

Um paralelo mal construído

Horácio dos Reis, da Rádio Despertar, ligada à UNITA, escreveu um artigo comparando a revolta recente no Nepal com uma revolta que, segundo ele, deveria ocorrer em Angola contra a corrupção do MPLA. Mas a leitura está errada.

No Nepal, a revolta actual não se volta contra um poder antigo, mas contra os próprios comunistas que, aliados à oposição civil, derrubaram a monarquia e depois traíram os seus compromissos. Ou seja: do ponto de vista angolano, o que acontece em Katmandu seria, na verdade, uma futura revolta contra a UNITA caso esta chegasse ao poder — não contra o MPLA.


Da monarquia ao comunismo

O Nepal era uma monarquia de direito divino. O rei actual subiu ao trono após um massacre que matou mais de metade da família real, episódio que fragilizou a sua legitimidade. Ao mesmo tempo, partidos republicanos buscavam poder ilimitado e uma rebelião maoísta, apoiada pela China, ganhava força.

Em 2005, maoístas e partidos democráticos assinaram em Nova Deli um acordo de 12 pontos para abolir a monarquia. Em 2006, milhões foram às ruas no Jana Andolan II. O rei Gyanendra foi forçado a abdicar. Os maoístas forneceram as armas, os partidos civis o respaldo político. O resultado: a queda do regime real.


A revolução traída

A vitória não trouxe democracia plena. Os maoístas afastaram os seus aliados e centralizaram o poder. A justiça ignorou crimes de guerra, criando uma cultura de impunidade. Em várias regiões, opositores continuaram a ser intimidados.

O sonho de uma república plural transformou-se em mais um sistema autoritário. Muitos que acreditaram na mudança sentiram-se traídos.


Violência de ambos os lados

A guerra civil nepalesa foi marcada por violência indiscriminada. O Estado conduziu operações como a Operação Romeo (1995) e o Massacre de Doramba (2003), que vitimaram civis.

Os maoístas responderam com ataques brutais: o Incidente de Achham (2002), o ataque a Beni (2004) e a explosão de Badarmude (2005) mataram centenas de soldados e civis, incluindo crianças.

No fim, o sangue derramado apenas trocou um autoritarismo monárquico por um autoritarismo comunista.


O paralelo com Angola

Activistas da UNITA repetem que “basta o povo morrer nas ruas para o regime cair”. Mas a experiência nepalesa mostra que derrubar um regime não significa conquistar liberdade.

Se em Angola a oposição civil se aliar a forças de inspiração maoísta, o desfecho pode ser semelhante: um poder centralizado que elimina a pluralidade e reprime antigos aliados. A revolução seria, mais uma vez, traída.


Conclusão

Não se trata de defender a estagnação, mas de reconhecer que existem caminhos internos para corrigir contradições e reformar o regime. No Nepal, o problema do rei ilegítimo poderia ter sido resolvido por sucessão ou parlamentarismo honesto — e não pela entrega do poder a forças revolucionárias dispostas a monopolizá-lo.

O mesmo vale para Angola: melhor buscar reformas dentro do sistema do que entregar o país a um projecto político que, em nome da revolução, liquidaria qualquer alternativa futura.