O ministro da Agricultura está errado: os Angolanos querem ser pobres

O ministro da Agricultura está errado: os Angolanos querem ser pobres.

O problema em Angola é uma confusão entre querer e desejar. Como disse Sartre, ‘o desejo é a consciência de uma falta, mas só a ação transforma o desejo em um projeto.’ Ou seja, querer é desejar algo e fazer o necessário para trazê-lo à fruição; desejar é só uma vontade sem ação. Se eu notar uma mulher bonita rua, que mova a cobiça de meu peito mas sem falar com ela, estaria eu realmente querendo ela ? Nao, mas seu ele endereçar-lhe a palavra, disposta a aceitar o fracasso ou o sucesso, as duas consequências possíveis de minha impudência. O mesmo se dizer de um aluno que diz querer passar de classe, mas que foge o trabalho intelectual necessário para estudar.

Isso se aplica também ao campo económico: todos desejam ser ricos, mas quantos realmente querem, no sentido de aceitar as causas e sacrifícios? Como Bourdieu observou, ‘o habitus transforma necessidades objetivas em projetos subjetivos, convertendo o desejo em práticas sistemáticas.’

Há também o facto de que muitas decisões foram tomadas antes do nosso nascimento, influenciando-nos. Se olharmos para a média das decisões económicas dos angolanos, não vemos uma vontade clara pela riqueza. Como Foucault apontaria, não é apenas uma questão de vontade individual, mas também das estruturas sociais que moldam essas escolhas.

Do ponto de vista da classe pobre, a alta taxa de natalidade demonstra uma ausência de um desejo genuíno pela riqueza, pois isso perpetua a pobreza, já que nenhum dos filhos recebe o mínimo de atenção, amor, comida e educação. Do ponto de vista da classe média, a obsessão por bens de luxo como iPhones e carros de luxo importados de segunda mão, alias o simples facto que a Jetour faz sucesso com um SUV ao inves de um turismo, que seria mais pratico, ilustra a preocupação do Angolano de classe media pelo status acima a poupança ou do investimento. Angola tem uma baixa taxa de poupança baixíssima e o nosso mercado de capitais atrai pouco investimento. Estes factores evidenciam a falta de uma vontade real de construir riqueza. E do ponto de vista da classe alta, nota-se que muitos envolvidos em esquemas de corrupção o dinheiro para consumo imediato, como casas, garotas de programa e viagens no ultimo escândalo da AGT, que ainda esta a ser julgado, no estilo Major Lussaty. Um corrupto inteligente, sabendo que a ilegalidade tem limites, investiria para criar riqueza produtiva a longo prazo, mas o tolo acha que sempre vai conseguir roubar …

Em conclusão, sim, o ministro está errado, mas não são apenas os agricultores do planalto que querem ser pobres. O angolano médio, em média, quer ser pobre nas suas escolhas, pois não transforma o desejo em um querer consistente.

Fácil exteriorizar preferenciais verbais, porem as colocar em praticar, nisto se sabe o querer verdadeiro das pessoas.