Os jovens Angolanos são preguiçosos ?

O Discurso de Vitimização e a Manipulação das Massas em Angola

Está em curso uma controvérsia depois do músico Claytom M ter dito que “os Jovens Da Minha Geração Não Gostam De Trabalhar”. Tirando a veracidade ou não da frase, o debate revelou algo mais profundo: nós em Angola estamos viciados em discurso de bajulação. Não é apenas o governante que é bajulado, obviamente que é fácil entender que um governante seja bajulado, porque o governante pode te dar dinheiro e ele tem poder, mas os pobres também são bajulados. Se você for um político você bajula o pobre para ganhar votos, se você for um comunista você bajula o pobre para o manipular, para transformá-lo em massa.

O discurso político de Angola se limita à tática comunista do fomento “da massa”, sendo que “massa” significa pessoas que podem ser mobilizadas e utilizadas para a conquista do Poder pelo partido comunista. O discurso de massa transforma o Angolano em uma vítima total e cria um inimigo imaginário que tem de ser destruído (sistema, colonialismo, MPLA, etc), para que possa finalmente se atingir a utopia e felicidade. Quando se diz a alguém que as circunstâncias da sua vida, a sua pobreza não é culpa sua, mas sim resultado da opressão do governo, do partido político, do colonialismo ou do neocolonialismo, cria-se nessa pessoa primeiro um sentimento de revolta, segundo um desejo de vingança e terceiro essa pessoa não vai estar interessada em mudar a sua vida porque percebe que a razão pela sua circunstância não tem a ver com ela, mas sim com outra coisa.

A beleza deste sistema está no facto que o homem massa nem precisa estar filiado ao partido para ser um instrumento do partido, pois depois de ser “consciencializado”, toma conclusões que são a favor do partido e responde palavras de ordem que podem ativar a sua combatividade em momentos cruciais. Não estou a falar de algo teórico. Pense no vandalismo durante a greve dos taxistas, que apesar de não ter sido planeado e ordenado de maneira imediata, foi desejado porque existem dezenas de milhares de Angolanos que foram adestrados de modo a aceitar estes atos como normais e mesmo necessários para salvar Angola. Houve pessoas no Facebook, em podcasts, a dizer que o vandalismo era um ato político necessário para salvar Angola, ou seja, os vândalos só tinham que parar de pilhar, roubar, destruir e agredir pessoas quando Angola mudasse. Transformaram o vândalo em vítima e esta vítima tem o direito de se defender, de retaliar. Quem normalizou os atos do arroz man, preparou o caminho para o saque do Arreou.

O mesmo discurso se aplica aos bandidos. Há pessoas que dizem que o batuqueiro, o assassino, é uma vítima da sociedade, que só rouba porque não tem oportunidade, a culpa não é dele. Ou seja, teríamos que sentar e deixar que todos os gatunos roubem porque os gatunos só vão parar de roubar quando o país for perfeito. A vida não funciona assim.

O País das Vítimas

Morato foi aplaudido no Facebook, um internauta escreveu que “este sim sabe falar”, por dizer que “o Jovem Angolano é vítima do sistema”, pois para a maioria dos Angolanos, o discurso de vitimização é confortável e agradável. A vítima não tem responsabilidade, aliás a vítima nada precisa fazer, só tem que esperar que a justiça seja feita. Por isto que este é o discurso que uma boa parte dos Angolanos querem ouvir.

Este discurso de vitimização é particularmente triste porque revela algo que nós angolanos temos: não acreditar na competência. Morato disse na sua intervenção que as pessoas que estavam à volta daquela mesa eram privilegiadas que receberam oportunidades, ou seja, segundo esta lógica, não existe o talento individual, basta receber a oportunidade e qualquer pessoa, independentemente do seu talento ou esforço, pode ser alguém. Isto é mentira. Existem pessoas com oportunidades, que receberam privilégios e que não foram nada da vida.

O exemplo mais claro em Angola é Zeno dos Santos. Tendo em conta o potencial e as oportunidades que recebeu, ele deveria ter feito muito mais do que fez. Compare-se com os seus irmãos: o Coreandu, apesar de ter um projeto cultural, conseguiu fazer alguma coisa; Isabelo dos Santos, nos negócios, conseguiu fazer alguma coisa; Zeno, tendo todos os privilégios do mundo, não conseguiu. E não é o único privilegiado fracassado. Lotte Beirão é outro bom exemplo: nunca trabalhou na vida, não precisa trabalhar na vida, nunca fez nada de jeito. O privilégio não é uma passagem automática para o sucesso.

A vida é feita de duas coisas: o que você faz e o que lhe acontece. O que lhe acontece você não consegue controlar – onde nasceu, quem são os seus pais, quem é o governo do país onde está e até um certo ponto as suas condições económicas. Você não consegue mudar isso. Pode mudar o futuro, pode votar para que no futuro mude, mas do momento que entrou no mundo, são coisas que não pode mudar. A única coisa que pode mudar é o que vai estudar, onde vai trabalhar, como vai estudar, como vai trabalhar e como vai lidar com os problemas da sua vida. Essas são as coisas que deve mudar e você como jovem, esse deve ser o seu foco. Não digo que não possa sonhar com um mundo melhor e mudar o mundo, mas mudar o mundo não pode ser a prioridade, porque não controla o mundo, não tem esse poder. Tem o poder de mudar a sua vida.

Imagine que nasça feio. Nasceu feio mesmo, não tem solução. Vai passar o resto da vida triste porque nasceu feio? Ninguém vai querer namorar consigo, não vai casar e não vai ter filhos? Claro que não. Pode fazer alguma coisa. Pode ser feio, mas se for gracioso, vai chamar a atenção. Pode ser feio, mas se trabalhar, tiver um bom emprego, dinheiro, ser socialmente reconhecido como uma pessoa de talento, vai chamar a atenção. Há coisas que pode mudar, que podem ajudá-lo a vencer as suas circunstâncias.

A Prioridade da Utilidade Política

Este discurso de massa prioriza sempre a utilidade política do assunto, nunca descrição concreta dos problemas e, aliás, o revolucionário tem medo das soluções porque o fim dos problemas significa a perda do potencial de massa. Por isto, por exemplo, Osvaldo Caholo tem um discurso contra a pessoa de classe média de Angola, que se contenta com “um conjunto de plásticos que chama de carro e uma casa na centralidade, quando pode ter mais”, ou seja, um pequeno burguês, como diziam os comunistas.

A retórica das “causas profundas” e da “origem dos problemas” remete-se à mesma tática, pois tenta-se fugir da solução para a coisa que realmente importa: Ajudar o partido a ganhar o Poder. Se falar de problemas que têm a sua origem nas próprias pessoas, vai ser acusado de “culpar a vítima” e “falar mal do povo”, sem nunca tocar na veracidade dos seus argumentos. A prioridade estará sempre em descrevê-lo como inimigo ou lacaio do inimigo.

Não estamos apenas diante de um oportunismo político, mas diante de uma forma padronizada de manipulação das massas por conta do domínio do pensamento comunista em Angola desde os anos 1950. É um discurso de estilo comunista, e o pior é que é um comunismo que as pessoas esqueceram que é comunismo, porque o objetivo aqui é causar desespero e revolta nas pessoas, para as manipular para fins políticos.

Mas Assim Não Podemos Falar dos Problemas do País?

Descrever um problema de maneira concreta é o primeiro passo na busca de soluções, seja o regime democrático ou autoritário, e partidos políticos espelham suas propostas de maneira concreta e de modo que os eleitores possam escolher de maneira consciente. Aliás, em vários casos, o partido no governo tenta pôr em prática, nem que seja parcialmente, uma política popular da oposição, de modo a limitar seu crescimento eleitoral, como aconteceu no Reino Unido com o referendo para a saída da UE.

O revolucionário tem medo de espelhar os seus planos de maneira concreta, pois eles não querem apenas resolver um problema, eles querem o Poder total para refazer a sociedade e sua única proposta concreta está em colocar o partido no Poder. Aliás, em uma entrevista na TV Zimbo, um político da UNITA disse claramente que não iria expor o plano de seu partido por medo que fosse copiado pelo MPLA.

Caso o plano seja copiado, aí o partido revolucionário entra em modo de negacionismo e relativismo, como aconteceu quando a UNITA respondeu aos hospitais construídos pelo MPLA dizendo que “era apenas betão e que faltavam médicos”, que “deveriam ter sido construídos nos bairros” nas palavras de seu presidente ACJ.

O Partido revolucionário não quer a política das propostas, porque o eleitor passa assim a julgar as suas escolhas políticas de maneira concreta, enquanto que sua escolha deveria ser apenas o partido. O Partido revolucionário quer um discurso político de massa, que transforme as pessoas em operários do partido mesmo que não sejam militantes, sendo que deste modo o partido colhe os frutos políticos sem se preocupar com gestão de militantes ou responsabilidade política em caso de violência. A ideia de Frente Patriótica Unida entra na mesma lógica, pois os assentos pertencem legalmente à UNITA e por isto não precisa conceder concessões aos seus aliados.

A Função Educativa do Discurso

Aqui entramos na função educativa do discurso político e cultural. As propostas de uma cadeira na universidade para “ensinar cidadania” feita por Luís de Castro, quando já temos a cadeira de FAI no ensino médio e Educação Moral e Cívica no ensino primário, fogem do problema. O discurso político e cultural permite às pessoas entenderem as causas de suas circunstâncias e as soluções socialmente aceites. Em Angola, o discurso político diz às pessoas que tudo é culpa do Estado e do Colonialismo, mesmo que a pessoa seja um alcoólatra com vários filhos e que nunca se empenhe a trabalhar. Ou seja, dizemos às pessoas que elas podem ter a vida mais irresponsável e nunca seriam responsáveis dos seus atos.

Então, não, nós não temos que cair no discurso de vitimização.

Fugir do tema.

O que esta em causa não é que o jovem Angolano seja preguiçoso, na verdade estamos diante de um tema mais ampla: Os Angolanos contribuem para a situação e económica do pais ?

Na visao do Clayton e do Luis de Castro, existe uma parte cota de responsabilidade individual, que somada desemboca em uma responsabilidade da sociedade.

Esta perspectiva esta correcto tendo em conta 3 factos :

1- A Economia é feita pelas pessoas, sendo que as consequenciais positivas e negativas de actos individuais somam e se acumulam com o tempo.

2- O Estado é constituído pelas pessoas, e as atitudes individuais depois se reflectem no Estado.

3- Existem um numero suficiente de indicadores negativos que demonstram que ha um problema cultural (gravidez precoce, baixa poupança, etc)

Dizer isto é descrito “como falar mal da vitima” pelos proponentes do discurso da vitimismo, porém se o povo Angolano é talentoso porque não há resultados? Se conseguem ter um impacto positivo, que seria bloqueado pelo sistema, como é possível que não podem ter um impacto negativo ?

Alias, este discurso traz duas maneiras concretas de melhorar a situaçao: 1) Abandonar as practicas danosas, 2) Aceitar que menos prosperidade individual é a consequência de escolhas individuais.

Em contraste, o discurso do Vitimismo, Que se resume perfeitamente nas palavras de Morato Custodio e Vidal, diz que o jovem é vitima do Sistema (político actual), da sequela da guerra, do colonialismo, e finalmente da escravatura. Ou seja, cada individuo carrega 5 seculos de oppressao, no minimo. As consequencias deste discurso ? 1) As pessoas ficam paradas e esperam que sejam salvadas, 2) multiplica se a maldade e ineficiencia individual porque se acredita que a soluçao total sera suficiente para eliminar todo acto individual.

Resumindo, este discurso deixa as pessoas confortaveis, pois a vitima nao tem responsabilidades, so precisa esperar que a justiça seja feita e nem precisa se sentir culpado por alguma maldade que cometer antes da salvaçao, afinal nao vai ser da mesma gravidade que as maldades do sistema e vai ser corrigido pela revolu

Curioso que Morato e Vidal fingem que seu discurso é uma novidade, quando foi e ainda é o discurso dominante em Angola.

Reservas petrolíferas fantasmas: Angola e Venezuela.

Nas últimas semanas, três notícias sobre reservas de petróleo chamaram a minha atenção: respetivamente, a alegação de que o Presidente Trump queria invadir a Venezuela para roubar “as maiores reservas de petróleo do mundo”; um vídeo, supostamente do jornalista Pepe Escobar, sobre a descoberta de “reservas infinitas de petróleo em Angola”; e o anúncio de que a AZULE Energy fez uma nova descoberta que aumenta as reservas de petróleo angolanas de forma considerável (500 milhões de barris).

As duas primeiras notícias são falsas, e a terceira é verdadeira, como demonstrarei em detalhe.

A Venezuela não tem as maiores reservas de petróleo do mundo.

O Presidente Maduro, antes de receber uma viagem gratuita para Nova Iorque no dia 5 de janeiro de 2025, acusava os EUA de querer roubar as reservas de petróleo da Venezuela, que seriam as maiores do mundo — uma narrativa construída pelo seu antecessor, Chávez.

Os organismos internacionais que publicam estatísticas sobre as reservas mundiais de petróleo, como o Energy Institute, utilizam dados divulgados pelos próprios Estados e pelas companhias petrolíferas internacionais, com base em novas descobertas e na reavaliação de jazigos existentes.

Em 2005, o governo de Hugo Chávez, que tomou posse em 1999, multiplicou as reservas da Venezuela por quatro de forma claramente política, pois é improvável que novos recursos sejam descobertos no contexto de uma queda vertiginosa da produção de petróleo, como a que se verificou na segunda década dos anos 2000. Afinal, estimar reservas requer a perfuração de novos poços para confirmar hipóteses geológicas e o investimento em equipamentos que aumentem a taxa de recuperação de petróleo dos jazigos.

Esse aumento das reservas foi politicamente motivado. Internamente, permitiu acusar o governo anterior de “esconder as verdadeiras riquezas do país”, ao mesmo tempo que vendia a esperança de um futuro melhor e alimentava o espectro da ameaça externa — a ideia de que os imperialistas querem roubar o nosso petróleo. Externamente, permitiu a Chávez exagerar a importância estratégica do país para atrair investimento e proteção, por exemplo, da China. A explicação inocente seria que a Venezuela esta a ser optimista quando a sua capacidade de recuperação de seu petróleo superpesado, que se parece com moamba de amendoim e requer sistemas complexo de dissolução para fluir.

A falta de entusiasmo das empresas internacionais que ainda operam no país, perante o apelo do Presidente Trump a novos investimentos no atual período de transição, decorre do facto de conhecerem bem os campos em que atuam e saberem que as reservas anunciadas são exageradas.

Leitura recomendada: https://oilprice.com/Energy/Energy-General/Inside-the-Economics-of-Venezuelas-Elusive-Oil-Reserves.html


As reservas ilimitadas de petróleo angolanas

O vídeo atribuído a “Pepe Escobar” foi gerado por inteligência artificial, o que é evidente tanto pela cadência artificial da voz como pelo maneirismo mecânico das imagens.

Além disso, os factos citados são comicamente fantasiosos: fala-se de um “mar de petróleo” a 15 km de profundidade, estendido por 800 km; menciona-se uma suposta tecnologia chinesa de perfuração, quando não existem empresas sínicas a operar no nosso; e alega-se que o preço do crude saudita teria despencado 70%, entre outras afirmações igualmente inverosímeis.

Trata-se claramente de um conteúdo fabricado para impressionar e desinformar, explorando o entusiasmo popular em torno de descobertas petrolíferas e criar um sentimento de revolta pelo contraste com a pobreza de uma parte significativa da população.


Ainda assim, vários comentadores no YouTube não só acreditaram no vídeo como passaram a usar as suas mentiras como premissas para tirar conclusões do tipo: “não é aceitável que o povo sofra enquanto descobrimos petróleo infinito”. E essa deve ter sido precisamente a intenção do vídeo: sugerir que existe uma “riqueza ilimitada” a ser escondida de um povo que continua a viver em dificuldades.

Como vimos, atores políticos — sejam chefes de Estado ou membros da oposição — tendem a exagerar as reservas de petróleo dos seus países para provocar reações emocionais politicamente proveitosas. Uns enaltecem o seu poder e reforçam a ideia de grandeza nacional; outros alimentam a indignação pública e a narrativa de má gestão ou ocultação deliberada de riqueza.

Como são estimadas as reservas de petróleo?

Segundo o Petroleum Resources Management System (PRMS), existem três grandes categorias:

Reservas Comerciais: conhecidas e economicamente exploráveis com as tecnologias atuais.

Recursos Subcomerciais (Contingentes): conhecidos, porém ainda não exploráveis devido a custos elevados de produção ou à ausência de tecnologia adequada.

Recursos Prospetivos: volumes estimados com base no conhecimento geológico disponível, na analogia com regiões semelhantes (como o pré-sal em Angola e no Brasil), na proximidade com zonas petrolíferas produtivas, entre outros fatores.

Essas categorias são ainda classificadas segundo três graus de certeza:

Provadas: reservas confirmadas em jazigos já perfurados e testados, com elevada probabilidade de recuperação.

Prováveis: jazigos potenciais com base em avaliação indireta ou dados geológicos consistentes, mas ainda não totalmente confirmados.

Possíveis: reservas de natureza mais especulativa, com menor grau de certeza.

Leia mais: https://www.boem.gov/oil-gas-energy/resource-evaluation/classification-and-methodology-reserves-calculations

Naturalmente, recursos prospetivos e estimativas especulativas têm o seu papel na indústria. Afinal, é por meio de descobertas improváveis que, historicamente, grandes fortunas foram feitas. Contudo, uma empresa privada que exagerasse deliberadamente as suas reservas para atrair investidores estaria a cometer fraude, criando não apenas riscos jurídicos, mas também financeiros — como demonstrou o caso da Enron.

As novas descobertas da AZULE Energy enquadram-se na categoria de Reservas Comerciais e Provadas, tendo sido confirmadas pela perfuração de um poço de exploração que encontrou petróleo e realizou testes de produção bem-sucedidos. produção que permite estimar a capacidade de produção do reservatório.

Não sabemos ainda quais são os limites definitivos das reservas angolanas, mas existe trabalho e investimento para manter níveis de produção sustentáveis, para a indústria e para as necessidades fiscais do estado angolano. Sendo que se aconselha ao público que evite noticias falsas e estejam vigilantes quanto aos falsos vídeos gerado por inteligência artificial.

Inflação e demografia em Angola

A inflação angolana é maioritariamente um fenómeno demográfico, pois há cada vez mais pessoas a competir pelos mesmos produtos, ao mesmo tempo que a economia (a produtividade dessas mesmas pessoas) não é suficiente para justificar investimentos externos e, muito menos, internos.



Esta tendência pessoal ao consumo, repetida por quase 35 milhões de habitantes, exprime-se na forma de uma baixa taxa de poupança e de políticas públicas consumistas (como o subsídio aos combustíveis), além de uma taxa de natalidade elevada, por conta de uma cultura que vê o filho como “fonte de riqueza” — afinal, um pode subir na vida — e como “método de poupança”, pois um irá cuidar de mim na velhice, em vez de ser encarado como uma responsabilidade: um novo ser humano que precisa de instrumentos e instrução para competir num mundo complexo.

Destarte, é fácil apontar o dedo ao BNA pela política monetária ou ao Governo pela política fiscal; porém, o desafio que deixo a cada angolano é refletir sobre a sua participação pessoal na economia: é positiva ou negativa?

Sei que é desconfortável sair do discurso acusativo e vitimista, mas isso é necessário para o nosso país amadurecer.

Da Incompetência Financeira Pessoal à Má Governação e Corrupção em Angola.

A crítica do Naice Zulu contra deputados que “foram feitos pelo Estado” parece um ataque gratuito contra os deputados da UNITA, porém uma crítica justa a um fenómeno real e amplo.

Primeiro, os deputados são supostos representar os eleitores, sendo é questionável que uma pessoa que nunca tenha trabalhado na vida, sendo político de berço e deputado vitalício, compreenda as preocupações de quem trabalha para trabalha para dar uma vida digna a sua família. Durante toda a sua vida, este deputado nunca soube o que é o stress da busca do emprego, a realidade de que ele não pode ter tudo que desejo, pois, seu salário tem um limite, e a responsabilidade de escolher prioridades. Alias, ele nunca este em uma posição em que teve de provar seu valor e exigir em trocar uma compensação justa. Ou seja, se tornar um adulto.

Um exemplo claro disto foi a deputada Mihaela Webba, que em entrevistas e na sua página do facebook, se queixava que “os deputados ganhavam mal” e que ela “não conseguia ter casa própria com um salário líquido de um milhão e trezentos mil cuanzas”, isto apesar de viver em uma casa atribuída pelo Estado e ter um carro atribuído pelo Estado, ou seja, não precisar pagar pelas maiores despesas de um angolano de classe media. Escrevi sobre este tema no meu artigo de 2024: As Ferias do JLO nas Seicheles, parte 2: A Hipocrisia da UNITA e o Gabinete de acção psicológica.

Captura de imagem da pagina de facebook da deputada.

Esta incompetência financeira de um dependente do Estado não esta limitada ao povo da Jamba, pois em um artigo de 2021 [reproduzido na integra no final deste artigo], o Bernardo António Januário se queixava de não conseguir viver com uma pensão de 273 mil cuanzas por mês, isto depois de ter sido deputado durante 22 anos, de 1986 a 2008, sendo que fez contactos com seus colegas do MPLA até ser reintegrado no ministério da Juventude em 2012. Porém a história não para por aqui, pois nosso deputado se queixava que não era justo ser apenas primeiro assessor, categoria que tinha antes de abandonar o ministério em 1996, ou seja, queria senioridade por anos de serviço que não desempenhou.

Estes dois casos ilustram bem as palavras de Naice Zulu, que estamos diante de uma classe política construída por pessoas que vivem uma dependência total ao Estado, e que caiem na pobreza e desespero assim que perdem o seu precioso cargo. Pessoas que se acham capazes de gerir um Estado, mas que são incapazes, com um salário muito acima da média nacional, a organizar suas necessidades primarias (alojamento, transporte, etc), poupar, constituir património e preparar sua aposentadoria.

Competência selectiva e altruísta ?

Deveríamos acreditar que estas pessoas se abstêm de organizar as suas proprias vidas, de modo a melhor organizar as nossas _ Claro qeu não, pois as pessão são aquilo que elas fazem. Como dizia o economista Milton Friedman, existem 4 maneiras de gastar dinheiro: O seu dinheiro em benefício próprio, o dinheiro dos outros em benefício próprio, o seu dinheiro em benefício de terceiros e o dinheiro de terceiros em benefício de terceiros.

Se o deputado angolano não consegue gastar o dinheiro do Estado (ou seja, o dinheiro dos outros) em seu próprio benefício, como vai ser possível que ele gaste o dinheiro do Estado para os outros de maneira racional e eficaz?

Mesmo que haja pessoas que tem um dom pela empatia e que a capacidade de mobilização popular seja necessária na política, o problema está que a maioria dos políticos angolanos ainda não chegaram a idade adulta, mentalmente.

Por conta da sua condição de dependentes do Estado, estes deputados acham que todos os Angolanos são dependentes também, sendo por isto que só conseguem ter ideias de estilo socialista e acham que todos os problemas podem ser resolvidos pela distribuição de dinheiro público. Por conta da sua falta de responsabilidade pessoal, vivida por alguns desde o tempo da Jamba ou da OPA, estes deputados olham o povo angolano apenas no prisma de uma vítima que tem de ser ajudada, ao invés de adultos que tem deveres e responsabilidades que podem ser cumpridas se o Estado fizer a sua parte. A ideologia dominante entre é um socialismo existencial, em que o governo deve dar dinheiro a todo mundo porque é agradável receber dinheiro de graça e eles viveram assim toda a sua vida.

Corrupção começa em casa.

Mesmo a nível da corrução, o facto do político ser financeiramente incompetente não cria apenas a oportunidade, afinal de contas o infeliz sempre precisa de dinheiro, mas também a narrativa interna para aceitar o suborno, pois ele sempre vive mesmo de receber dinheiro do Estado e qual é a diferença de receber dinheiro roubado ao Estado? Antes de ser líder da China, Xi Jinping sobreviveu a várias campanhas contra a corrupção que vitimou dezenas de seus colegas, talvez porque era excelente a esconder as provas ou por ter uma fibra moral incorruptível, porém o facto da sua mulher ser uma diva que ganhava milhões e que por isto ele não precisava de dinheiro.

Esta influência, da incompetência financeira pessoal, não se limita atos ilícitos, como corrupção, também em se sente no facto que os deputados de todos os partidos conseguem se entender para aprovar o orçamento da Assembleia e propostas de “autonomia financeira” que ponha fim ao controle do executivo sobre parlamento, o único obstáculo para que os nossos cansados deputados tenham para usufruir de mais benefícios do Estado, de modo a saciar sua dependência sem fim.

O governo dos adolescentes.

Quem vive da sua capacidade de causar problemas, a si próprio ou aos outros, é uma criança, que faz birra ou grita até que seu desejo seja satisfeito, enquanto um adulto entende que deve criar um valor ao seu próximo para que seu desejo seja realizado. Se queres dinheiro, tens de convencer uma empresa que tens a capacidade de fazer o trabalho equivalente ao salário desejado. Se queres ter uma namorada, tens de convencer uma mulher que podes ser uma excelente companhia. Ou seja, tens de criar valor antes de esperar receber valor. Uma parte significativa dos políticos angolanos vivem do princípio infantil da importunação, pois não criam valor para a sociedade, por exemplo na forma de propostas inovadores ou uma compreensão das questões sociais que seja valiosa, seja pela resolução destas ou pelea resignação a sua inevitabilidade. Pelo contrário, estes deputados e políticos vivem da sua capacidade fazer aquilo que chamam de “criticas contundentes”, um discurso inflamatório que viva excitar as ansiedades da sociedade e incitar a revoltar, que permite vender o seu silencio ao “preço justo”: cargo no governo, mandato para deputado ou até mesmo um suborno.

O episodio em que os trabalhos uma comissão de especialidade da Assembleia Nacional de Angola foi interrompida, por proposta da UNITA e acordo do MPLA, por “falta de almoço”, pois tinha “apenas lanche”, não é uma anomalia, é ilustração perfeita da mentalidade dominante em nossa classe politica: dependencia ao Estado e irresponsabilidade individual.

Quem não tem cão, caça com gato.

Em uma conferencia em que se citou a Suécia como exemplo de um pais prospero apesar de ter um estado Socialista, Milton Friedman respondeu que a cultura de perfeição e honestidade tornavam eles capazes de fazer funcionar qualquer sistema politico e económico. Do mesmo modo, não é possível organizar um estado complexo constituído de pessoas que nunca saíram do conforto da adolescência, sendo que seria melhor limitar as funções do Estado Angolano ao estritamente necessário, a coisas que pessoas individuais e a economia de mercado não conseguem organizar, nomeadamente segurança publica, justiça e infraestrutura.

Obviamente que a solução imediata ao problema seria de substituir estes adolescentes por pessoas adultas, que sabem o que é trabalhar e resolver problemas, e neste aspeto o Naice Zulo está a realizar uma parte essencial do processo: identificar os adolescentes políticos a serem substituídos.

Fui deputado durante 24 anos e apenas recebo 200 mil kwanzas – Bernardo Januario

 maio 04, 2021

Luanda – Fui deputado durante quase 24 anos (86 a 2008). Agora apenas recebo uma pensão vitalícia de Kz.273.000.00 e assistência médica parcial. Nunca andei pelos corredores do MPLA à procura de emprego.

Fonte: BJ

Em 2008 pedi a minha reintegração no Ministério da Juventude, de cujo quadro de pessoal sou efectivo, com a categoria de 1° assessor. Muandumba e Pitra Neto não quiseram reintegrar-me. Escrevi a pedir ajuda ao então presidente do Grupo Parlamentar do MPLA, Gigí. Nunca reagiu. Escrevi ao Secretariado do BP. Fui recebido por Roberto de Almeida, mas nada mudou. Alfredo Júnior e Rui Falcão “arranjaram-me” o emprego de adido de imprensa na Suiça em 2010, 2011 (lembraram-se que a JMPLA dera-me um curso básico de jornalismo e que fui correspondente do jornal Juventude na Huila). Mas acho que acabei por não satisfazer Carolina Cerqueira (ou o seu gabinete). Quando apercebeu-se disso, José Maria dos Santos, Governador de Luanda, nomeou-me seu assessor político-social. Infelizmente não durou lá. Alguns meses depois descobri o peso do nepotismo, quando na CACL desempenhava o cargo de assessor da vice-presidente Francisca, durante o consulado do General José Tavares. Aí nem salário me pagaram. Davam-me um “vamos ver” de Kz.100.000.00 quando apetecia. Apanhei um AVC no final de 2012 e fui “desaparecendo”.


Escrevi ao Presidente da República (carta entregue num guichê da Cidade Alta) e em 2015 fui readmitido nos quadros do Ministério da Juventude. Atiraram-me para a Galeria, onde me deram uma sala grande sem mais ninguém. Até hoje nunca me foi dada nenhuma tarefa. Não, minto. Mandaram-me assistir a um conselho consultivo. E continuo na mesma categoria desde 1996. 1° assessor!

A entrevista de Lopito Feijo fez-me lembrar da vida do quadro militante que não se propõe rastejar, que não se conforma apenas com o que entra no seu bolso e se propõe fazer um trabalho que corresponda aos objectivos declarados previamente.”

Bernardo António Januario

Fonte: Artigo publicado no Club-k

A origem Africana dos Robots

Os Robots, equipamentos autónomos que substituem o trabalho humano, tem uma origem Africana escondida pelo ocident, pois a palavra robot “criada” pelo Tcheco Karel Capek na peça de Teatro Rossum’s Universal Robots (R.U.R.)
de 1920, prentendo que a palavra deriva do eslavo Robota, qeu significa “trabalho menial”, quando na verdade deriva de “labuta” pois na lingua bacongo não existe a letra “R” então esta corruptela foi roubada pelos portugueses durante o seu tempo em Angola, aonde ouviram “la m´buta” e escreve “labuta”.

A Ancestralidade dos Afrocratas, uma farsa anti-Angolana

A Ancestralidade dos Afrocratas, uma farsa anti-Angolana

O Conceito de Ancestralidade pula a cultura real do homem Africano, seja nas suas origens reais e na sua prática desde a independência, para apelar a uma suposta cultura anterior que é convenientemente definida pelo Afrocentrista. Na verdade, fingindo ser um conceito conservador, para preservar a cultura “Africana”, ele na verdade é um conceito revolucionário pois dá poder de definir a cultura ao Afrocrata. No presente, o Afrocrata apresenta a dita ancestralidade como uma caricatura: nomes vagamente Africanos (estilo Makulu kiunga), pele de animais e uma cadência de fala matumba. Isto permite ao Afrocrata falar de cultura Africana sem conhecer qualquer cultura Africana em particular.

1. A indefinição do Conceito de “Ancestralidade”

Não existe nenhuma descrição académica do conceito de ancestralidade na literatura pan-africanista, de autores como Molefi Kete Asante (fundador do Afrocentrismo académico), Cheikh Anta Diop (considerado o pai do Afrocentrismo africano), ou Ama Mazama—o conceito de “ancestralidade” simplesmente não aparece como categoria teórica central. Estes autores falam de “epistemologia africana”, “cosmologia africana”, “agência africana” e “centralidade africana”, mas não de “ancestralidade” como os Afrocratas angolanos usam o termo. Sendo que na prática, a Ancestralidade se resume a ter um nome que pareça “africano”, como Makulo Kiunga, vestir panos e praticar feiticismo. Claro que todo conceito académico sintetiza um conjunto de ideias já existentes e inicialmente desorganizadas, porém a realidade é que a “Ancestralidade” se resume a uma vibe ao gosto dos mimos dos Afrocratas. André Vidal por exemplo tem os ancestrais, o agente atrás do fenómeno de ancestralidade, como um espiritos que agem na realidade, não sendo assim um conceito sociológico mas sim religioso e por isto fora do campo científico. Isto quando o Afrocrata não pula directamente para o Egipto antigo por este ser o “ancestral” de todas as culturas Africanas.

A “ancestralidade” dos Afrocratas angolanos não é um conceito académico sério, mas sim uma invenção local—uma bricolagem performática que permite aos Afrocratas reivindicarem autoridade cultural sem precisarem de conhecer cultura alguma.

2. A Universalidade do Conceito de Ancestralidade

A literatura antropológica é unânime: o culto aos ancestrais não é uma peculiaridade africana, mas um fenómeno universal nas sociedades pré-modernas e pré-letradas. Estudos mostram que a veneração ancestral foi identificada em praticamente todas as regiões do mundo: China (onde persiste até hoje), Japão (culto xintoísta aos ancestrais), Roma antiga (culto aos lares e manes), Grécia antiga, Índia védica, culturas nativas americanas (dos Andes à América do Norte), e naturalmente em África. O próprio termo “ancestor worship” foi cunhado em 1885 pelo antropólogo britânico Herbert Spencer, sendo hoje considerado enganoso—antropólogos modernos preferem “ancestor veneration” ou “ancestor respect”, precisamente porque não se trata de “adoração” no sentido religioso mas de respeito cerimonial. Portanto, apresentar a reverência aos ancestrais como marca distintiva da “africanidade” é simplesmente falso do ponto de vista antropológico.

No máximo, os Afrocratas extrapolaram o “Quimbuntismo”, a suposta reverência das culturas ditas “africanas” aos mais velhos. Porém, vale a pena aprofundar este ponto pois revela como os Afrocratas romantizam relações de poder perfeitamente banais. A gerontocracia—o poder dos mais velhos—não é um valor cultural peculiarmente africano, mas sim a forma natural de organização política em sociedades sem escrita e com pouca acumulação de capital. Nestas sociedades, o conhecimento não está registado em livros mas na memória dos indivíduos, e naturalmente quem viveu mais tempo sabe mais: conhece mais histórias, mais técnicas, mais genealogias, mais alianças. Além disso, em economias pastoris e agrárias simples, o mais velho teve mais tempo para acumular riqueza tangível—mais dependentes (esposas, filhos, sobrinhos), mais gado, mais terras cultivadas, mais conexões políticas. A “reverência” aos mais velhos é portanto um reconhecimento pragmático de poder real, não uma peculiaridade cultural. Antropólogos como Michael Singleton argumentam que interpretar estas práticas como “culto religioso” é projecção etnocêntrica—trata-se simplesmente de reconhecimento cerimonioso do papel indispensável que os anciãos desempenhavam na sobrevivência de comunidades rurais pré-modernas.

Porém se tivermos em conta a evolução geral das sociedades, estes cultos aos ancestrais desaparecem à medida que a sociedade se torna maior e mais complexa, cedendo o lugar a cultos a forças da natureza e abstractas como religiões organizadas. Estudos recentes em antropologia evolutiva documentam esta sequência evolutiva típica: animismo → crença na vida após a morte → xamanismo → culto aos ancestrais → politeísmo → monoteísmo. O culto aos ancestrais funciona bem em grupos pequenos onde todos partilham ancestrais comuns recentes, mas torna-se problemático em sociedades maiores compostas por clãs distintos. A solução histórica foi o politeísmo: os ancestrais venerados de diferentes clãs foram gradualmente transformados em deidades dentro de um panteão partilhado. Eventualmente, com a formação de estados centralizados, surge o monoteísmo ou henoteísmo—um deus supremo que legitima a autoridade central. Esta evolução não é “perda de cultura africana”, mas processo histórico universal. Fingir que Angola deveria “regressar” ao culto ancestral é tão absurdo quanto sugerir que a Europa deveria regressar ao culto de Zeus ou que a China deveria abandonar o confucionismo para retornar ao culto aos espíritos tribais.

Quando falamos de Angola especificamente, a cronologia histórica desmente completamente a narrativa Afrocrata. O Reino do Congo converteu-se ao cristianismo já em 1491, mais de 530 anos atrás. Porém não abandonaram a sua “ancestralidade”, pois como sabemos dos relatos dos missionarios e padres, o Reino do Congo, como a maioria dos povos da epoca, já não praticava cultos ancestrais simples, mas tinha desenvolvido religiões mais complexas, com panteões de divindades, sacerdócios organizados, e cosmologias sofisticadas. O argumento Afrocrata de que o colonialismo “roubou” aos angolanos o culto ancestral é portanto duplamente falso: primeiro porque o cristianismo chegou antes do colonialismo moderno, e segundo porque mesmo antes do cristianismo muitos povos já tinham evoluído para formas religiosas mais complexas.

3. O carácter revolucionário e hipócrita

A suposta “crise de identidade” que a Ancestralidade dos Afrocratas diz combater não existe, afinal Angola já tem uma cultura nacional praticada de modo independente nos últimos 50 anos e de modo orgânico pelo menos um século antes.

Esta cultura supostamente “Africana” à qual devemos regressar não existe, até porque a África não existe como unidade Africana. Sim os povos de Angola têm quase todos uma origem bantu, se excluirmos os Luso-Angolanos e os Khoisans, mas mesmo para estes bantus de origem se separaram por tempo e distância suficiente para que cada um criasse sua cultura distinta. Para colocar as coisas em uma escala menor, pergunto ao leitor que me diga se o neto de Catetistas que nasceu e cresceu em Benguela teria a mesma cultura que um outro neto de Catetistas nascido na Lunda Sul, aliás, será que estes dois teriam a mesma cultura que um Catetista que nasceu e cresceu em Catete?

As relações de origem são apenas passivas, são factos pontuais, enquanto que as culturas são realidades vividas e construídas por seres humanos todos os dias. Dizer que um Angolano não tem cultura por ter o nome de João Pedro é menosprezar a cultura activa em nome da mera relação passiva com pessoas que nunca viu e não conhece. Até porque as culturas são organismos sociais vivos, que têm como objectivo a reprodução de ideias que permite a perenidade de um povo, cultura por mera origem não existe e é apenas tribalismo.

Mas o artifício Afrocentrista piora, pois a sua Africanidade não é uma proposta para um retorno a uma cultura real, mas a uma caricatura de cultura Africana que deve ser definida exclusivamente segundo os caprichos dos Afrocratas, que ficam assim elevados a autoridade moral da sociedade. Isto não é uma coincidência, mas a consequência directa do facto do afrocentrismo ser na sua essência uma ideologia Marxista mas de luta de classes raciais no espaço histórico, sendo que como toda ideologia revolucionária, tem o seu primeiro inimigo no alienado pois reduzir este à escravidão é o primeiro passo para acumular o poder para lutar contra o inimigo de classe. O carácter ideológico do Afrocentrismo está claro quando vemos que repetem o mesmo esquema no campo religioso com sua noção de “espiritualidade”.

Este processo de fabricação de uma “ancestralidade” fictícia encaixa perfeitamente no conceito de “invenção de tradições” desenvolvido pelo historiador Eric Hobsbawm, demonstrando que muitas “tradições” que “aparecem ou alegam ser antigas são frequentemente bastante recentes em origem e às vezes inventadas”. No contexto africano, Terence Ranger documentou como na África colonial tradições foram inventadas tanto por colonizadores (para estabelecer comando e controle) quanto por elites africanas (que facilmente as apropriaram para fortalecer sua própria autoridade). O que os Afrocratas angolanos fazem é precisamente isto: inventar uma “tradição ancestral” vaga o suficiente para ser indefinível mas específica o suficiente para excluir quem eles querem excluir (cristãos, “assimilados”, pessoas com nomes portugueses). O paralelo com as elites coloniais que inventavam “chefes tradicionais” para governar através deles é perturbadoramente exacto—apenas que agora os Afrocratas inventam “guardiões da ancestralidade” para acumularem capital político e moral. Nada disto tem a ver com preservação de cultura real, e tudo a ver com fabricação de instrumentos de poder.

O autoritarismo do projecto Afrocrata

Não estamos diante de um regresso, mas sim da construção de uma nova cultura e em que o Afrocrata se coloca no centro, o que não seria um problema se fosse feito de maneira normal, pois o Afrocrata não coloca as suas ideias como propostas que podem ser avaliadas com outras. Para o Afrocrata, a sua ancestralidade é a cultura natural do Angolano, que está no sangue, e à qual ele deve aderir por ser um africano negro. Sendo que qualquer Angolano que recuse dobrar o joelho é um alienado, um traidor, um burro ou um branco de cor negra. Não chegam a admitir que haja outro ponto de vista.

Para encurtar uma conversa longa, o Afrocrata é inimigo de Angola, sendo por isto normal que esta ideologia tenha particular popularidade entre pessoas de nacionalidade duvidosa.

Luanda foi fundada por Paulo Dias de Novais: os Afrocratas mentem

Luanda foi fundada por Paulo Dias de Novais: os Afrocratas mentem

Escrevi a primeira versão deste artigo em 2022, reagindo a vários Afrocratas que negavam a fundação de Luanda por Paulo Dias de Novais, como Ruis Ramos no Jornal de Angola, Isidro Fortunato no Facebook e Felipe Vidal na TPA. Contudo, estamos em 2026, a celebrar os 450 anos da nossa cidade, e surge mais uma figura, desta vez na rádio MFM, a repetir a mesma falsidade, invocando uma suposta “controvérsia histórica” que simplesmente não existe. Estamos perante uma ideologia pseudo-intelectual, nociva para a inteligência nacional, conhecida como Afrocentrismo.

Os argumentos apresentados pelos Afrocratas para negar um facto histórico resumem-se, essencialmente, a três pontos: primeiro, que “Luanda” já existia; segundo, que já viviam pessoas em Luanda; e terceiro, que celebrar a fundação de Luanda constitui uma apologia ao colonialismo.


Luanda já existia?

A forma mais elementar e menos inteligente deste argumento afirma que a baía de Luanda já existia antes da chegada de Paulo Dias de Novais. Tal afirmação é obviamente absurda, pois fundar uma cidade não significa criar o espaço físico onde ela se localiza — a menos que se trate de um holandês a construir novas terras sobre o Mar do Norte.

Subindo ligeiramente na escala da inteligência, mas ainda abaixo do limiar do razoável, surge o argumento de que “viviam povos em Luanda”. Isso é inegável: Angola não era uma terra vazia, apenas pouco povoada. No entanto, a presença de habitantes não equivale à existência de uma cidade. Se assim fosse, qualquer município angolano seria automaticamente uma cidade. Um artifício retórico usado pelo entrevistado da MFM consiste em alegar que a zona de Luanda era “uma unidade administrativa onde não viviam pessoas”, o que é um contrassenso evidente: se não havia população, então não poderia existir uma cidade anterior à fundada por Paulo Dias de Novais.

Chegamos, por fim, à forma mais inteligível do argumento: a alegação de que existia uma povoação africana na zona de Luanda e que, por esse motivo, Paulo Dias de Novais não teria fundado realmente a cidade.

No entanto, sabe-se que não existiu em Luanda nenhuma cidade antes de Luanda, nem segundo os padrões portugueses, nem segundo os padrões bacongos. Durante os 92 anos que decorreram entre a chegada de Diogo Cão e a fundação de Luanda por Paulo Dias de Novais, nunca se mencionou a existência de uma Mbanza no local de Luanda, ao contrário do que sucedia com Mbanza Congo, Mbanza Soyo, Mbanza Mbamba, Mbanza Loango, entre outras. O conceito de Mbanza era o mais próximo de cidade segundo a perceção portuguesa da época: uma aglomeração permanente de vários milhares de pessoas, não exclusivamente agrícola, com atividades artesanais, comerciais, políticas e religiosas. Em contraste, uma aldeia era uma aglomeração de membros do mesmo clã, maioritariamente agrícola e, no contexto angolano da época, semi-sedentária, podendo ser abandonada em caso de ataque ou para a procura de novas terras de cultivo.


A aldeia da ilha das Cabras

Existiu, de facto, uma aldeia na ilha de Luanda, governada por uma representante do rei do Congo, cuja população se dedicava à pesca e à recolha de búzios (nzimbos), utilizados como forma de moeda. Contudo, esta aldeia não pode ser considerada um precursor de Luanda por duas razões simples.

Primeiro, porque, embora a ilha de Luanda seja hoje um elemento icónico da cidade, ela só passou a integrar estruturalmente Luanda nos anos 1940, com a construção de uma ponte. Antes disso, existia apenas uma fortaleza no extremo sul, destinada a proteger a barra da Corimba e a estação naval do esquadrão contra o tráfico de escravos combatido pela Marinha Real Britânica.

Segundo, a aldeia da ilha de Luanda e a recém-fundada cidade de Luanda coexistiram como entidades administrativa e politicamente distintas até, pelo menos, 1620. A partir dessa data, o rei do Congo perdeu a sua capacidade de influência sobre a ilha, substituindo inclusive os nzimbos por panos de ráfia do tipo libongos. A distinção entre as duas localidades é clara quando se observa que Paulo Dias de Novais passou um ano hospedado na ilha de Luanda, onde recebeu embaixadores do rei do Ndongo, antes de decidir construir a fortaleza no topo do Morro de São Miguel. Se “Luanda já existisse”, teria sido necessária uma batalha para conquistar essa suposta cidade.

Luanda definiu-se por características que não partilhava com a aldeia da ilha: a fortaleza no topo do Morro de São Paulo, a Cidade Alta, a Cidade Baixa e o porto na baía. A ilha de Luanda só passou a integrar este conjunto urbano no século XX.


Celebrar a fundação de Luanda é celebrar o colonialismo?

A fase final do argumentário afrocentrista, uma vez refutados os pontos anteriores, consiste em condenar a alegada “glorificação do colonialismo” implícita na celebração da fundação da cidade por um “colonialista português”. Independentemente dos méritos ou deméritos do colonialismo, estamos perante uma tentativa de negar factos históricos considerados desfavoráveis ao “seu povo”, o que equivale a uma recusa da própria realidade. O facto de a fundação de Luanda ter sido um ato colonial não altera em nada a sua veracidade histórica. Negar um facto por discordância ideológica aproxima-se do pensamento mágico, como o indivíduo que recusa aceitar provas evidentes por incapacidade emocional de lidar com a verdade. O bem e o mal fazem parte da história, e devemos desconfiar de qualquer narrativa que apresente o passado apenas de forma positiva.

Os Afrocratas escondem a sua intenção de manipular a história sob o pretexto de que ela já estaria “manipulada a favor dos brancos” para justificar o colonialismo, como se a superioridade militar e logística do Ocidente no século XIX necessitasse de legitimação moral. Na realidade, trata-se apenas de um reflexo da própria mentalidade afrocrata, que não encara a história como a sucessão de factos ocorridos, mas como um instrumento ao serviço de uma utopia ideológica.

Esta chamada “descolonização da História” reduz-se ao sofisma de que “não faz sentido a capital ser mais velha que o país”, repetido por Isidro Fortunato no Facebook, ou à afirmação de William Tonet de que “ANGOLA SERIA UMA GRANDE ABERRAÇÃO POR TER FILHOS MAIS VELHOS QUE A MÃE”. O mesmo autor lamenta ainda que Angola avance para o futuro sem uma independência “imaterial”, por ainda carregar “símbolos, sinaléticas, datas e nomes portugueses”. A pergunta impõe-se: quem deve definir os “novos símbolos”? Os Afrocratas, naturalmente — afinal, são eles que se arrogam o monopólio da definição do que é ser “africano”, esquecendo que a África existia antes de Angola.

Não se trata aqui de “defender os portugueses”, nem de assumir a condição de “negro assimilado”, como gostam de acusar os Afrocratas sempre que encontram um angolano que não partilha das suas ideias. Trata-se, simplesmente, de defender a verdade. Quem não respeita a realidade jamais respeitará os direitos dos seus semelhantes, estando já comprometido com uma estratégia de empobrecimento intelectual do público para alimentar o próprio ego e ascender socialmente. Por que razão deveríamos capitular e renunciar à nossa identidade angolana diante de tais pessoas?

Mito do uso do Napalm na Baixa de cassanje.

A propaganda nacionalista angolana acusa a força área portuguesa de ter usado bombas de napalm para destruir aldeias durante para reprimir a revolta da baixa de Cassange, porém tal acusação constitui um libelo de sangue sem qualquer fundamento na realidade. Primeiro porque Portugal não possuía os meios para efectivar os ataques por Napalm, segundo porque este mito se enquadra em uma corrente da propaganda comunista, e porque estamos claramente diante de um libelo de sangue.

Em 1961, as aeronaves que a força aérea portuguesa (FAP) possuía em Angola capazes de serem usados como bombardeios eram os PV-2 Harpoon, aeronaves de patrulhamento marítima, cujo os pilotos eram treinados para caçar e atacar submarinos, sendo não estavam prontas para missões de ataque ao solo e muito menos no uso de bombas de Napalm quando se desencadeou a revolta. Estas aeronaves lançaram se em 28 missões durante o levantamento da baixa de Cassange, sempre desde a Base Área numero 9, cita em Luanda, tento missões de bombardeamento e de observação, em apoio as colunas das Forças Armadas Portuguesas que avançavam contra os revoltosos. As bombas usadas eram de tipo explosivo (general purpose bomb) de 45kg e lançadas desde uma altitude de 150 metros, algumas sem mecanismo de retardamento e por isto danificaram a própria aeronave por causa dos detritos levando pela explosão enquanto que outras simplesmente falhavam de detonar após o impacto, pois ficavam enterradas na lama. Estes meios não são suficientes para levar a cabo a campanha de destruição de aldeias por napalm descrita pela propaganda nacionalista.

Os quatro aparelhos do typo Auster D.4, avionetas mono-motores, desde a base área de Malanje, que serviam principalmente para observação e reconhecimento, sendo alia nitidamente menos poderoso que o modelo de aeronave usado para ataque com bombas de napalm no Vietname era o A-1 (AD) Skyraider, que não estava disponível no inventario da FAP. A medida que os confrontos no solo, entre soldados portugueses e amotinados, ficaram mais intensos, a Força Área passou a usar os Auster de maneira mais ofensiva, com um oficial do exercito com uma caixa de granadas entre as pernas. Quando encontravam um grande grupo de amotinados, o oficial retirava o pino de segurança e colocava a granada dentro de frasco de vidro, de modo que a alavanca fosse solta quando o impacto ao solo quebrasse o frasco. O objetivo era de criar pânico e dispersar os multidões. Este equipamento não era de eficiente para causar a destruição em massa e muito menos os milhares de mortos atribuídos pela propaganda nacionalista, foi uma arma de improviso e sinal de desespero, ao invés da sonha ofensiva.

As tropas portuguesas no solo tinham uma avaliação negativa do apoio ofensivo da FAP, pois criava problemas na sua tentativa de por fim a revolta, sendo que era mais útil quando fazia reconhecimento a diante das colunas.

O primeiro problema, causado pelas aviões da FAR, partia do rumor entre os revoltosos que os aparelhos foram enviados por Kasavubu, presidente do Congo Leopoldo, para apoiar os rebeldes, sendo que as multidões de revoltados cresciam assim antes da chegada da coluna e por acharem que os aviões eram Congoleses, acenavam e faziam gestos que pareciam pacíficos aos pilotos que passavam esta mensagem as tropas portuguesas no solo. Este não era a única crença fantasiosa dos revoltosos, pois acreditavam também que as balas dos soldados portuguesas eram inofensivas, pois seus feitiços as transformaria em agua. Depois de alguns embates com grandes grupos de revoltosos, excitados pelos “apoio do avião do Kassavubu”, e de interrogar os prisioneiros, os oficiais portugueses descobriram o engano e passaram a pedir que as aeronaves fizessem demonstrações de fogo dos revoltosos que se aproximavam das colunas , de modo a fazer entender aos revoltosos que as aeronaves não eram Congolesas.

O segundo problema causado era o numero de feridos causados pelo uso de granadas e bombas, pois os soldados ao solo receberam a ordem de tratar todos os feridos e os evacuar para Malanje, o que atrasava o avanço tanto pela necessidade de recolher e estabilizar os feridos, como pela de divisão de forças para escoltar os mesmos. Ademais, um prisioneiro ferido não pode ser rapidamente interrogado e nem pode servir de guia para as tropas, o que impedia a neutralização de outros grupos de revoltosos.

A propaganda Soviética.

O uso do Napalm tinham um lugar proeminente na retorica comunista contra a guerra do Vietname, sendo por exemplo citado como exemplo de uso desproporcional de força militar pelo Brezhnev diante de um congresso do Partido Comunista da URSS, e tornou se um pilar nos protestos anti-guerra por estudantes Americanos dentro da América. Sendo que recrutadores da Dow Chemicals, principal fornecedor do Napalm para o exercito Americano, foram impedidos de entrar em universidades por manifestantes que acusavam a empresa de ser conivente com crimes de guerra, em outro episódio famoso, manifestantes fabricaram Napalm caseiro que foi usado para destruir boletins de recrutamento do exercito. O poder destrutivo do napalm foi cristalizado no imaginário popular com o ataque contra o palácio presidencial da Vietname do sul, em um incidente que foi filmado e foi assim ampla de divulgação publica, em que as chamas consumiram o palácio durante horas, sendo assim mais impressionantes que as metralhadoras e os foguetes também usadas no ataque. Para muitos, a guerra do Vietname se resume a imagem de crianças queimadas, fugindo de suas aldeias arrasadas por Napalm, sendo esta a imagem a qual os nacionalistas Angolanos apelam quando acusam a FAP de ter usado Napalm na baixa de Cassange.

Esta campanha contra o napalm não era movida por motivos humanitários, mas por ser uma arma eficaz contra um inimigo escondido em acampamentos na selva.

Libelo de Sangue

Uma prova simples de que estamos diante de um libelo de sangue, uma acusação falsa que visa criar o direito a exercer hostilidade contra um suposto agressor, esta no facto de que os nacionalistas angolanos são incapazes de citar nomes de aldeias que foram supostamente arrasadas com bombas de napalm, ao mesmo tempo que juram que era uma pratica generalizada. Alias, pedir provas gera indignação … aconteceu mais é um insulto pedir provas.

Fontes:

Napalm in US Bombing Doctrine and Practice, 1942-1975
https://www.sciencespo.fr/mass-violence-war-massacre-resistance/en/document/napalm-us-bombing-doctrine-and-practice-1942-1975.html

Napalm, An American Biography
https://www.napalmbiography.com/supplementary-notes

ANN, John P. – Baixa do Cassange. Revista Portuguesa de História Militar

A Sublevação da Baixa do Cassange, Tenente-coronel António Lopes Pires Nunes

Quando os jornais angolanos fazem noticias falsas com os numeros

Jornal Valor inventa aumento de sem-abrigo

O Valor Económico manchetou que o número de sem-abrigo “disparou 59% em 10 anos”. A realidade? O número praticamente não mudou.

Os dados mostram um aumento de 9600 para 15430 sem-abrigo em 10 anos (59%). Mas a população angolana cresceu 50% no mesmo período. O número relevante é a taxa per capita: passou de 4 para 4,4 por 100.000 habitantes — essencialmente estável. A manchete manipula ao usar “mais de 15430 pessoas”, sugerindo um número alarmante.

Seguindo esta lógica falha, poderíamos titular: “Governo de JLO supera a América de Trump no auxílio aos sem-abrigo” — afinal, Angola tem 4,23 sem-abrigo per capita contra 8+ nos EUA.

Seria igualmente desonesto. Três factores explicam taxas diferentes entre países:

Primeiro, habitação informal. Em Angola, um cidadão pobre constrói facilmente uma residência informal. Nos EUA e Europa, fiscalização rigorosa e preços de terrenos impedem esta solução.

Segundo, drogas pesadas. Entre 18-40% dos sem-abrigo americanos são utilizadores de drogas que os incapacitam para o trabalho.

Terceiro, assistência social. Ajudas públicas reduzem o estigma da situação, diminuindo a pressão para sair das ruas. Em Angola, a pobreza desesperadora força as pessoas a garantir pelo menos um tecto.

Correio da Kianda distorce dados demográficos

O Correio da Kianda anunciou “um índice de 4 mulheres para cada homem”. O Censo mostra 96 homens para cada 100 mulheres — uma diferença de 4%.

A formulação confusa levou leitores a conclusões absurdas: alguns defenderam legalização da poligamia, outros argumentaram que “as mulheres são maioria e devem governar”. A pequena diferença explica-se simplesmente pela menor esperança de vida masculina, resultando em mais idosas que idosos.

Carlos Rosado foi pioneiro das notícias falsas baseadas em números sem contexto. Pelo visto, ganhou pupilos no Correio da Kianda e Valor Económico. Em 2019, ele apresentou na televisão angolana um gráfico que classificava Angola como o país africano que menos investe em educação, com apenas 6,4% do Orçamento Geral do Estado.

 

Contudo, esta narrativa é profundamente enganadora. Quando analisamos os valores absolutos, Angola investe aproximadamente $5,4 mil milhões anuais em educação – cerca de 24 vezes mais que Serra Leoa, que lidera o gráfico com 32,7% do OGE mas investe apenas $220 milhões. Mais revelador ainda é o gasto per capita: Angola investe cerca de $175 por cidadão, colocando-o entre o 6º e 8º lugar no continente, enquanto Serra Leoa investe apenas $29 per capita. Este é um exemplo clássico de manipulação estatística através da escolha seletiva de indicadores – ao mostrar apenas percentagens do orçamento sem contexto sobre o tamanho das economias, o gráfico distorce completamente a realidade do investimento educacional angolano. A percentagem baixa do OGE reflete uma economia maior e mais diversificada ($100 mil milhões de PIB vs $4 mil milhões de Serra Leoa), não um menor compromisso com a educação.

O Discurso colonial: ex-ministro Bessa e comer no lixo.

Ex-ministro Julio Bessa se diz chocado porque “Nem na era colonial vi alguém a comer no lixo. o que vemos hoje é o cumulo da humilhação” …. usando a era colonial como o mal absoluto, e por isto medida da gravidade da situação actual, é claro o apelo constante ao discurso emocional sobre a “humilhação”. Porém, é razoável e possível ver pessoas a comer no lixo no tempo colonial?

Contexto demográfico colonial:

Mais de 95% da população negra angolana vivia na zona rural durante o período colonial, ou seja, menos de 5% vivia nas cidades, onde residia mais de 90% da população branca da colónia. Nas aldeias, o conceito de amontoados de lixo onde pessoas possam procurar comida era uma impossibilidade, pois pessoas que vivem na beira da carestia quase não podem se dar ao luxo de deitar comida fora.

A lógica ao avesso da comida no lixo:

A existência de pessoas que comem no lixo só é possível se há uma parte da população com comida suficiente para deitar fora. Ou seja, o senhor ex-ministro, que esteve no governo quando havia pessoas a comer no lixo sem que isso o incomodasse, nunca poderia ver alguém a comer no lixo no tempo colonial porque não havia sequer comida suficiente para deitar. As pessoas simplesmente morriam de fome, vendiam-se como escravos, vendiam as filhas na prostituição ou emigravam para outras colónias.

Padrões históricos de fome em Angola:

Antes do período colonial, que teve o seu início em 1886, Angola tinha por períodos de secas seguidas por grandes epidemias que matavam entre um terço a metade da população, sensivelmente a cada 70 anos. Com a fase colonial, estas crises passaram a acontecer em todas as décadas.

Evidência documental:

Edward Alsworth Ross mostra no seu “Report on Employment of Native Labor in Portuguese Africa” (1924) que o uso e abuso do trabalho forçado era suficientemente intenso para interferir na agricultura local e acentuar estas crises, como a crise dos anos 30, causada por três anos de seca consecutiva e várias pragas (ratos, gafanhotos, peste bubónica e tuberculose). Para mais detalhes, consulte Jill R. Dias, “Famine and Disease in the History of Angola c. 1830-1930”, The Journal of African History, Vol. 22, No. 3 (1981), pp. 349-378.